Til, de Jos de Alencar

Fonte:
ALENCAR, Jos de. Til. 2. ed. So Paulo : Melhoramentos.

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A Literatura Brasileira  O seu amigo na Internet.
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TIL
Jos de Alencar

I

Capanga

        Eram dois, ele e ela, ambos na flor da beleza e da mocidade.
        O vio da sade rebentava-lhes no encarnado das faces, mais aveludadas que a aucena escarlate recm aberta ali com os orvalhos da noite. No fresco sorriso 
dos lbios, como nos olhos lmpidos e brilhantes, brotava-lhes a seiva dalma.
        Ela, pequena, esbelta, ligeira, buliosa, saltitava sobre a relva, grrula e cintilante do prazer de pular e correr; saciando-se na delcia inefvel de se 
difundir pela criao e sentir-se flor no regao daquela natureza luxuriante.
        Ele, alto, gil, de talhe robusto e bem conformado, calcando o cho sob o grosseiro soco da bota com a bizarria de um prncipe que pisa as ricas alfombras, 
seguia de perto a gentil companheira, que folgava pelo campo, a volutear e fazendo-lhe mil negaas, como a borboleta que zomba dos esforos inteis da criana para 
a colher.
        Caminhavam por uma recha, bordada de ilhas de mato, que emergiam aqui e ali do verde gramado. Pela ramagem frondente das rvores e renovos que abrolhavam, 
percebia-se a proximidade de uma grande manancial, e entre as crepitaes da brisa nas folhas, como um tom opaco desse arpejo da solido, ouvia-se o murmre soturno 
do Piracicaba, que leva ao Tiet o tributo caudal de suas guas.
        Sete horas da manh haviam de ser. A luz de um sol esplndido flua no ter, que a trovoada da vspera tinha acendrado. O cu arreava-se do azul difano 
onde a fantasia se embebe com a voluptuosidade casta da criana a aconchegar-se dentro, to dentro do grmio materno.
        Bem longe do cu, porm, e bem presos  terra andavam os olhos dos nossos dois amiguinhos, que nem haviam reparado sequer na limpidez da atmosfera. Ainda 
estavam na sazo feliz, em que respira o cu, como o ar da vida, e o aroma do campo, quase sem sentir.
        As flores, que a noite desabrochara; aos frutos silvestres que enfeitavam a copa das rvores; aos passarinhos que trinavam embalando-se nas franas dos coqueiros; 
ao que era da terra e bem da terra, iam os impulsos desses jovens coraes, quando no se volviam um para o outro, a reverem-se entre si.
        O cu, essa imensa tela azul, que foi cpula de um bero, o da luz, e ser mais tarde vu de um leito, o da vida; a alma s o procura, s o contempla, quando 
a dor a prostra. Mas para aquela que sorri e folga, o firmamento  uma terra por descobrir e debuxa-se vagamente na imaginao, como a montanha azul desse vale de 
lgrimas.
        Algumas vez deixava o rapaz de seguir com o passo a menina, para acompanh-la com a vista. De braos cruzados sobre a coronha da clavina de caa, fitava 
os grandes olhos pardos com tal possana dalma, que mais parecia absorver e entranhar em si o gracioso vulto, do que enlevar-se em sua contemplao.
        Acaso, em uma dessas ocasies, voltou-se de chofre a menina para ver onde ficara o companheiro e deu com ele a fit-la daquele modo estranho.
        - Que me est olhando a? Nunca em viu? exclamou com surpresa, mas travada sempre da petulncia que animava-lhe todos os movimentos.
        No era para voc! respondeu rpido o moo, baixando a cabea de modo a ocultar o rubor que lhe afogueava o rosto.
        Para confirmar o disfarce, armou a clavina e fez pontaria a um cardeal que se embalava no topo de uma palmeira.
        - Miguel!...
        Esta sbita exclamao rompeu dos lbios da menina, trmula de susto, espanejando-se com a mesma alegria, que no se estancava nunca, e alguma vez represa, 
borbulhava depois com fora maior.
        De repente parou; imvel, quase esttica, uma lividez mortal jaspeou-lhe as feies, enquanto os olhos se pasmavam em um ponto alm.
        A orla do mato assomara o vulto de um homem de grande estatura e vigorosa compleio, vestido com uma camisola de baeta preta, que lhe caa sobre as calas 
de algodo riscado. Apertava-lhe a cintura rija e larga faixa do couro mosqueado do cascavel, onde via-se atravessada a longa faca de ponta com bainha de sola e 
cabo de osso grosseiramente lavrado.
        Em uma das bandoleiras trazia o polvarinho e munio; na outra suspendia um bacamarte, cuja boca negra e sinistra aparecia-lhe na altura do joelho esquerdo, 
como a face de um drago que lhe servisse de rafeiro.
        As mangas da camisa, tinha-as enroladas at o cotovelo, bem como a parte inferior das calas que arregaava cerca de um palmo. Usava de alpargatas de couro 
cru e chapu mineiro afunilado, cuja aba larga e abatida ocultava-lhe grande parte da fisionomia.
        Vinha ele em direo oblqua ao caminho dos dois jovens, e mal avistou a menina, logo desviou-se do rumo que levava no intuito de evit-la; mas achando-se 
por isso fronteiro com Miguel, escapou-lhe o gesto de contrariedade e tomou o partido de parar  espera que os outros se fossem, deixando-lhe passagem livre.
        De seu lado estremecera o rapaz ao dar com os olhos no homem da camisola, e tal foi a comoo produzida pelo encontro, que derramou-lhe no semblante a expresso 
de um asco misto de horror, arrancando-lhe involuntariamente dos lbios esta exclamao:
        - Jo Fera!...
        No se abalou o mal encarado sujeito; e Miguel, corrido do primeiro assomo de terror, que lhe embotava os brios de valente e galhardo, reagia com uma travessura 
de rapaz.
        Levou ao rosto a espingarda fingindo arm-la, e apontou para o outro.
        - Atire! disse aquele com a voz arrastada e indolente.
        E promovendo um passo, apresentou com desgarro o peito  mira da espingarda de Miguel, que j arrependido do gracejo, abaixava a arma.
        - Pois olhe! tornou o homem da camisola com a mesma voz de arrasto: fazia um bem a mim... e a outros!
        - Por que, Jo?
        Fora da menina esta pergunta. Colocada alm de Miguel no vira a meno do tiro, feita de brinquedo por este, e s voltou-se e compreendeu o que passara, 
ao ouvir as ltimas palavras.
        - Esta vida me cansa! respondeu Jo com arquejo.
        - Ests com saudade da forca? retorquiu Miguel com chasco de desprezo.
        Ouviu-se um fungar, como o das narinas da ona quando bufa, e arrepia ao mais bravo caador, que sente lhe estar ela tomando faro ao sangue tpido. De um 
pulo achou-se o facnora a rosto com o rapaz, que armara intrepidamente a espingarda, preparado a morrer com dnodo.


II

Na tronqueira

        Atalhou a menina o mpeto a Jo, arrojando-se em frente, e cobrindo com o talhe delgado o corpo de Miguel. Seu olhar cintilante trespassou o olhar fero do 
capanga como a lmina de um estilete cravando uma couraa.
        - Vai embora! disse ela com imprio; e a voz parecia ranger-lhe nos lbios plidos.
        Foi a pupila inflamada e sanguinria do assassino a que abateu-se.
        Recolhendo o passo, quedou-se um instante perplexo, absorto por uma luta  que se renhia dentro, procela a subverter o plago insondvel dessa conscincia.
        Rompeu-lhe do seio uma sublevao contra o poder misterioso e incompreensvel, que lhe agrilhoava com um fio de cabelo as pujanas terrveis do corao, 
at a indomvel e sedento como a sanha do tigre.
        Levantou os olhos carregados de clera.
        - J! imps-lhe a menina, que pressentira a reao, e como da primeira vez, a retalhava com o gume do seu olhar.
        Ainda hesitou o facnora; mas afinal, vencido por ignoto poder, curvou a cabea, e de um arranco visvel afastou-se vagarosamente com um passo to pesado 
que lhe custava a arrancar do cho a palma do p. Duas ou trs vezes, antes de encobrir-se na alta capoeira, voltou a cabea; mas encontrava os olhos cintilantes 
da menina; e, apesar do grande esforo, vergava ante a inflexvel repulsa.
        - Foi-se! disse Miguel.
        O rapaz assistira imvel  rpida cena, partido entre o pensamento da defesa e a admirao pela coragem da linda companheira, que afrontava-se com o terrvel 
facnora.
        Vendo este sumir-se no mato, escapara-lhe dos lbios aquela exclamao de surpresa, e acompanhou-a logo de um gesto que no era de v ameaa, mas de firme 
resoluo.
        - Algum dia nos havemos de encontrar!
        - Que lhe fez ele? perguntou a menina a rir.
        Em seu lindo semblante j no restavam traos da comoo que nela produzira a cena anterior. Como a onda cristalina, que turva um instante a asa negra da 
borrasca e logo aps reflete a bonana do cu, era seu olhar sereno e meigo.
        Ningum diria que nesse corpo mimoso dormia a alma que se revelara poucos momentos antes e parecia espedaar o frgil e delicado invlucro; ninfa celeste 
a romper a argila de sua formosa crislida.
        - Que me fez, Inh? repetiu Miguel surpreso da pergunta.
        - Foi voc quem buliu com ele, que ia seu caminho descansado.
        - Para a tocaia!
        - De quem? interrogou a menina assustada.
        - Sei l! Quando o bugre sai da furna,  mau sinal: vem ao faro do sangue como a ona. No foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz gabo disso!
        - Ento voc cuida que ele anda atrs de algum?
        - Sou capaz de apostar.  uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jo Fera, ou houve morte ou no tarda.
        Estremeceu Inh com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa.
        - Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou  casa de Zana, e no apareceu nenhuma desgraa.
        -  que anda farejando, ou seno deram-lhe no rasto e esto-lhe na cola.
        - Coitado! Se o prendem!
        - Ora qual. Danar um bocadinho na corda!
        - Voc no tem pena?
        - De um malvado, Inh!
        - Pois eu tenho!
        - Mas por que  que este demnio que no faz caso de ningum, e at mata as crianas, sofre tudo de Inh, como ainda h pouco? Por que ?
        - No sei, Miguel! disse a menina com ingenuidade.
        - Estou vendo que voc tem algum patu, como dizem as pretas da fazenda.
        - E tenho mesmo! Olhe! aqui est! exclamou a menina a rir-se, mostrando um bentinho que tirou do seio, onde o trazia com uma cruz, preso a um cordo de ouro.
Ento  encanto; no h dvida, replicou Miguel sorrindo.
        - E eu digo que no.
        - Ora, todos sabem!
        - Ningum sabe, nem eu mesma, s Deus; mas eu cuido uma coisa.
        - O que?
        -  porque no tenho medo dele.
        - Qual!...
        - Nenhum; nenhum!
        - Mas voc ficou mais branca do que uma cera, que eu bem vi.
        - De raiva s! respondeu a menina com expresso.
        Tinham os dois companheiros chegado ao lugar, onde a vereda que seguiam atravessava um carreador. Perto dali ficava a tronqueira de bater, a qual dava entrada 
s terras de uma fazenda, cercadas pelo fosso largo e profundo, que serve para resguardar a cultura contra o gado daninho.
        Inh, que de uma corrida alcanara a tronqueira, subiu de salto pelas travessas, como faria se fossem os degraus de uma escada, e sentou-se na ltima bem 
concha de si. Levantando ento a aldraba de ferro e empurrando com o p a cancela, comeou a balanar-se com um prazer infantil.
        Parado em meio do caminho ficara Miguel contemplando-a com uma expresso de contrariedade. Parecia afligir-se de ver sua graciosa companheira fazer-se criana, 
e trocar pelas afoitezas de um traquinas as cintilantes vivacidades da mocinha faceira.
        Sentia ele dentro em si uma nsia incompreensvel, qual tem-na o artista olhando o toro de mrmore de que seu cinzel vai criar uma esttua. Mas essa, que 
lhe vive e palpita nalma, ainda o mrmore no a recebeu, e quem sabe se poder ele nunca mold-la como a desenhou a imaginao.
        Tal era Miguel ante aquele esboo da mulher que sonhava e, j alguma vez, entrevira em realidade, mas como uma luz efmera, quase instantnea, bruxuleando 
entre as cismas de seus passeios solitrios pelos campos. Os mesmo mpetos do artista, cortados pelo desnimo, tinha-os ele nos momentos em que via, como agora, 
transformar-se de repente a fada gentil de seus sonhos em uma capetinha de mil pecados.
        Sua alma refrangia-se, ferida pela decepo; e por isso, desviando a vista da menina, atravessou o carreador e trilhou a vereda que embrenhava-se pela mata 
fechada, a pequena distncia da.
        - Psiu!... Onde vai? perguntou Inh surpresa.
        Miguel parou.
        - J se esqueceu do caminho? continuou ela a rir.  por aqui!
        - O meu no! respondeu o rapaz.
        E partiu.
        Nesse momento soou a distncia um agudo assobio, e Inh viu resvalar entre a folhagem,  orla da mata, um vulto que lhe pareceu Jo Fera.

III

Ela

        A embalanar-se na tronqueira, Inh seguia com os olhos o rapaz que afastava-se.
        Miguel tinha razo. To ardilosa era a expresso do rostinho da menina e to brejeiro seu olhar, que a transfiguravam completamente. Quem assim a visse, 
julgaria ter diante de si, a chasque-lo, o trejeito garoto de um caipirinha.
        Para essa iluso muito concorriam o tipo e o traje da moa.
        Era ela de pequena estatura e to delgada e flexvel no talhe, que dobrava-se como o junco da vrzea. As formas da graciosa pubescncia, que um corpinho 
justo debuxaria em doce e palpitante relevo, as dissimulava o frouxo corte de uma jaqueta de flanela escarlate com mangas compridas, e desabotoada sobre um camisote 
liso, cujos largos colarinhos se rebatiam sobre os ombros,  feio dos que usavam ento os meninos de escola.
        Servia-lhe de toucado um chapu de palha de coco tranada, sob o qual escondia os lindos cabelos negros cacheados, que s vezes, com os saltos, escapavam 
da priso e vinham folgar sobre as espduas. Calava grossos coturnos de couro de veado, mas to altos que mais pareciam botas; e comparando com as de Miguel, se 
diriam irms na forma, a no ser o tamanho, onde alis afogava-se o pezinho bulioso.
        Ainda assim no estava Inh contente, pois metiam-lhe inveja o pala e as calas de brim do companheiro; mas sobretudo a clavina de caa que ele trazia ao 
ombro.
        Para t-la, e carreg-la assim, daria ela naquele momento sem hesitar as soberbas tranas de seus longos cabelos, que lhe estavam metendo figas e zombando 
das duas pretenses a rapaz.
        Se a estreita saia de chita dava a esse vesturio um trao feminino, acusando um contorno harmonioso, por isso mesmo ela em seus momentos de luta com a natureza 
parecia caprichar em destruir aquele vestgio de seu sexo. Os pulos que soltava, a firmeza de seu passo gentil que ela de propsito fazia rijo, imprimiam com efeito 
certa aspereza e nervura a seus movimentos sempre encantadores, apesar de tudo.
        Os grandes olhos, negros, claros e serenos, como um lago cristalino imerso na sombra, no podiam negar que fossem de mulher: tinham a difana profundidade 
do cu, cheia de enlevos e mistrios.
        A boca mimosa e breve, conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do sorriso. Mas quando o brinco iluminava essa fisionomia, e o capricho quebrava-lhe 
a harmonia das linhas do suave perfil, era cobrir-se com a mscara do rapazinho estouvado, que ela teria sido sem dvida, se a natureza no lhe trocasse o destino.
        Nesse prisma da lindeza de Inh reflete-se a sua ndole. Aquela alma tem facetas como o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz 
que a fere.
        Contradio viva, seu gnio  o ser e o no ser. Busquem nela a graa da moa e encontraro o estouvamento do menino; porm mal se apercebam da iluso, que 
j a imagem da mulher despontar em toda sua esplndida fascinao. A anttese banal do anjo-demnio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no 
olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixo,  semelhana do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.
        Cheia de carcias e gentilezas no princpio do passeio, fechara de repente a flor de sua graa e envolvera-se naqueles ares zombeteiros, que pungiam como 
espinhos o corao de Miguel. Poucos momentos antes, estremecera de susto vendo armar-se uma espingarda para atirar a um passarinho; e logo aps arrostara sem hesitar 
a sanha de um assassino feroz, cujo senho incutia pavor aos mais intrpidos.
        E assim  tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada instante, sua existncia tem a constncia da volubilidade. Na vaga flutuao dessa alma, como 
no seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra apaga a luz; uma forma devanece a outra; ela  a imagem de tudo, menos de si prpria.
        Teria o rapaz dado vinte passos quando a menina o chamou, mas com ar de remoque:
        - Escute!... Nh Miguel, ora escute!
        Como no a atendesse o companheiro, que se fingia ou estava deveras zangado, Inh saltou da tronqueira, e alcanando o rebelde de uma corrida, tomou-lhe 
o caminho.
        - Onde vai?
        - Caar.
        - Depois; agora vamos  fazenda.
        - Eu no! disse Miguel prontamente.
        - Que pirraa  esta?
        - No tenho que fazer l.
        - Mas tenho eu.
        - Todos os dias? perguntou Miguel fitando nela um olhar perscrutador.
        - Se eu gosto!
        Essa ingnua confisso, f-la a menina com um gesto encantador, rasgando os grandes olhos puros e brandos, como se abrisse os seios dalma ao pensamento 
suspeitoso do companheiro. Foi o olhar deste que abaixou-se encadeado e cego com a reverberao; e o rubor queimou-lhe as faces, enquanto a menina banhava-se em 
um sorriso de canduras.
        - Pois v s! replicou o rapaz virando.
        - Para Linda agastar-se comigo?
        - No tenha susto.
        - Voc  um ingrato, nh Miguel: no paga o bem que lhe querem.
        - Deixe-se desses brinquedos, Inh.  por isso mesmo que eu no vou mais  fazenda e tambm para... no ver certas coisas.
        - O que?... Mec, diga; por favor! acudiu a menina para bulir com o rapaz.
        - Cuida que eu no reparo como Afonso brinca tanto com mec?
        - Mec, hein?...
        - Que me importa! Hei de dizer mec.
        - Est disfarando! No quer que se fale dos segredinhos com o Afonso?
        - E faz mal isso? perguntou a menina com sincera surpresa.
        Aumentou-se o vexame de Miguel, que mordia os beios com o desejo de soltar uma palavra, e se continha pelo receio do desagrado da menina.
        - Mas no v que Afonso gosta de voc.
        - Estimo bem! disse Inh dando uma pirueta.
        - Ento?...
        - Acabe!
        - Ento Inh tambm gosta dele?
        - Tambm!
        - Ah!
        - Tanto como de voc, nh Miguel!
        - Muito obrigado! retorquiu Miguel com um modo seco.
        - Por isso agora ficou a todo amuado?
        - At logo; j me vou.
        - No vai, que eu no quero! Exclamou a menina com despeito, e impedindo-lhe o passo.
        - Ento voltemos para a casa.
        Inh aproximou-se do companheiro e o envolveu de um olhar carinhoso.
        - Olhe! se voc no vier, Linda fica triste, coitadinha, to bonita, com aqueles olhos to ternos, que ela tem, de pomba-rola; e aquele rostinho de redoma, 
que  mesmo uma santa quando se ri no cu. Venha, eu lhe peo, meu bom Miguel.
        Fascinado estava o Miguel, mas no pela imagem que lhe descrevia Inh, seno pelo original que tinha diante de si, e o embebia na meiguice de seu olhar e 
na ternura de seu carinho.
        - Mas eu no gosto dela, balbuciou o moo.
        Pois no fale mais comigo, disse a menina arrufada.
        - Escute, Inh!
        - Vem?
        O rapaz hesitava.
        - Voc promete?...
        - No prometo nada.
        - Se Afonso quiser brincar com voc...
        - Eu hei de brincar com ele, muito, muito, muito!
        Cada um destes advrbios, a menina o acentuou batendo com o taco no cho.
        - Ento no vou!
        - No venha! Quem lhe pede?
        Caminhou ela direito  tronqueira; e entrou na fazenda.




IV

Monjolo

        Cerca de uma lgua abaixo da confluncia do Atibaia com o Piracicaba, e  margem deste ltimo rio, estava situada a fazenda das Palmas.
        Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que ento contava a provncia de So Paulo, e foram convertidas a ferro 
e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos campos de Ipu, ainda restam grandes matas, cortadas de roas e cafezais. 
Mas dificilmente se encontram j aqueles gigantes da selva brasileira, cujos troncos enormes deram as grandes canoas, que serviram  explorao de Mato Grosso. Da 
partiam pelo caminho dgua as expedies que os arrojados paulistas levavam s regies desconhecidas do Cuiab, descortinando o deserto, e rasgando as entranhas 
da terra virgem, para arrancar-lhe as fezes, que o mundo chama ourn e comunga como a verdadeira hstia.
        No ano de 1846 era de recente fundao a fazenda das Palmas, que Lus Galvo, seu proprietrio, recebera de herana paterna, ainda nas condies de simples 
situao, com um velho casebre de caipira, dois cafezais e alguma pouca roa.
        Tinha Lus Galvo o gnio empreendedor e gosto para a lavoura; casando com a filha de um capitalista de Campinas, que lhe trouxe de dote algumas dezenas 
de contos de ris, alm do crdito, pode ele, dando alas  sua atividade, fundar uma importante fazenda, que a muitos respeitos servia de norma e escola ao agricultor 
brasileiro.
        Ao passo que ia se adiantando a lavra das terras, erguia-se na chapada fronteira ao rio uma bela casa de morada em dois lances abarracados, com um pequeno 
mirante no centro, sobreposto  larga portada; esta abria para o patamar, ladrilhado, de uma pequena escada de seis degraus, que descia ao terreiro.
        Formava o edifcio uma face da vasta quadra, onde se fora levantado sucessivamente casas para o administrador e feitores, senzalas para os escravos, o engenho 
de cana, a fbrica do caf, tulhas de feijo e milho, alm de outros acessrios do grande estabelecimento rural, que veio a tornar-se depois a fazenda das Palmas.
        Do terreiro da casa partia o caminho principal da fazenda, que se estendia pelo espigo da colina, e bifurcava-se de espao a espao para serventia das vrias 
jeiras de lavoura. O ramo principal, fugindo os alagados e descrevendo uma grande curva, ia entroncar-se, a meia lgua de Santa Brbara, na estrada geral da Constituio 
a Campinas.
        No ponto em que esse carreador transpunha o valado principal da fazenda, a fechando tambm por uma tronqueira, um cavaleiro embuado, oculto no carrasco, 
levou ambas as mo  boca e imitou o canto do curiau, soltando um apito longo e cheio; o mesmo que ouvira Inh.
        Imediatamente o prximo canavial ondulou, e surdiu na ourela um negro moo, com o corpo nu at a cintura e a camisa atada aos quadris  guisa de tanga. Os 
lanhos das faces indicavam a casta monjola do africano, em cujo rosto se desenhava a astcia do gamb e alguma coisa do focinho deste animal.
        - Quem s tu? perguntou o cavaleiro vendo o negro dirigir-se a ele.
        - Monjolo, meu branco. Faustino mandou dizer a senhor que tudo se arranjou como ele prometeu.
        - Mas por que no veio ele mesmo?
        - Pois o branco no v que ele est l em casa ocupado!
        - Pedao dum tratante!
        - Gente desconfia; ento essa cambada de pajens e crioulos, que  mesmo da pele do co.
        - O patife quer trapacear!
        - Branco est de orelha em p; pois olha, Monjolo  negro de bem; quando ele d sua palavra e aperta dedo mindinho, est acabado,  como rabo de macaco: 
quebra, mas no solta galho, por nada desta vida, nem que arrebente.
        - Anda l, bruto, desembucha duma vez o recado, que no estou para aturar-te.
        - Ixe!... disse o preto fazendo um momo de pouco caso.
        - Falas ou no!
        - Que  que o senhor quer saber?
        - O diabo sempre vai hoje  vila?
        - Vai, meu branco; o diabo vai, mas no  capaz de cair no inferno, no!
        - Algum o h de empurrar. A que horas sai ele da fazenda?  mesmo de manh?
        - No tarda. Cavalo j est selado; capanga s vai um, mofino como o qu! Os outros, Faustino arranjou, como branco sabe.
        - Ento s leva duas pessoas?
        - Duas s, sim senhor. Paje e capanga.
        - Est bom; toma l, para o pito, disse o cavaleiro atirando-lhe um pataco de prata. Agora v se vais dar com a lngua nos dentes.
        - Eh!... Monjolo mesmo!... Branco no conhece este negrinho da carepa, no!
        J no o ouviu o embuado que, dando rdeas ao animal, afastou-se na direo da estrada geral.
        Era acidentado o terreno, que atravessava esse caminho, cortado no macio de uma mata virgem, to exuberante, que todos os anos fechava com os renovos da 
vegetao a picada aberta no inverno. O solo a, como em toda a cercania, cobre-se de uma crosta da argila roxa, afamada na provncia por sua espantosa fertilidade. 
Em verdade, quando se deixa Campinas, e a pata dos animais comea a triturar essa terra ferruginosa, to fcil de converter-se em p sutilssimo como em profundo 
tremedal, a natureza muda de aspecto; arrea-se de galas, e aos campos to montonos, embora clebres, de Piratininga, sucedem os bosques frondosos de Piracicaba.
        No obstante ser o caminho em toda a sua extenso, desde a extrema da fazenda, coberto e sombrio, havia contudo um lugar, cujo torvo aspecto correspondia 
ao terror supersticioso que inspirava e  sinistra reputao que adquirira.
        Pouco alm da interseo de outra picada, coleava o caminho algum tempo entre maraches cobertos de arvoredo, e por fim metendo-se pela garganta de um rochedo 
escabroso, descia em ziguezagues para remontar a oposta rampa de profunda grota. Como se no bastasse essa conformao cavernosa do terreno, a vegetao nutrida 
pelo humo vigoroso que as enxurradas depositavam nesses barrocais, exuberava sua maior pujana, e frondeava as rvores seculares, embastindo as sebes de verdura 
que vestiam os grossos troncos e lastravam pelos penhascos.
        Da gente da vizinhana era conhecido aquele lugar por Ave-Maria, talvez de no passar algum ali, sem romper-lhe dos lbios trmulos aquela imprecao de 
susto. Nem sempre fora com eficcia invocada a divina padroeira, pois a tradio conservava o nome das vtimas, que a haviam sucumbido.
        Nenhum stio em verdade se encontrara to azado para uma emboscada. Ali oculto, um sicrio conseguiria a salvo dar conta de uma comitiva, sem que os companheiros 
se pudessem mutuamente defender, nem mesmo aperceber-se da sorte que os aguardava, tal era a estreiteza do sinuoso desfiladeiro.
        Dizia a gente do lugar que ouvia-se na azinhaga funesta um incessante gemido de agonia; e no faltava quem o atribusse s almas penadas dos infelizes que 
a se finavam insepultos e devorados pelos urubus.

V

A tocaia

        Ao sumir-se na espessura, Jo Fera voltou o rosto e por entre a basta ramagem esteve a contemplar o vulto esbelto da menina.
        Ao passo que se engolfava nessa fascinao, ia-se operando a transfigurao completa de sua fisionomia.
        O perfil adunco e chanfrado, que revestia a beleza feroz e sinistra do abutre, embotou a rispidez, saturando-se de uma bruteza alvar. Intumesceram-se as 
faces, pouco antes crispadas pela cerrao habitual das maxilas, e tomou a tez um tom fouveiro, indcio da ebulio do sangue a ferver-lhe em bolhas no corao.
        As fulvas papilas que se encovavam pelas tmporas, como tigres nas furnas, saltaram das rbitas, dilatadas por um fluido espesso que tinha a fosforescncia 
felina. De ordinrio avincava-lhe a fronte uma ruga saliente, que depois de fender-lhe o sobrolho, partia-se em duas plicas profundas como gilvazes, a lhe cortarem 
o rosto. A temulncia da paixo injetando os msculos e insuflando as narinas, apagou todos aqueles sulcos rasgados pela sanha; e at os lbios sempre cosidos  
feio de uma cicatriz, agora trgidos arregaavam, mostrando pela estreita comissura os dentes agudos.
        Assim o aspecto do homem ralado por uma sede intensa ou calcinado pela chama violenta que ardia interiormente, afinal tomara a fisionomia da sensualidade 
brutal, onde como na brama do tigre, ressumbrava a ferocidade do amor.
        Oculto no mato, foi o capanga, qual ao arrasto de uma cadeia, seguindo maquinalmente Inh, atravs do campo. Muitas vezes, na absoro que ia, mostrou-se 
a descoberto, no o tendo percebido os dois companheiros, por estarem com a ateno presa na conversa.
        Quando, porm, a menina sentou-se na tronqueira, voltada para o lado donde viera, aconteceu de v-lo na ocasio de atravessar a nesga de campina, que separava 
os dois bosques. Turbado com aquele acidente, irritado por se ter mostrado naquele instante, Jo Fera rompeu o encanto da fascinao que o atava e embrenhou-se na 
floresta.
        Era justamente a ponto, que ao longe estrugira o assobio do curiau, repercutindo pelos recessos da mata e algares das barrancas.
        Estugando o passo, chegou o capanga  Ave-Maria. Ali encostado ao tronco de uma rvore, com os braos cruzados e a cabea fincada ao peito, submergiu-se 
nas profundezas daquela alma, que devia ter cavernas tremendas e insondveis abismos.
        - Amanh quando souber, pensar que fui eu!...
        Murmurando estas palavras, uma expresso de angstia derramou-se pelo semblante do facnora, que se confrangeu, como se uma tenaz lhe estivesse a triturar 
o corao. Que medonha era a dor nessa natureza sanguinria, que se apascentava de cruezas e homicdios!... O eu humano  como sua besta: manso, quando frugal; rbido, 
se o fazem carnvoro; por isso em casa sentimento h o trasunto da histria de nossa alma.
        Naquele momento Jo Fera sofria a suma de todos os sofrimentos que derramara em seu caminho; de todas as nsias, que sua mo levantara. Tudo nesse homem, 
a dor como a alegria, a raiva como o amor, a gula como a embriaguez, revestia a natureza da fera; tinha fauce para devorar, e garras que lhe dilaceravam o cho da 
alma, como a pata da suuarana escarva a terra no arremessar do pulo.
        Durou rpido trato essa agonia moral; e no podia prolongar-se que o rijo corao, vaso frgil para cont-la, embora acrisolado ao fogo das paixes tempestuosas, 
ia estalar.
        Abalou-se o corpo vigoroso com um forte calafrio, que sacudiu-lhe a terrvel obsesso; e o facnora surgiu outra vez audaz e ameaador. Rebatendo o chapu 
com um revs de mo, descobriu a fronte rija e alta, que se escalvava entre uma floresta de cabelos negros. Outra vez se descarnou a sua fisionomia com a expresso 
dura, rspida e incisiva, que lhe dava a aparncia de um perfil talhado em gume de ao.
        -  sina! proferiu no tom implacvel do fanatismo.
        Com pouco reboou das barrocas da azinhaga o tropel de um cavalo. Jo Fera acostumado a distinguir nos rumores da mata as vrias notas que formavam a surdina 
da floresta, inclinou o ouvido  escuta. No se enganara; o animal vinha naquela direo e aproximava-se rapidamente.
        Galgando ento pelos socalcos do imb, que descia dos galhos de um prcero jequitib, alcanou o tope no rochedo, donde se descortinava entre o rendado das 
folhas uma volta do caminho.
        No tardou que apontasse ali, para sumir-se logo na curva da estrada, um cavaleiro.
        Era o mesmo embuado que falava pouco antes com Monjolo. Orava pelos cinqenta anos; barroso da cara que lhe cobria uma barba ruiva e spera como as cerdas 
da capivara; de mediana estatura e excessivamente magro; vinha trajado ao uso da terra: chapu mineiro de feltro pardo, sob o qual via-se o leno de Alcobaa que 
lhe servia de rebuo; poncho de pano azul forrado de baetilha, com a gola de belbute levantada; botas de bezerro armadas de chilenas de prata.
        Os lbios do capanga, onde flutuava um sorriso de desprezo, contraram-se logo, e arrojou-se o corpo  frente para no desprender a vista assanhada do cavaleiro, 
que sumira-se na curva do caminho. Desceu rpido ao rs da azinhaga, por onde breve meteu-se o desconhecido.
        Mal que assomou este no alto da rampa, a pupila injetada do capanga cravou-se-lhe no semblante e o atraa como a garra do abutre; a par, os dedos da mo 
direita afagavam com certa volpia feroce o longo cabo da faca, passada  cinta, e j a meio fora da bainha.
        No parecia o embuado muito senhor de si e tranqilo de nimo; pois lanava a um e outro lado olhos inquietos e investigadores,  feio de quem temia e 
perscrutava algum perigo oculto naquelas brenhas que o cercavam. Alguma vez hesitou, como incerto da resoluo que devia tomar; olhou para trs, ou enfrestou pela 
vereda que serpejava diante dele vistas impacientes. Dir-se-ia que vacilava, entre continuar e retroceder; ou qui julgava-se transviado, e procurava afirmar-se 
no caminho para ele desconhecido.
        De chofre empinou-se o cavalo, arremessando o homem sobre a escarpa da barranca, donde rolou ao trilho, como um corpo inerte.

VI

O empenho

        O capanga abatera um olhar de nojo para o cavaleiro que lhe veio rolar aos ps.
        A faca brandida com fora vibrava ainda no tronco do jequitib, onde cravara a cabea de um urutu, que estorcia-se de fria e dor.
        Fora a negra serpente que espantara o animal, quando enristou-se como uma lana, fincando a cauda e chofrando o bote. Advertido pelo faro, antes de ver altear-se 
o negro colo, o cavalo rodara sobre os ps; e a cobra ameaada pelos cascos elou-se ao tronco, onde a alcanara a mo certeira de Jo Fera, que j tinha apunhado 
a faca.
        Recobrando-se do atordoamento da queda, ergueu-se o desconhecido, a apalpar o corpo um tanto pisado e a sacudir a roupa.
- Apre! resmungou ele. Escapei de boa.
O capanga lanou-lhe um sorriso esguardo:
        - Desta vez escapou, disse ele com surda entonao.
        Dirigiu-se ao tronco e arrancou a faca, depois de esmagar a cabea da urutu.
        - Que diabo  isso? perguntou o embuado.
        - No v? retorquiu Jo limpando nas ramas a folha da faca.
        - Agora penetro porque o diabo do ruo pinchou-me!
      Cuidando ento do cavalo que podia fugir-lhe, o desconhecido ps-lhe cerco, e com algum trabalho conseguiu colher as rdeas; feito o que tornou ao lugar, onde 
havia deixado o capanga.
        Este o esperava impassvel, mas um tanto absorto.
        - Como se chama o senhor? perguntou bruscamente ao cavaleiro.
        - Oh, homem, lembrou-se disso agora! tornou o outro um tanto ressabiado.
      - Quando o senhor me procurou h tempos para seu negcio, no me disse como se chamava.
        - Porque no era preciso.
        - Nem ontem quando me avisou para estar aqui; prosseguiu o capanga sem interromper-se. Mas agora h de dizer: quero saber com quem trato.
        - Para que? Desde que a gente paga... Ou desconfia o senhor de mim?
        - Ningum me logra, disse Jo com um sorriso mostrando a faca. Tenho este fiador. O ponto  outro; s avano com quem conheo.
        - Pois no seja essa a dvida. Com os diabos; chamo-me Barroso!
        - Nunca morou aqui em Santa Brbara?
        Com essa interrogao ferrou o capanga olhar perscrutador no semblante do cavalheiro.
        - Eu?... Que esperana!... De Sorocaba todo inteiro!  a primeira vez que botei-me c para estas bandas.
        Isto, disse-o Barroso com segurana e desplante.
        - E por que tem gana ao homem?
        - Ora essa! Fez-me uma; e jurei que havia de pagar com usura.
        - Histria de mulher? perguntou o capanga vibrando-lhe um olhar ardente.
        - Quem se embaa agora com saias? No sou nenhum balo! Quer saber o que me fez o diabo? Teve o atrevimento de dizer em certa parte que, se lhe passasse 
a tronqueira da fazenda, mandava-me amarrar ao mouro por seus negros e surrar-me com um calabrote!
        - Ah! Ele disse isto?
        - Com certeza; mas daqui h pouco vamos saldar as contas. Ele vem a; no tarda.
        - Mas que escndalo teve o homem do senhor, para dizer isso!
        - Essa maldita poltica! Se eu guerreei a chapa dele; eu c sou do governo!... Mas escute. Arranjou-me tudo; o patife s traz um capanga e o pajem; por conseguinte 
desta vez no tem desculpa.
        O capanga levantou os ombros com ar de indiferena.
        - J sei; v andando.
        - Posso ficar aqui mesmo.
        - Fique, mas j lhe aviso. Quando eu vejo vermelho, no conheo quem est perto de mim.
        - Safa!... Neste caso vou por a afora, at a venda do Chico Tingu. L o espero, homem; e com o resto da chelpa. Duas onas, das suuaranas, bem amarelinhas, 
ou trs canrios,  vontade do amigo, contanto que desta feita acabe-se o negcio. J o diabo podia Ter comido muita terra, se c o camarada fosse mais decidido.
        s ltimas palavras de barroso o capanga abaixou o olhar, e um repentino enleio atou aquela organizao robusta e audaz, que difundia em torno de si a plenitude 
da sua pujana. Alguma fibra vital fora dolorosamente pungida, que o confrangia, amortecendo o natural orgulho e arrojo do carter.
        - S tenho uma palavra, sr. Barroso! disse afinal com a voz firme e grave.
        - Mas est custando a cumpr-la; confesse-se!...
        Franziu ainda mais o sobrolho a Jo Fera, que mordeu os beios a tirar sangue. Acabava de estrangular a jura, que a destra j se preparava para cravar no 
corpo de quem ousava duvidar de sua palavra.
        - Se da primeira vez em que o senhor me falou na venda do Chico, tivesse logo dito quem era o homem; eu certo que no aceitava o ajuste, nem recebia os seus 
vinte pataces para tomar o empenho que tomei.
        - Por que ento?
        - Basta que eu saiba. S depois  que me disse, quando eu j tinha gasto seu dinheiro. Esperava ganhar para lhe restituir; e por isso ia deixando a coisa 
para mais tarde, pois o senhor h de lembrar-se, que minha promessa foi dar conta do homem at So Joo que vem cair l para a outra semana. Sou senhor de minha 
vontade, fazer hoje ou amanh, quando me parecer, desde que naquele dia minha palavra estiver cumprida. A est a razo...
        - Quem duvida que o camarada  um homem honrado? Ento eu no sei com quem lido?
        - Deixe-me acabar. A est a razo de no ter eu dado conta ainda da sua obra. Queria ver se me vinha alguma prata para livrar-me deste empenho. O senhor 
no v diferena em mim?
        - Alguma, para falar a verdade.
        - Pareo um tocador de tropa. Vendi o que tinha, e pouco era; mas no ajuntei seno estes magros cobres, que trago aqui na burjaca, veja. Quer receb-los, 
e soltar a minha palavra, empenhando eu a minha vida para pagamento do resto?
        - Isso nunca! O trato est em p!
        - Fechou-se o capanga, assumindo outra vez a calma e possana de si mesmo:
        - Estou ciente. O senhor cobra a sua dvida; eu pago-lhe na moeda que tenho, nesta, disse batendo na bainha da faca. V descansado; hoje ficamos quites.
        - Esse falar agora me agrada mais; e at, olhe l, por cima do prometido, sempre a gente h de escorregar uma molhadura, se a obra for bem feita.
        - Dispenso, retorquiu-lhe com uma desdenhosa conciso.
        - Ande l. Ento na venda do Chico? perguntou Barroso com o p no estribo.
        - J disse.
        - E logo que despachar o diabo?
        - Sim!
        - Boa mo, camarada.
        Ganhando a sela, seguiu Barroso o trilho escarvado da azinhaga, e alcanada a plancie, afastou-se a galope do stio mal-assombrado.
        Entretanto, o capanga ouvindo o tropel do animal a perder-se na distncia, murmurava consigo:
        - Aquela cisma que eu tive h pouco!... Se no fosse o urutu!... No cabo no era ele, sem falar que estou lhe devendo...
        E acrescentou:
        -  preciso acabar com isto! H de ser o que Deus quiser.
        Suspendendo o corpo do urutu  ponta de um galho, ia tirar-lhe a pele, para gastar o tempo da espera, quando alguma coisa suspeita f-lo erguer de pronto 
a cabea e aplicar as ouas.
        Ressoava ainda muito longe o oco estrupido de animais passando uma ponte de madeira.

VII

O marmanjo

        No terreiro da fazenda das Palmas, junto  escada da casa de morada, os animais de montaria mordiam os freios de prata, raspando o cho com a ponta do casco.
        Tinha-os pelas rdeas um mulato de libr cor de pinho, avivada de preto e escarlate, com botas envernizadas de canho amarelo, e chapu de oleado a meia 
copa. Recostado ao socalco do patamar com ares de capadcio, o pajem fazia sinais para uma janela, onde aparecia amide a trunfa riada de uma crioula.
        Vinha chegando-se com a proverbial pachorra paulistana um camarada, que mastigava o ltimo bocado do almoo, e preparava o cigarro de palha. Aceso o pito 
e tomada a primeira fumaa, passou revista primeiro nos arreios do baio e da rosilha, depois nos cascos; e no achando coisa de maior, foi contudo, para mostrar 
a sua valia, aqui apertando um loro, ali afrouxando uma cilha e repuxando uma correia da cabea.
        - Esta corja de pajens, dizia a rir para o mulato em forma de cumprimento, s serve de emporcalhar a casa. Ficam velhos e no aprendem.
        - Corja  scia, s Mandu. Olhe l! rebateu o pajem.
        Nisto apontou a mucama  janela.
        - Falta muito ainda, Rosa? perguntou o mulato.
        - J est acabando. No tem tempo de ir mais  roa, ver Florncia, no, rapaz.
        - Ai, que dor de canela!
        - Ixe! Quem conta com pajem!
        - Assim, menina! exclamou o camarada. Tem aqui uma barra para seu pimpo.
        - Sai da! chasqueou o mulato. Jabuticabinha de sinh  l para o beio de caipira? V comer sua broa de milho, homem, e deixe de partes.
        A mucama soltou uma risada e desapareceu de repente a um puxo que de dentro lhe deu o pajem Faustino.
        - Assim  que serve a mesa?
        - Salta, moleque! Menos confiana comigo.
        - H xente! Moleque como ns. Tenho muita xibana nisso. No  como esse mestio do inferno, cor de burro; mas voc no tem vergonha mesmo de vir engraar 
com ele na janela.
        - Sinh est ouvindo! disse a rapariga em tom de ameaa.
        - Melhor pra mim! Eu c no me embarao.
        Este curto dilogo travou-se na saleta da entrada, onde o Faustino veio pilhar a mucama, que escapulira do servio da mesa para se faceirar com o mulato. 
Apanhada em flagrante, a Rosa, muito senhora de si tornou  sala de jantar, onde ningum dera pela sua falta.
        Ali, estava posta para o almoo a larga mesa de jacarand, coberta com alva toalha de linho adamascado; e rodeada naquele momento, como de ordinrio, por 
cinco pessoas.
        A cabeceira, contra os costumes da terra, ocupava-a a dona da casa, senhora de 38 anos, e no formosa; porm to prendada de inata elegncia, que seus traos 
e toda sua pessoa tomava um particular realce. Se no tinha bonitos olhos, ningum sabia olhar como ela; a boca sem primores de forma, enflorava-se com o sorriso 
inteligente e a palavra brilhante.
        Filha de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colgio ingls da corte educao esmerada, que desenvolveu a natural distino de seu esprito. 
Recolhida  sua provncia, teria sem dvida perdido ao atrito dos costumes do interior aquele tom fidalgo, se fosse ele um artifcio do hbito, em vez de um dom, 
que era da natureza, o qual o exemplo no fizera seno polir.
         expanso dessa natureza delicada, ao perfume de bom gosto que derramava em trono de si, deve-se atribuir a ausncia de cor local que se notava seno em 
toda casa, ao menos na famlia. Aquela esfera que recebia a influncia imediata da dona da casa, no era paulista, mas fluminense; e no fluminense pura, seno retocada 
j pelo apuro escocs e pela graa francesa.
        Aos verdadeiros paulistas da tmpera antiga, de antes quebrar que torcer, aos grandes turres, nutridos de lombinho de porco e couve crua, no deixava de 
escandalizar esse enxerto carioca no meio das suas matas, e por isso, j desconfiados de natureza, mostravam-se espantadios, quando entravam na casa das Palmas.
         direita de D. Ermelinda estava o dono da casa, Lus Galvo, cujo aspecto franco e jovial granjeava a simpatia ao primeiro acesso. Era um bonito homem, 
de fisionomia inteligente e regular estatura, que revelava em sua compostura digna a conscincia do prprio mrito.
        Do comedimento do modo prazenteiro, bem como do alinho do traje, transpirava o influxo da suprema distino do esprito de sua mulher. Naturezas h que tm 
a fora de imprimirem o seu cunho naqueles que o cercam; outras se apoderam da ndole alheia insinuando-se nela pelo afeto, impregnando-a de sua essncia.
        A de D. Ermelinda era destas ltimas. Fora por uma lenta filtrao moral, que ela conseguira transmitir ao marido um toque do seu garbo nativo, embotando 
as asperezas de uma educao grosseira e extirpando hbitos da infncia descurada.
         esquerda da me ficava o filho, como  direita do pai a filha, ambos na flor da juventude. Chamava-se o primeiro Afonso, como o av.  Segunda tratavam 
todos pelo apelido, seno diminutivo, de Linda, formado das ltimas slabas de seu nome, que era o mesmo da me.
      Finalmente, no segundo lugar da esquerda defronte da moa via-se um menino de 15 anos de idade, cuja figura destoava de todo o ponto, no quadro daquela famlia, 
que respirava a graa e a inteligncia.
        Era feio, e no s isso, porm mal amanhado e descomposto em seus gestos. Tinha um ar pasmo que embotava-lhe a fisionomia; e da pupila baa coava-se um olhar 
morno, a divagar pelo espao com expresso indiferente e parva.
        Curvado como um arco sobre a mesa, com as vestes em desalinho e os cabelos revoltos, abraava uma xcara de almoo, que lhe ficava abaixo do queixo; e escancarando 
a boca enorme para sorver de um bocado a grande broa de milho, ensopada no caf, mastigava a tenra massa a fortes dentadas e sofregamente como se estivesse rilhando 
um couro.
        Percebia-se logo que a influncia de D. Ermelinda no penetrara nesse membro enfezado da famlia, refratria a todo o preceito de ordem e arranjo. Por isso 
a dona da casa, quando presidia a mesa de seu lugar de honra, observando o servio e ocupando-se de todos, no transpunha aquele ngulo, onde sentava-se o pequeno. 
Se acontecia a seu olhar, circulando a sala, passar por a, cegava-se e fugia com desgosto.
        Naquele momento acabava o menino de fazer uma das costumadas estrepolias, virando com o queixo a xcara, que entornou-lhe todo o caf no peito da camisa.
        - H, h, h!... fez ele com um riso gutural e apatetado.
        Acudiu a Rosa, para enxugar-lhe com o guardanapo a cara, pois ele no se mexia.
        - Que vergonha! murmurou a crioula em meia voz. Marmanjo deste tamanho no sabe comer na mesa.
        Um raio maligno lampejou na pupila baa do pequeno.
        - Nh Brs! gritou a rapariga tomada de dor.
        O menino por baixo da mesa fisgara-lhe o garfo na coxa.

VIII

Pressentimento

        Passou despercebido para as pessoas da famlia o acidente do caf entornado.
        D. Ermelinda parecia preocupada; sem tomar parte no almoo, acompanhava os movimentos do marido com uma inquietao nervosa, que procurava reprimir, porm 
ressumbrava-lhe da fisionomia assustadia. No se difundiu, portanto, em sua expresso o tdio, que ordinariamente lhe inspiravam, quando assistia  mesa, queles 
desasos de Brs.
        O marido estava a partir para Campinas, onde ia demorar-se trs dias afim de concluir alguns negcios, que talvez o levassem a So Paulo. Apesar do hbito 
dessas e at de maiores ausncias, a senhora no podia eximir-se  repugnncia que lhe causava semelhante viagem, e empregava todos os esforos para desmanch-la.
        Mas Lus Galvo no era paulista debalde; ele se deixara imbuir da influncia da mulher naquela parte da existncia do homem que pertence exclusivamente 
 esposa, e onde, portanto, aceitava como legtima supremacia feminina, tinha contudo sua ponta de birra, e quando, em matria de lavoura e negcio, ou coisa que 
no entendia o regime domstico, se decidia por um alvitre, no havia demov-lo.
        Por causa da viagem se tinha posto o almoo to cedo, quando o costume era s 9 horas, para dar tempo aos longos passeios que D. Ermelinda recomendava aos 
filhos, e de que ela muitas vezes dava exemplo com o marido. Ainda nisso havia uma inovao aos usos da terra, onde moa rica, filha de fazendeiro, no anda a p, 
a no ser na vila.
        Lus Galvo comia com boa disposio e, de vez em quando, replicava ao olhar inquieto da mulher com um sorriso e um gesto de carinhoso motejo, o que chamava 
aos lbios da elegante senhora uma fugaz enflorao, logo apagada. Quanto a Linda e Afonso, apesar da hora, s para fazer companhia ao pai debicavam com o apetite, 
pronto sempre, da juventude.
        Nenhum destes fez reparo no desastre acontecido com Brs, naturalmente porque semelhantes desaguisados eram to freqentes, que j se contava com eles. E 
ento buscavam todos modos de disfarar, no s para no contrariar ainda mais D. Ermelinda, como para evitar as represlias de que servia-se o pequeno contra qualquer 
ralho ou motejo.
        Dessa vez ficou na garfada  perna da Rosa, que l se foi coxeando para a camarinha, examinar o arranho. Entanto o Brs, rachando a meio um po e metendo 
em cada bolso uma banda, levantava-se da mesa para ganhar o quintal pela porta da cozinha.
        Repetindo Lus Galvo o seu amoroso remoque  inquietao da mulher, esta no se conteve, que no lhe replicasse.
        - Tem razo de zombar, Lus! Devo parecer-lhe uma criana; e eu mesma no cesso de acusar-me por esta tolice; mas nem por isso consigo livrar-me dos receios 
que me assaltam.
        - Disposio em que voc est, Ermelinda. Que perigo pode haver em um passeio que estou a fazer constantemente, e at mais longe e com maior demora?
        - Tudo isto me tenho eu dito cem vezes desde ontem, e no sossego. Nunca fui sujeita a cismas e caprichos, voc bem o sabe; entretanto sinto hoje um desassossego, 
um aperto de corao.
        -  nervoso.
        - Se no houvesse uma causa real para isso, podia ser; mas h. Essas esperas, que andam deitando por a, das quais ainda ontem falou o administrador...
        - E por que ho de ser elas para mim? No tenho inimigos, e a ningum fao mal para que se dem ao trabalho de livrarem-se de mim.
        - Papai  to estimado! disse Linda; e a voz doce como um favo de mel arpejou a nota moviosa da ternura filial.
        - Quem se atreveria?...
        O altivo desafio, esboado nestas palavras, partiu dos lbios de Afonso que alou a fronte j naturalmente erguida, com um assomo bizarro.
        - So os bons, meus filhos, que esto mais sujeitos ao dio dos maus, os quais se conhecem e ajudam entre si.
        - Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos. No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assust-la 
 toa, eu fui a  Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse o Pereira depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu. Se havia espera, 
no era decerto para mim.
        Pareceu D. Ermelinda ceder  fora desse argumento e ao tom persuasivo do marido; mas o pressentimento a pungia, e o corao perscrutava objees para resistir 
 razo.
        - E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda? Dizem que a desgraa o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um rasto de sangue. 
Por isso deram-lhe o nome de fera!
        - Outra prova de que so imaginrios os seus receios, Ermelinda. Jo Bugre ou Jo, como eu o chamava em menino, a exemplo de outros, foi criado em nossa 
casa; era afilhado de meu pai e at chegou a servir-me de camarada. Depois tornou-se um perverso; porm lembra-se dos benefcios que recebeu de nossa famlia, e, 
embora se mostrasse altaneiro comigo, acredito que me respeita.
        - Essa gente no  capaz de gratido, Lus; ao contrrio, o benefcio os humilha, e eles revoltam-se contra o que chama uma injustia do mundo.
        O Bugre  uma fera, na verdade; contam-se dele as maiores atrocidades; porm esse homem de ms entranhas tem um resto do conscincia e probiedade. No h 
exemplo de haver atirado a algum por trs do pau, ou de emboscada: ataca sempre de frente, expondo-se ao perigo. O bacamarte s lhe serve para defender-se, quando 
o perseguem. Tambm nunca ouvi falar de roubo ou furto que ele cometesse, e isso apesar de viver ele pelos matos, constantemente acossado.
        - E ainda no foi preso um criminoso de tantas mortes?
        - No  por falta de diligncia. Andam-lhe  pista desde muito tempo; e at, se no me engano, ouvi que tinham prometido um prmio a quem desse cabo dele; 
mas at agora no se animaram, tal  o temor que inspira.
        - Bem razo tenho eu, portanto, de assustar-me, quando um facinoroso desses aparece dentro da fazenda: talvez ande ele rondando a nossa casa.
        - No se lembra disso; mas, se tivesse a audcia, ele ou outro, acharia a casa bem guardada. Demais, aqui lhe deixo um homem para defend-la. No  verdade, 
Afonso?
        - Sem dvida, meu pai. Na sua ausncia nada acontecer!
        - No  por mim que receio, Lus; antes fosse; no estaria to inquieta, disse a senhora com um leve reproche.
        - Nesse caso eu no partiria! respondeu o marido galanteando.
        - Ento fique!
        - Sim, papai, fique! D esse gosto a mame, disse Linda.
        - Tambm a senhora no quer que eu v? Olhe, no se arrependa! replicou o pai com um gesto de zombeteira ameaa. Levo uma certa encomenda de vestidos e enfeites, 
que s eu sei escolher.
        A moa ficou enleada entre a esperana do presente e o desejo da me.
        - Papai compraria outra vez.
        - E a festa? Perguntou o pai sorrindo.
        A pndula soou oito horas.

IX

As amostras

        Advertido pela pndula, Lus Galvo consultou seu relgio de algibeira e ergueu-se:
        - So horas!
        At aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperana, que ela mesma no podia explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente qualquer podia estorvar 
ou pelo menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida, empalideceu:
        - Se voc aflige-se dessa maneira, Ermelinda, no vou. Faz-me grande desarranjo, como sabe; mas no tenho nimo de deix-la to sobressaltada.
        - Confesso que esta emoo faz-me mal; j no me sinto boa.
        - Ento fico: est decidido.
        Uma sombra de tristeza perpassou rapidamente pelo semblante de Linda; todavia no escapou ao olhar da me, que adivinhou a causa dessa mgoa da moa.
        - Mas, Lus, esta viagem  necessria, e, no fim de contas, meus sustos no tm razo de ser. Voc precisa concluir esse negcio; e Linda ficar queixosa 
se no tiver os presentes prometidos.
        - Eu, mame? exclamou a menina com terna exprobrao. O que eu desejo  v-la sempre contente.
        - E no  um contentamento fazer-te feliz? J fui moa como tu; nessa idade a ventura  uma flor, uma fita. S depois se compreende o que ela vale e o que 
ela custa, minha filha. No te envergonhes dessa faceirice. Quem h de t-la seno tu? Deus fez as estrelas para brilharem.
        - Ento o que decidem? Perguntou Lus Galvo.
        - V; eu lhe peo.
        - Por minha causa, no! contestou Linda.
        - Pela minha, disse D. Ermelinda.
        Caladas as luvas e feitos os ltimos aprestos, despediu-se o viajante da famlia e montou a cavalo.
        No momento de abraar o marido, D. Ermelinda com disfarce apalpou-lhe o peito, e ficou mais tranqila percebendo o revlver no bolso do casaco. No obstante, 
custou-lhe muito essa despedida; seus vagos terrores se alvoroaram de novo, e foi preciso grande esforo para dominar-se.
        Entretanto Lus Galvo, esporeando a rosilha, depois que disse o ltimo adeus com a palavra e o gesto, passou a cancela do terreiro. Acompanhava-o de perto, 
a meio-corpo da cavalgadura, o camarada Mandu; adiante ia o pajem para abrir as tronqueiras; e entre ele e o viajante trotava o baio, solto, mas de todo arreado 
e pronto para o revezo.
        - Logo hoje  que seu pai leva um camarada s.
        - Por que, mame? perguntou Linda.
        - O Pereira adoeceu, o outro, ningum sabe onde anda.
        - Se mame quer, eu acompanho meu pai, disse Afonso fazendo meno de dirigir-se  cavalaria. Em um instante o alcanarei.
        - No, no Afonso! acudiu vivamente a senhora, j se no viam os viajantes, ocultos pelo arvoredo. D. Ermelinda, antes de entrar, voltou-se para os filhos:
        - Vo passear!
        - E mame fica s?
        - Preciso descansar um pouco at a hora do almoo.
        - Sente alguma coisa, minha mame?
        - Nada, fadiga apenas. At logo.
        - Quer ir, Afonso?
        - Se voc quiser, Linda!
        - Vo; a manh est bonita, insistiu a me.
        D. Ermelinda por este meio tratava de afastar os filhos, cuja solicitude dispensava nesse momento, pela razo de os no afligir comunicando-lhes a tristeza 
e inquietao que a assaltava com dobrada fora.
        Apenas eles a deixaram, subiu apressadamente ao mirante para acompanhar com os olhos ao marido, at a volta que fazia o caminho no canto da tigera e onde 
se perdia de todo a vista da casa.
        Os viajantes, que j estavam a poucas braas dali, pararam de repente, e depois de pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com o incidente, D. Ermelinda 
deu graas a Deus daquela volta inesperada, que lhe restitua o marido, a quem por coisa alguma deixaria mais partir.
        A angstia que sofrera naqueles poucos instantes, os pensamentos cruis que lhe crivavam a alma nesse breve trato, no os sentira ela talvez em anos de sua 
vida. Suplicaria a seu marido que desistisse da viagem; e ele havia de atend-la, ou ento de arrast-la abraada a seus joelhos.
        Aproximavam-se os viajantes; repassaram a cancela e afinal pararam em frente  casa onde Lus Galvo apeou rijo.
        - Que foi? Perguntou D. Ermelinda que descera do sto a encontr-lo.
        - Ora, respondeu o fazendeiro a rir, no sei onde pus as amostrar da Linda com a lista das encomendas.
        Outra vez D. Ermelinda achou em si a fora para reagir contra seus imaginrios terrores. Esse corao de me sacrificava s inocentes alegrias da filha o 
seu sossego;  uma banalidade sublime, que se encontra por a, a cada canto, e de que j ningum se ocupa.
        Correu Lus Galvo ao gabinete  busca dos objetos esquecidos; e enquanto a mulher ajudava-o de seu lado na pesquisa, abriu ele a medo o segredo da secretria 
e tirou um papel, que rpida e furtivamente escondeu no bolso.
        Era este o motivo real da sua volta; o outro no passava de pretexto. Apenas teve Galvo seguro o papel em um bolso, que tirando  sorrelfa um pequeno embrulho 
do outro, exclamou:
        - Aqui est!
        - Aonde achou?
        - Dentro desta caixa de charutos. S eu era capaz de ach-lo. Foi quando enchi a carteira.
        Abraando a mulher e beijando-a na face, de novo ps-se o fazendeiro a caminho; e desta vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade, que 
se expandia momentos antes to fresca em seu nobre semblante, e a alma franca e generosa sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que se acanhava.
        O pequeno incidente da volta viera a toldar aquele sentimento que mais ou menos  infalvel em todo o corao por magnnimo que seja, como da nfora onde 
por muito tempo se guardou o vinho puro e generoso, h sempre lia no fundo.
        Luis Galvo tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava de todos, mas especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a quem se 
ama, e cuja estima se alcanou, no pode haver maior suplcio para o homem de brios.
        O esquecimento do papel, que sem dvida continha revelao ou referncia do segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulao para ocultar o verdadeiro 
motivo de sua volta; esses pequenos embustes sem conseqncias, e que talvez a outros nem mais lhe roassem na memria, o estavam remordendo interiormente.
        Chegaram afinal os viajantes ao canto da tigera. Havia junto a um copado guarant, que lhe dava sombra, uma ponte de madeira, lanada sobre as altas ribanceiras 
de um crrego, que regava parte das terras lavradas.
        A estava a ltima tronqueira da fazenda.
        Voltou-se Lus Galvo para enviar um adeus  mulher, que lhe acenava com o leno, e desapareceu.

X

Os gmeos

        Deixando a me, separaram-se os dois irmos para se encontrarem no ptio interior, donde tambm havia passagem para as jeiras da fazenda.
        Linda fora tomar a capelina de fusto branco, e Afonso o bon e o basto de passeio. Assim preparados, puseram-se a caminho par a par, garrulando como um 
casal de coleiros que deixam a asa materna para folgarem pela grama ensaiando os primeiros vos.
        - Que fingido  voc, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei se vinha passear, respondeu-me se quiser e estava morrendo!
        - Com pena de uma certa pessoa, que no fazia seno olhar l para a figueira.
        - Que histria! disse Linda corando.
        - Eu respondi se quiser mesmo de propsito; para ver sua teno. Voc no disse ontem que sou eu quem vai todos os dias para aquele lado?
        - E , sim.
        - Deveras! Sustente outra vez, e ver se no volto.
        - No, meu maninho do corao, no se zangue. Eu prometi a Berta que hoje havia de ir sem falta. Ela est nos esperando. Vamos; sim?
        - Primeiro h de por as mos e dizer comigo: - Meu Afonsinho...
        - Do meu corao...
        - Eu lhe peo e rogo... que me leve... onde est...
        - Onde est Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra do irmo.
        - Onde est insistiu o rapaz uma e duas vezes.
        Afinal Linda cedeu:
        - Onde est...
        - Meu benzinho! concluiu o rapaz.
        Banhou-se a menina em ondas de prpura.
        - Ah! Mano! disse Linda com um melodioso queixume.
        - Assim  que se ensina uma sonsinha! replicou o moo a rir.
        - Voc me paga! tornou a irm com um pequeno assomo de revolta. Tenho um certo segredo a para contar a Berta...
        - Segredo de mulher! galhofou o irmo.
        - Vou dizer-lhe que no se importe com gente ingrata; e como s eu  que me lembro dela, no tome o trabalho de vir c para ver-me, porque eu no tenho mais 
com quem passear.
        - Voc  capaz?
        - Sou.
        - Uma aposta?
        - No quero; voc logra-me sempre.
        - Tambm tenho uma coisa para dizer.
        - A quem?
        - No sabe? Faa-se desentendida. A Miguel.
        - O que ?
        - Que uma certa pessoinha, a qual eu no descobrirei... que essa pessoinha me pediu para... para dar um... a ele j se sabe... um...
        - Mano! No gosto destas graas!
        - Um belisco, menina!
        - Voc ia dizer outra coisa.
        - Ou  voc que queria ouvir outra coisa?
        - Est bom; me deixe.
        Desta vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmo.
        Acompanhou-lhe Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se devagarinho, nas pontas dos ps, enlaou de repente em um abrao o corpo gentil 
da moa.
        - Ai da pombinha! Como est to jururu! Quem foi que arripiou sua pena, minha rola? Prrru!... Coitadinha! Deixe ver o biquinho!
        Estas palavras eram o mote das carcias que fazia o Afonso  irm, alisando-lhe os cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe a mimosa ctis 
da face, e por fim puxando-lhe o boto de rosa dos lbios, que faziam um delicioso biquinho vermelho, apinhados como estavam com o gracioso amuo.
        No se podia, com efeito, achar mais justa imagem da formosa menina, do que essa que espontaneamente acudira ao esprito potico do rapaz. Naquele momento 
com a fronte reclinada, as espduas ligeiramente curvas, pelo recato, as mo recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti quando arrufa a doce e macia penugem.
         medida porm que a envolvia a carcia do irmo, ia ela outra vez acetinando-se; o talhe delicado esbeltava-se ao natural; as longas plpebras franjadas 
erguiam-se desvendando os grandes olhos pardos cheios de uma ternura ebriante; e finalmente o boto de rosa da boca gentil enflorava-se com sorriso encantador, que 
derramava sobre o formoso semblante da menina uma luz de leite.
        S no sabe o que isto , quem no admirou a espcie de ctis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manh.
        Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que no era tristeza, pois coavam-se atravs dos inefveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, 
que lhe aveludava a graa e influa-lhe um mavioso enlevo. Irm das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados 
pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha.
        No se admira a mulher que a possui, porque no exerce a fascinao esplndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade 
do amor.
        Afonso era o retrato da irm. Pareciam-se como gmeos e gmeos tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifcio; a ndole jovial, que herdara 
do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso cordial e folgazo.
        Era tal a parecena dos dois irmos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrou-se de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irm, e tomando uns ares 
hipcritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moa, cuidando ver a amiga, correu abra-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, 
que lhe foram pontualmente retribudos.
        Foi depois de ter a seu gosto recebido as carcias da moa, e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irm, 
apresentou a sua cabea de rapaz, desordenada da basta madeixa, que ondulava pelas espduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manh.
        Descobrindo o engano, Berta no se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz, da pea que lhe pregara ele; mas desde a, no beijou mais a Linda sem primeiro 
olhar-lhe no rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e no o brejeiro Afonso.
        Depois tornou-se impossvel a confuso, porque no s o talhe do moo hasteou-se com a tmpera viril, como o fino buo comeou a assombrear-lhe o lbio superior 
e as faces.

XI

No tanquinho

        Depois da pequena pausa que tinham feito, apressaram os dois irmos o passo, a fim de ressarcir a perda do tempo, que pouco tinham para o passeio at a hora 
habitual do almoo.
        Assim atravessaram os canaviais, divididos em alqueires por largas alamedas e carreadores mais estreitos.
        Nessa ocasio, no repararam como de costume no verde-gaio e risonho daquelas ondas de folhas que flutuavam graciosamente ao sopro da brisa; nem ouviram 
os brandos cicios, to doces ao ouvido, como  ao paladar a polpa deliciosa dos gomos.
        Entraram em seguida na roa, onde o feijo estava em flor e o milho espigava, agitando os seus louros pendes. Logo adiante ficavam os vastos cafezais, recentemente 
carpados e j frondosos para mais tarde se cobrirem de bagas escarlates, como fios de corais, entrelaados pela folhagem de brilhante esmeralda.
        A  sombra dos renques de cafezeiros, descansavam os pretos recebendo a rao do almoo, que as rancheiras de cada turma dividiam pelas gamelas e palanganas 
que lhes apresentavam.
        Passaram os dois irmos apressadamente e sem dar-lhes mostra de ateno, para no perturbar-lhes o descanso e a refeio.
        Alm, na assomada de uma colina frondava um vistoso ramalhete de palmeiras de diversas espcies, entre as quais avultava o jerib com seus lindos penachos. 
Chamavam a este lugar o Palmar e dele proviera o nome  fazenda.
        Pela encosta da colina estendia-se o pasto; e na base estava uma capuava onde j se comeara o trabalho da derrubada, e se afolhavam as terras destinadas 
 lavoura de mantimentos, dividindo-a em quartis, como os partidos de canas.
        Fronteiro ao Palmar, ficava um grande feital que prolongava-se at a orla da mata. Essa terra descansada desde muitos anos j estava convertida em capoeira, 
que invadindo os carreadores deixava a descoberto apenas o trilho batido pela constante passagem.
        Por essa vereda meteram-se os dois irmos, Afonso adiante, malhando com o basto os tufos de capim e relva para espantar as cobras; Linda no encalo, rocegando 
a fmbria da saia de musselina para guard-la dos orvalhos. Foram sair em pequeno gramado, de um pitoresco encantador.
        Parecia esmero de arte o stio aprazvel; no que possa o gnio do homem jamais atingir os primores da criao; ordenara, porm, muitas vezes e resume em 
breve quadro cenas que a natureza s desdobra em larga tela; e colige em uma s paisagem cpia de belezas que andam esparsas por vrios stios.
        Desenhava-se o pequeno e mimoso prado em oval alcatifado e com a alfombra de relva e cingido quase em volta pela floresta emaranhada, que a fechava como 
panos de muralha, cobertos de verdes tapearias e vistosas colgaduras, apanhadas em sanefas e bambolins de flores.  face oposta assomava a soberba colunata do Palmar 
que estendia-se at ali, formando arcarias gticas, fustes elegantes em estilo drico e arabescos rendados de maravilhoso efeito.
         margem do Tanquinho, bonito lago formado pela represa de um ribeiro, que saa gorgolando do mais embrenhado da floresta e traava meandros entre as palmeiras 
para perder-se no pasto, uma figueira brava esfraldava os ramos, em esparavel, ensombrando a pelcia de relva.
        A prximo contornava-se um outeirinho coroado de uma grinalda de juncos floridos, donde borbulhava tambm um fio dgua que alimentava o lago. De seu tope 
descortinava-se a casa das Palmas e toda a vrzea at a margem do Piracicaba.
        Ao entrar no descampado, ca[iram os olhos de Afonso direto sobre o tronco da figueira e voltaram-se logo desconsolados para Linda. Os dois irmos trocaram 
um sorriso displicente.
        - No vieram, disse Afonso.
        - J foram.
        - No h tal.
        Levou o moo as mos  boca e apitou. No teve resposta.
        - Ento?
        -  que j esto longe!
        - No tinham tempo.
        - A culpa  sua.
        - Quem primeiro boliu com o outro?
        - Eu hei de contar  Berta.
        Depois de uma pequena volta pelo prado, os dois irmos cuidaram de voltar do inspido passeio que to malogrado fora.
        Entretanto no estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme o costume,  sombra da figueira; e eram, como j se adivinhou, Miguel e Inh a quem 
Linda tratava pelo nome.
        Afastando-se de Miguel para passar a tronqueira, dera a menina ao talhe uma inflexo sedutora. Daquela travessa rapariga, com ares de diabrete, surgira de 
repente a mulher em toda a brilhante fascinao, na plenitude da graa irresistvel que rapta a alma, e a arrasta aps si cativa como um despojo, de rojo pelo cho 
e feliz de rojar-se-lhe aos ps.
        Miguel levou as mos aos olhos julgando-se ludbrio de uma viso, e deslumbrado foi seguindo a menina sem conscincia do que fazia.
        No voltou Inh a cabea, mas tinha ela a certeza de que o moo a acompanhava enlevado pelo garbo de seu passo, como pelo flexuoso requebro de seu talhe 
donoso.
        Dirigiu-se a menina a uma aberta, que havia entre o palmar e a mata e dava caminho para o prado. Tambm ela ia pressurosa ao encontro da amiga e camarada 
de infncia, cuidando j encontr-la no lugar emprazado,  sombra da figueira.
        Ouvindo o apito de Afonso, deitou a correr; e Miguel despeitado com a sofreguido que ela mostrara, deixou de responder ao camarada como costumava.
        Chegou Berta  precinta do prado, justamente quando os dois irmos iam desaparecer na vereda por onde tinham vindo.
        - Linda!
        - Ah! Berta! Eu no disse que ela vinha!
        - Chegou agora, acudiu Afonso. Que dorminhoca!
        - Hoje no quero graas com o senhor! replicou Berta comum srio petulante.
        - Deveras! Pois estamos mal.
        - Veio sozinha?
        - Miguel a vem; est se fazendo de rogado. Olhe!
        Com efeito, Miguel apareceu da outra banda da esplanada.
        - Quer campar de srio; mas aquilo  um magano! Sonso como ele s; parece com certa pessoazinha que c sei.
        - Est bom, mano, eu lhe peo! balbuciou Linda acesa em rubores.
        - Ento Miguel, chegas ou no chegas? Queres um cavalo para a viagem. Aqui tens.
        E o faceto rapaz apanhando um ramo seco, fez dele um cavalo de pau, e l se foi galopando oferecer a montaria ao camarada.
        - Sai! No estou para brincadeiras, disse Miguel.
        - Que tm voc hoje? Chegam aqui ambos de nariz torcido... Acaso viram borboleta preta no caminho?
        - Assim, Afonso, brigue com ele! exclamou Berta batendo com a mo direita fechada na palma da mo esquerda. Eu c j estou contente; vi um passarinho verde!
        - Mas vamos a saber, Miguel! Se  comigo que voc est zangado, diga a razo. Que lhe fiz eu?
        To franca era a fisionomia de Afonso ao proferir estas palavras, e to cordial afeto ressumbrava de sua voz, que Miguel correu-se de seu injusto ressentimento 
contra o amigo, e de todo lhe desvaneceram no corao os ressaibos de cime, que o pungiam.
        - Engano seu, Afonso. No estou zangado com voc. Vinha pensando em uma coisa desagradvel, mas j se foi, respondeu Miguel com um sorriso de efuso, apertando 
comovido a mo do camarada.
        - Ai! Ai! Cuido que houve sua briga entre os dois! No lhe parece, Linda?
        - No sei; por que haviam de brigar?
        - Pois eu lhe digo o que foi, acudiu Inh. Miguel quis deixar-me no caminho e ir caar!
        - Ah! exclamou Linda, com um trmulo na voz maviosa. No queria vir!
        - Mas era s para me fazer pirraa! tornou Inh. E seno veja, Linda; como eu lhe disse que no me importava com isso e vinha mesmo, logo ele no falou mais 
em caa, e veio pescar seu peixozinho!...
        - Berta!... murmurou Linda puxando a manga do corpinho da amiga.
        - Uma piabinha do rio, no , Inh? dissera Afonso de envolta com uma gargalhada gostosa, que Inh acompanhava com os trilos argentinos de seu riso fresco 
e puro.
        - No sei de que esto a rir com tanto gosto, observou Miguel enleado, sem nimo de erguer os olhos para Linda.
        - Acham graa em uma coisa  toa.
        Sbito no mato soou um grito bravio, e logo aps a voz estranha, ao mesmo tempo saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lanou em uma gama estridente este 
clamor incompreensvel:
        - Til!... Til!... Til!... Oh! Til!...

XII

Idlios

        Eram freqentes os encontros dos dois lindos pares de passeadores no Tanquinho.
        Vinham semanas em que se repetiam todas as manhs, a menos que as chuvas no permitissem, ou que Berta e Miguel fossem  casa das Palmas, o que sucedia regularmente 
aos domingos e dias de festa.
        O amor, to bonina dos prados, quanto rosa dos sales, quando o orvalham risos da mocidade; o amor puro e suave, como a cecm daquele prado, tinha j florido 
os coraes que lhe respiravam pela manh os agrestes perfumes.
        Nem isto  mais segredo; e, pois, no se comete uma indiscrio em contar o que s no sabiam D. Ermelinda e seu marido.
        Afonso, este namorava Berta s escncaras, com o recacho e brinco prprios de seu gnio. Essa mesma sinceridade e desplante de seu afeto eram vu para ocult-lo 
a olhos suspicazes. Quem o via sempre a gracejar com a menina, acreditava que isso no passava de travessura de moo folgazo sem tinta de malcia.
        Linda, quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o tmido corao bater apressado. No raro, o instinto de delicadeza que recebera 
de sua me, advertia-lhe da distncia que separava dela o moo pobre e de mesquinha condio.
        O amor, porm,  contagioso, com especialidade na solido, onde a alma tem necessidade de uma companheira, e quando de todo no a encontra, divide-se ela 
prpria para ser duas: uma, esperana; outra, saudade.
        As confidncias do irmo; as longas e constantes conversas a propsito do mesmo tema, sempre novo; os episdios singelos do idlio, arrufos ou encantadores 
segredos; essas asas fagueiras do amor roavam a todo o instante o corao da moa e deixavam-no impregnado de ternura afetuosa. Entretanto Miguel no se apercebia 
disso. Acreditava sim, que Linda o tinha em estima por causa de Berta, e dispensava com ele o trato ameno e gentil, inspirado pela bondade dalma e fina educao.
        Assim, voltava ele  menina um respeitoso afeto, ungido pela gratido que nele acendia as maneiras singelas e benvolas da moa; e tambm repassado da serena 
admirao de artista que sentia ao contemplar-lhe a peregrina beleza. Mas no lhe pulsava o corao com os mpetos da paixo; nem a imagem graciosa de Linda flutuava 
nas cismas de sua fantasia.
        A presena da moa produzia-lhe na alma certo refrangimento, embora de grata deferncia; era como a palma do jerib que fecha com os relentos da noite, e 
somente se engrinalda e brilha aos raios do sol.
        Para Miguel os momentos de expanso e doce contentamento no eram tanto esses passados a no Tanquinho, como os outros mais festivos e mais lembrados em 
que ss, Inh e ele, atravessavam a vrzea na ida e na volta.
        De Berta, que direi? Com todos brincava; a todos queria bem, e sabia repartir-se de modo que dava a cada um seu quinho de agrado. Em roda ferviam os cimes 
de muitos que a ansiavam s para si, e penavam-se de v-la desejada e querida de tantos. Mas como um sorriso ela trocava tais zelos em extremos de dedicao, e o 
pleito j no era de quem mais recebesse carinho, e sim de quem mais daria em sacrifcio.
        O gracioso e ingnuo sorriso de seus lbios, era o mesmo, desfolhando beijocas na face de Linda, como zombando de Afonso ou ralhando com Miguel. No fora 
o recato da educao, que ela seria muito capaz de fechar os olhos e  sorte lanar o beijo, como um pombinho, para qual dos trs mais ligeiros o apanhasse.
        Se D. Ermelinda soubesse das freqentes entrevistas no Tanquinho e suspeitasse dos tcitos emprazamentos que se davam os camaradas, por certo j teriam eles 
cessado; pois no escaparia  inteligente senhora o perigo de expor o tenro corao de sua filha a uma paixo, bem possvel seno provvel de gerar-se dessa ntima 
convivncia, que no perturbavam outras diverses prprias para ocupar o esprito de uma menina.
        Na casa das Palmas, porm, ignorava-se o habitual encontro; no que o negassem Linda ou Afonso, ambos incapazes de uma mentira. Calavam-se; eis todo seu 
pecado. De volta do passeio, em famlia, falavam vrias coisas que tinham feito ou observado; mas no tocavam em Berta e Miguel, ou faziam-no de longe.
        Em Linda era pudor: quando o nome de Miguel lhe pruria o lbio, ainda no o tinha pronunciado, que sentia arderem-lhe as faces; e por isso o murmurava baixinho 
dentro do corao. Da provinha que vendo Afonso o vexame da irm, por sua parte sofreava nesse particular o seu gnio zombeteiro, e no tugia sobre as entrevistas 
no Tanquinho.
        Quando D. Ermelinda e Galvo tomavam parte no passeio dos filhos, estes por um natural acanhamento no dirigiam a excurso para o stio favorito; no que 
os ajudava o fazendeiro, mais solcito em mostrar  mulher a medra viosa de sua lavoura, que lhe estava prometendo abundantes messes.
        Caso alguma vez tomassem para aquele lado, Berta e Miguel pressentindo que os donos da fazenda haviam de reparar se os encontrassem ali, e avisados de longe 
pelas vozes, que repercutiam com sonoridade que lhe davam as abbadas de verdura e os acidentes do terreno, retiravam-se antes que chegassem.
        Eis como ignorava D. Ermelinda os idlios, que estavam compondo seus filhos, naquele stio pitoresco, onde bebia-se o amor como um doce eflvio da natureza. 
Tudo ali penetrava o corao de emoes deliciosas. Pelo aveludado daquela relva cintilante espreguiava-se a imaginao, a sonhar o dossel de um div. Os sussurros 
da brisa nos palmares segredavam os ruge-ruges das sedas; e o borborinho do arroio imitava o trilo de um riso fresco e argentino.
        Quem estivesse nesse lugar a ss cuidadira que aproximava-se uma virgem mimosa, de fronte serena, olhar inspirado e fagueiro sorriso, perfumado de suave 
fragrncia. Quem ali fosse com uma gentil companheira, acreditaria por certo que ela se transfundira nesse stio nemoroso, como em um grmio do amor; e nas auras 
embalsamadas sentira-lhe o mago sorriso a bafejar-lhe as faces; no lago dormente seus olhos lmpidos a refletirem-lhe o cu de sua alma; nas hastes das palmeiras, 
seu talhe mil vezes esboado com a mesma inata elegncia; nas laarias e festes de trepadeiras floridas, os folhos do amplo vestido; e na pelcia da grama cambiante 
s depresses do terreno, a voluptuosa flexo das formas debuxadas pelo corpinho de verde cetim. Como era possvel no amara naquela manso, onde tudo cantava, sorria, 
palpitava e respirava amor?
        A quem era dado abjurar nesse templo nupcial, onde celebrava-se o consrcio entre o vigor e a graa, o perfume e a harmonia, o majestoso e o esplndido?
        Himeneu eterno do vento com a floresta, do rio com a campina, do orvalho com a flor, do sol com a sombra, do cu com a terra.

XIII

Susto

        Na primeira surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio um ligeiro sobressalto; mas rpido se desvaneceu.
        Tornaram, pois,  conversa, indiferentes ao que passava da distante; apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a correr a assomada da colina, curiosa que 
estava de saber donde partira o clamor.
        - Gosta muito de caar? perguntou Linda com certo enleio a Miguel como se no o conhecesse de muito tempo a seus hbitos.
        Mas quem no sabe que ternos segredos e confidncias recnditas se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal, feita por lbios amantes? No estava porventura 
transpirando das palavras da moa um queixume pela preferncia dada a uma distrao que ela no partilhava?
        -  um meio de passar o tempo, respondeu Miguel.
        - No lhe diverte mais ler? Mame deu-me um livro mui lindo, que eu acabei ontem.  a Cabana Indiana. Eu lhe... Mano podia emprestar-lhe.
        - J li; disse simplesmente Miguel.
        - No  to bonito?
        - Muito.
        - Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda.
        Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moa, e ela, rasteando-se em seu esprito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam perscrutar-lhe 
o resto, voltou-se de novo para o moo.
        - O senhor no deseja formar-se?
        - Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual sossego:
        - Mas para que pensar nisto?
        - Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para se ajudarem.
        - Para viver l em So Paulo e l estudar,  preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo.
        - Papai lhe empresta.
        - No duvido; mas o difcil  pedir-lhe eu.
        - Por que razo?
        De boa vontade, riu-se Miguel da insistncia da menina:
        - Quem nada tem de seu, no pede emprestado; salvo quando no pretende pagar.
        -  verdade!
        Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta; e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. No era ele 
desses que lanavam  conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratido da fortuna. Aceitava sua condio como um fato 
natural e com certa filosofia prtica, rara em mancebos.
        - Pensando bem,  melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse, teria ambies que no so para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores; enquanto 
que ficando no meu canto, viverei tranqilo junto daqueles a quem amo. Para que h de a gente afligir-se por coisas que no valem seno dissabores, como vejo tantos 
fazerem por a?
        Afonso tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se para pregar em Berta uma das peas costumadas. J ele se esgueirava sorrateiramente entre 
a folhagem para tomar de surpresa a menina, quando esta que estivera a olhar na esplanada alguma coisa que lhe chamava a ateno, desceu a correr para a figueira 
e veio interromper o colquio.
        - Onde vai o sr. Galvo?
        - Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu Linda.
        - Voc no me disse nada.
        - S ontem ele resolveu e contra a vontade de mame que ficou to assustada.
        - Por que? perguntou Migue.
        - Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem apareceu junto da fazenda um homem muito mau.
        - O bugre!
        - Jo Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inh.
        - Isso mesmo.
        Berta cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mo trmula constringiu o seio como para reter o corao que lhe fugia.
        - Eu tambm, prosseguiu Linda sem notar a perturbao da amiga, estou bem assustada. No quis mostrar para no agoniar mame ainda mais do que ela estava; 
porm quando me lembro que papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria fico fria e toda trmula.
        - Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Seno j chamo o tal Jo Fera para tirar-lhe o susto.  como se faz com as crianas, para no 
terem medo do calhambola.
        - Esteja sossegada, que nada h de acontecer; eu lhe prometo! disse Miguel.
        - Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu j devia estar bem longe.
        Fazendo este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar o caminho. Miguel foi a seguindo, esforando por manter-se de nimo sereno a fim de no redobrar 
o susto da moa. Entretanto no deixava ele de estar inquieto e impressionado, recordando-se do encontro que tivera h pouco tempo com o feroz capanga, e sobre o 
qual julgara prudente calar-se.
        - Agora  que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfao de ver o pai, e a preocupao do motivo daquela demora.
        Ela no sabia do incidente da volta por causa das amostras; mas era ele to natural que ocorreu a Miguel.
        - Talvez tivesse esquecido alguma coisa.
        - H de ser isso. Vamos, mano, que so horas.
        - Onde est Berta? perguntou Afonso que a procurava desde alguns instantes.
        - Escondeu-se conforme o costume para fazer tutu! respondeu Miguel.
        - Berta! chamou Linda.
        - Aqui no est. J corri tudo.
        - D lembranas a ela, Miguel; no posso esperar; j  tarde.
        - A adiante a encontra de emboscada no caminho, Linda.
        - Se eu a pilho! disse o Afonso apertando a mo de Miguel.
        Os dois irmos atravessaram a capoeira, espreitando por entre as folhas, mas no viram sombra de Berta.
        Nesse momento soou de novo o mesmo estranho clamor que antes se ouvira; mas desta vez gania a voz com tal mpeto e frenesi que estrangulava-se.
        - Til! Til! Til...
        Na roa estavam os pretos no eito, estendidos em duas filas, e no manejo da enxada batiam a cadncia de um canto montono, com que amenizavam o trabalho:
                Do pique daquele morro
                Vem descendo um cavaleiro
                Oh! Gentes, pois no vero
                Este sapo num sendeiro?

        Adubavam o mote com uma descomposta risada e logo aps soltavam um riso gutural:
        - Pxu! Pxu!
        Tem os pretos o costume de entressacharem nas toadas habituais, seus improvisos, que muitas vezes encerram epigramas e aluses. Bem desconfiavam, pois, o 
feitor de que a tal cantiga bolia com ele, e o sapo no era outro seno um certo sujeito bojudo e rolio, de seu ntimo conhecimento; mas fingia-se despercebido 
da coisa.
        Quando passaram os dois irmos, a um sinal da cabea de eito, os pretos fizeram um floreio de enxadas, suspendendo-as ao ar com a mo esquerda, e com a direita 
pediram a beno.

XIV

A vespa

        Onde sumira-se Berta, que no a descobria Miguel j cansado e aborrecido de a procurar por quanta moita e sebe ali havia?
        Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propsito da viagem de Lus Galvo, sofrera a menina um choque violento, que redobrou quando foi proferido 
o nome de Jo Fera, o terrvel capanga, a quem poucos momentos antes encontrara, e do qual se contavam coisas inauditas.
        No olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente haviam escapado ao moo, quando falava das desgraas que sempre acompanhavam 
o aparecimento daquele homem sinistro em qualquer lugar.
         verdade que muitas vezes, como confessara a Miguel dissuadindo-o de tais idias, costumava ela encontr-lo naquelas mesmas paragens, durante as longas 
excurses que fazia pelos campos. Mas, recordando-se do aspecto e modo com que nessas ocasies lhe aparecia Jo, reconheceu que nessa manh trazia o capanga no vulto 
e no semblante o que quer que fosse de soturno e ameaador.
        - Nos outros dias, parecia-me to bom e humilde. Custava-me a crer todo o mal que dizem dele; e at as vezes dava-me na vontade perguntar-lhe se era verdade. 
Mas tinha pena dele. Havia de afligi-lo muito. So coisas ruins as que por a contam. Meu Deus!  possvel que se mate gente assim com tamanha barbaridade?... Aquela 
cara amarrada que ele tinha hoje; e os olhos fundos, e os modos arrebatados... Bem se via que levava uma maldade no pensamento. E para que nos veio seguindo por 
dentro do mato at junto da tronqueira, e depois sumiu-se para a banda da Ave-Maria, de que Linda falou h pouco, e por onde o sr. Galvo no tarda a passar?... 
Ah! o corao me diz: Ele est na tocaia, e  para o sr. Galvo mesmo!
        Estas reflexes tumultuavam no esprito de Berta, que rompia o mato, fustigando o rosto pelos ramos das rvores e magoadas as mos em partir as enredias.
        Ao recobrar-se do sossbro que tivera, escutando as palavras de Linda, ela afastara-se a pretexto de subir de novo o outeiro, e certificar-se da altura em 
que iam os viajantes. Descendo porm rapidamente a outra encosta, penetrou na floresta e desapareceu, antes que pudesse o Afonso j  cata, seguir-lhe a pista.
        Valia a Berta conhecer perfeitamente o stio, que muitas vezes antes percorrera com Miguel. A Ave-Maria ficava muito perto dali, para quem atalhava o caminho, 
levando rumo direto por entre a brenha e ao longo do costo que alombava o penhasco at a azinhaga. Uma vereda havia que serpejava pelo dorso do espigo e saa no 
tope da garganta.
        A estrada principal da fazenda, por onde seguira Galvo, descrevia uma larga curva contornando as terras a que servia de extrema, e vinha passar em pequena 
distncia  direita do Tanquinho, cerca de uma milha da casa das Palmas, situada no recosto da esplanada.
        Calculou Berta portanto que tinha sobre o viajante um grande avano e podia alcanar antes dele a azinhaga, para certificar-se de que a passara inclume, 
ou para salv-lo de qualquer modo, que a menina no podia imaginar.
        Para isso, porm, era indispensvel que o mato no lhe tolhesse o passo nem embaraasse a carreira; e pois buscava ela descobrir o trilho no alto do espigo.
        No pode ach-lo. A perturbao em que a deixara em choque, aumentada com a convico de estar Jo na tocaia, lhe roubara a calma necessria para orientar-se 
no meio daquele ddalo inextricvel, tecido pelas guitas dos cips e vergnteas das rvores.
        De sbito estremeceu ela, ouvindo estalar os ramos com violncia despedaados, farfalhar a folhagem rudemente agitada e reboar nas abbadas da floresta o 
estrupido de um passo duro e pesado.
        Gente ou bruto, o que era, rompia pela mata abrindo passagem a rpida carreira, que no encontrava obstculo para det-lo.
        Dir-se-ia a disparada de uma anta, se no fosse uma certa ondulao do rumor que indicava no levar a corrido alvo certo, mas desviar-se para um e outro 
lado, fazendo voltas, como se a dirigisse uma vontade, perplexa no rumo, embora impetuosa na investida.
        Parando para concentrar um momento a ateno convenceu-se a menina que a seguiam; e sua fronte decidida vibrou um gesto de soberba contrariedade. Chamando 
a si toda a energia de seu carter e todas as foras de sua fina tmpera, Berta de novo arremessou-se, e rompeu o mato com o desespero de escapar  perseguio.
        Infelizmente, quando ela supunha ter ganho vantagem, caiu em uma sebe emaranhada; e a ficou enleada pelas meadas de enredias que fazia entre os galhos 
das rvores um tecido de folhagem. Debalde tentou a menina desvencilhar-se; cada vez mais se prendia.
        Entretanto se aproximava dela rapidamente o som da outra corrida, e no tardaria muito que chegasse ali.
        Ocorreu ento a Berta uma idia, encolhendo-se dentro do esconderijo, que lhe deparara to propcio acaso, quedou-se  espera, sem rumor, cortando sutil 
com os dentes as cordas dos cips que a enleavam.
        Chegou enfim a corrida e passou como um turbilho cerca de duas braas do lugar onde ela estava sem que se pudesse distinguir mais do que um vulto pardo, 
que bruxuleou entre o macio da folhagem. Algum tempo aquele tropel serpejou cerca, at que perdeu-se na distncia.
        Surdiu Berta do esconderijo, onde aproveitara o tempo, no s a destrinar a teia que a envolvia, como a coligir as vagas lembranas daqueles stios. L 
no muito longe, vira ela sob as crastas de verdura descarnar-se o rochedo; a vereda passava por cima.
        Caindo em fim no treito, precipitou a corrida, e de um flego chegou  brenha da azinhaga. A hesitou um instante. Em que ponto do despenhadeiro estaria 
de emboscada o capanga? Onde e como descobri-lo? Chegaria a tempo? No seria frustrada a louca esperana que a trouxera?
        A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela; e que todo seu impetuoso af no lhe servira seno para ser testemunha de 
uma atrocidade infame: o assistir aos ltimos arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.
        Nisto soou rumor do lado das Palmas. J o estrupido reboava nas lbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo  entrada 
do despenhadeiro. Era Lus Galvo, no podia ser outro.
        Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direo para fazer parar o viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se um barranco profundo. 
Lanando olhos ansiados em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baeto preto que trazia naquela manh Jo Fera; 
e a um movimento de cabea vira o colo musculoso distender-se como serpente.
        Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava, com a faca apunhada, o momento de arrojar-se  frente.
        Como dissera Lus Galvo ao almoo, o bugre no feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo, barateando a vida. O bacamarte descansava encostado 
ao tronco; e o chapu cado ao cho, deixava em pleno ar a cabea revolta, que fervia-lhe com o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o corao.
        Aproximava-se Lus Galvo; e Berta presa de um espasmo de horror, que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, no podia soltar um grito, nem dar um passo 
para preveni-lo.
        Chegara o fatal momento.
        Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jo Fera arrancou. A nuca, porm, lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mo invisvel que lhe 
travara os cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada de clera e desprezo:
        - Malvado!...
        O capanga voltou-se rpido e feroz como o tigre picado pela vespa. Estava em face de Berta.




XV

O relicrio

        Era medonha a catadura de Jo Fera quando voltou-se.
        A fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a lngua bfida da cascavel, a silvar, no respirava a sanha e ferocidade que desprendia-se daquela fisionomia 
intumescida pela fria.
        Berta, ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso foi precipitar-se, fugir, escapar a essa viso que a espavoria. Reagiu, porm, a altivez 
de sua alma e a f que a inspirava.
        Travando as mos ambas um galho que encontraram acaso atrs da cintura, e crispados os braos como duas molas de ao brandidas, conseguiu manter-se com o 
talhe ereto e a fronte sobranceira, arrostando em face aquela rbia formidvel, que terrificaria ao mais bravo.
        Jo Fera, reconhecendo a menina atravs da nuvem de sangue que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os mpetos, no abateu logo de todo o fero senho, 
mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que recolhe  jaula, 
rangendo os dentes.
        Sua alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e ele sentia-se trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo esse corao nobre e 
puro, sublevado pela indignao. De repente comearam a tremer-lhe os msculos da face, como os ramos do pinheiro percutidos pela borrasca; e as plpebras caram-lhe, 
vendando-lhe a pupila ardente e rbida.
        - Estavas aqui para matar algum? perguntou a menina com um timbre de voz, semelhante ao ringir do vidro.
        Respondeu o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos lbios, aprofundou-se pelo vasto peito a rugir como se penetrasse em um antro.
        - Estava.
        - Que mal te fez essa pessoa?
        - Nenhum.
        - E ias assassin-la?
        - Pagaram-me.
        - Ento, matas por dinheiro? perguntou Berta com a vemencia do horror, que lhe causava essa torpe explorao do crime.
        -  meu ofcio! disse Jo Fera com uma voz calma, ainda que grave e triste.
        - E no te envergonhas?
        Com um assomo de soberba indignao foram proferidas estas palavras pela menina cujo olhar vibrante flagelava as faces do sicrio. Este erguera a fronte 
num mpeto de revolta, pungidos os brios pela humilhao:
        - Envergonhar-me de que? No feri, nunca feri homem algum de emboscada, s ocultas, a meu salvo. Ataco de frente, a peito descoberto. Se mato  porque sou 
mais valente e mais forte; mas arrisco minha vida, e umas quantas vezes, bem mais do que esses a quem despacho, pois sou um s contra muitos.
        - Que importa isso? A misria est em venderes a vida de teu semelhante, se acaso s tu homem e no fera como te chamam.
        Um riso de ironia feroz arregaou o lbio do capanga.
        - E a vida  coisa que no se venda? A esto comprando-a todos os dias e at roubando. A minha, no a queriam, quando me recrutaram? Foi preciso barganhar 
por outra, seno l ia acabar em alguma enxovia.
        - Assim no te causa a menor repugnncia derramar o sangue de teus semelhantes em troca de alguns vintns?
        - Sangue de gente, ou sangue de ona, todo  um; tem a mesma cor, e a mesma maldade. J estou acostumado com ele. Sente-se a fumaa do churrasco. Eu gosto! 
Disse o sicrio dilatando as narinas, como se esquisito aroma lhe prurisse o olfato.
        - Tu s um monstro! disse Berta afinal com uma exploso de horror. Quando te pintavam como um assassino, autor dos maiores crimes e capaz de cometer toda 
a espcie de atrocidade, eu no queria crer; porque duvidava que um homem pudesse transformar-se em um tigre carniceiro; e tambm porque tantas vezes te vi to sossegado 
e cuidados comigo, e eu no podia imaginar que se pudesse ter esse rosto bom e tranqilo, tendo-se dentro do corao uma caninana.
        A estas ltimas palavras, em que a voz da menina sombreara-se com uma entonao afetuosa, o corpo robusto do capanga oscilou com ntima e rija vibrao, 
como o prcero ibirat quando a seiva exuberante irrompe lascando-lhe o tronco. Na expanso violenta de sua alma, arrojava-se ele aos ps de Berta e ia cair-lhe 
de joelhos, quando um olhar embaciado e glacial o reteve ofegante e esmagado:
        - Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais horrvel. Que assassines por paga a quem no te fez mal, que por vingana pratiques 
crueldades que espantam, eu concebo; s como a suuarana, que s vezes mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira e estraalha tudo. Mas 
que te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que no se compreende; porque 
at as feras lembram-se do benefcio que se lhes fez, e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou.
        - Tambm eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar por aqueles que me querem. No me torno, porm, escravo de um homem, que 
nasceu rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. No foi por mim que ele fez isso; mas para mostrar ou por vergonha 
de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra nos d de comer a todos e ningum se morre por ela.
        - Para ti, portanto, no h gratido?
        - No sei o que ; demais, Galvo j ps-me quites dessa dvida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas! Acrescentou Jo Fera com um suspiro profundo. 
Assim no era por ele que eu o queria poupar; mas por outra pessoa.
        O capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas no teve foras de erguer o olhar, que pesava-lhe como uma trave e abatia-se no cho:
        - Foi por mec, disse a voz submissa.
        - Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias mat-lo?
        - Quando ajustei, no sabia e gastei o dinheiro. Agora no tenho para restituir...
        - Pois eu no quero, ouves, no quero que lhe toques!
        Jo Fera estremeceu:
        - Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexvel como a fatalidade.
        - Desempenha!
        - Se pudesse! exclamou Jo com o acento do desespero, e concluiu sucumbido:
        - No tenho quarenta mil ris!
        Um riso estridente de clera escarninha agitou o lbio de Berta.
        - Dinheiro? Por que no o roubas? Tens vexame? Um assassino que farta-se de sangue, com o escrpulo de meter a mo na bolsa alheia. Ah! Ah! Ah!...
        A tortura que sofria Jo Fera no se descreve. Foi com a voz estrangulada por dores cruentas que ele balbuciou:
        - Jo Bugre  um homem de honra!
        - Ah! s um homem de honra! Pois ento vai, corre! Aquele que escapaste de assassinar te dar de esmola o preo por que ajustaste sua morte, como te deu 
outrora o po com que matavas a fome!
        Ante este ltimo e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu, desfigurando-se horrivelmente. Nas crispaes do rosto, como nos espasmos das pupilas, sentiam-se 
as vascas da convulso que laborava aquela alma.
        - Jura que o respeitars!
        - No posso! murmurou o capanga com um arranco.
        - Jura!
        - Minha palavra!...
        Era tal a angstia dessa voz soluante, arquejada por uma nsia do corao, e tamanha desolao cobria aquela organizao possante e indmita, agora esmagada 
sob a mo frgil de uma criana, que Berta comoveu-se profundamente.
        - Toma, vende e desempenha a tua palavra!
        E estendeu-lhe a mo com o cordo de outro que tirara do pescoo e ao qual estava preso o amuleto e a cruz.
        - O que! disse Jo abaixando a cabea para distinguir o objeto, to cedo estava da agonia daquele transe.
        - O relicrio de minha me!
        Estalou com um grito horrvel e bravio o peito de Jo Fera, que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas.
        Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio cair estrebuchando aos ps da menina, com a gorja a estertorar e os dentes 
a ranger.
        Berta o reconheceu.
        Era Brs, o idiota.

XVI

A sura

        Na entrada do vale, onde assenta a freguesia de Santa Brbara, via-se outrora  margem do Piracicaba, encontra o rio, um velho casebre.
        Era uma antiga construo de taipa; e mostrava com pouca diferena o aspecto comum s habitaes medianas que, naquela parte da provncia de So Paulo, se 
encontram de espao em espao pela beira do caminho e  distncia dos arraiais e povoados.
        A porta de entrada ficava no meio entre duas janelas estreitas em vez de vidro. Tanto as portadas, como as folhas, estavam cobertas de uma pintura cor de 
ferrugem, que destacava na parede da frente, branquejada com tabatinga.
        A um lado da casa cresciam umas encarquilhadas laranjeiras da China e um pessegueiro; no outro havia canteiros, onde espigavam no meio da ervagem couves 
gigantes, j com pretenses a arbustos, de to velhas que eram.
        Mais longe, no gramado se erguia um frondoso pau-ferro, a cuja sombra costumavam se abrigar da calma, durante a sesta, um cavalo magro, uma vaca e alguns 
bacorinhos, que levavam o resto do dia a roer o capim j tosado at a raiz.
        Mediavam trs dias depois que Berta salvara a vida a Lus Galvo, retendo o mpeto de Jo Fera.
        Amanhecera de pouco. Estava um dia de inverno frio e brumoso. Forte cerrao cobria o vale, condensando-se ao longo do rio. A trechos, grossos borbotes 
de neblina mais espessa desdobravam-se do viso dos montes ao sopro da virao, e rolavam como vagas por esse mar de nvoas.
        Vistas atravs do vu, as rvores tomavam um aspecto pavoroso e fantstico, e s vezes figuravam os espectros, de que a abuso povoa os ermos, a fugirem 
espancados com os primeiros albores do dia.
        Abriu-se a porta que dava para a varanda, corrida nos fundos da casa, e assomou o vulto gentil e esbelto de uma mooila que trazia ao brao um saco de chita. 
Apesar da cerrao, era fcil de conhecer Berta, pela garridice petulante dos gestos e meneios.
        Aos saltinhos, ganhou a menina o quintal onde havia um pequeno jardim, se tal nome cabe a moitas de roseiras, manjerico e malmequeres plantados de mistura 
e sem arte dentro de um cercado de varas, entre as quais estavam suspensos alguns cacos de barro com ps de craveiros.
        Apenas afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu debaixo de sua palhoa uma galinha sura e muito arrepiada. No tinha ps a pobre, que 
lhos havia rodo  noite os ratos; andavam aos trancos, sobre os cotos que mal a ajudavam a saltar, e incapazes de sust-la, a deixavam cair a cada passo, cobrindo-a 
de terra, o que a fazia mais feia ainda.
        Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a ao colo, deu-lhe a comer um punhado de milho que tirou do saco. Farta a galinha da sua pitana, 
levou-a Berta  bica, para matar-lhe a sede e lavar-lhe as penas sujas de poeira e cisco.
        Depois que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe nutrio e asseio, a menina deitou numa palhoa, que a seu rogo fizera Miguel num canto do 
cercado, para abrigo de sua protegida.
        Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, j no se notava a travessa alacridade que cintilava de ordinrio em seus movimentos; e era, pode-se bem dizer, 
a radiao de seu gnio. Sua graa ento era sria; havia em seu lindo semblante uma serena efuso da ternura que flua-lhe dos olhos meio vendados e dos lbios 
descerrados por um riso gentil.
        Bem se conhecia, ao v-la embebida naquela ocupao, que no havia a para ela unicamente o atrativo de uma afeio de criana, como todos na meninice sentimos, 
uns pelas bonecas, outros pelos ces ou passarinhos. Impulso mais forte era o que movia o corao de Berta para aquele msero ente, como para todo o infortnio que 
encontrava em seu caminho.
        Ningum na casa se importava com essa galinha, a no ser para fazer-lhe mal. Antes de perder os ps, por ser feia e arisca perseguiam-na a pedradas, quando 
aparecia no quintal. Depois que a roeu a ratazana, esteve ameaada da panela, donde a salvou Berta, que desde esse dia a tomou a seu cuidado.
        Da em diante, no houve mais quem bolisse com a sura; porque sabiam que no o sofreria sua linda protetora. E como todos queriam a Berta de corao, o ponto 
era mostrar ela predileo por alguma pessoa, ou mesmo objeto, que porfiavam por lhe adivinharem os pensamentos.
        Tendo acomodado a galinha na sua capoeira coberta de palhas e mudado a gua do caco, a menina que derramara pelo cho um punhado de milho e couve, entreteve-se 
alguns instantes a ver suas flores, umas j de vspera abertas, outras boto como ela, esperando o primeiro raio de sol para desabrocham.
        Entre eles, colheu um de rosa que entrelaou nos cabelos; e deixando o quintal, sem demorar-se com as outras galinhas que a cercavam cacarejando, e s quais 
atirou de passagem o resto do milho, ganhou o campo.
        Estendia-se este com pequenas ondulaes at a margem do rio, que ficava a umas cem braas da casa. Entre as pitas e crauts, que formavam touas aqui e 
ali, em torno de algum arvoredo, serpejavam trilhos, cruzando-se em vrias direes.
        Seguiu Berta por aquele que estendia-se na direo do rio. No tinha, porm, dado vinte passos, que voltou-se rapidamente, ouvindo rumor da porta da varanda 
que outra vez se abria.
        Por entre a folhagem e atravs da neblina viu ela o vulto de Miguel, que parara no quintal, volvendo o rosto de um a outro lado, como indeciso no rumo que 
devia tomar. Adivinhou logo a menina que o rapaz lhe percebera a sada e vinha disposto a acompanh-la.
        Ocultou-se ento em uma das touceiras, que embastiam as cortinas de erva-de-passarinho, pendentes das ramas de uma velha laranjeira do mato. Da observou 
Miguel, o qual depois de vagar um instante perplexo pelo campo, meteu-se pela vereda paralela ao rio, e pouco depois desapareceu por detrs de uma ponta de capoeira.
        Continuou ento Berta o seu caminho; mas receosa de que o rapaz a estivesse espreitando ou voltasse de repente, ora avanava trmula de susto, hesitando 
a cada passo e de chofre escondendo-se atrs das rvores, ora disparava a correr para encobrir-se no mato que bordava o sop da colina.

XVII

Zana

        Ao passar pela garganta de dois outeiros pedregosos, que formavam abraando-se uma estreita e mida charneca, Berta bateu com fora as palmas das mos breves 
e delicadas.
        Ouvia-se de perto um ornejo soturno, que mais parecia gemido; e logo depois surdiu dentre o macio da folhagem a enorme orelha de um burro, que a muito custo 
movia o passo trpego. De magreza extrema, ressaltavam os ossos a modo que pareciam prestes a furar-lhe o couro. Era propriamente uma carcaa, coberta com espessa 
crosta de lama, onde o animal estivera deitado e lhe secara no pelo.
        A outra orelha, que aparecia, a perdera ele na mesma ocasio em que de uma foiada lhe vazaram o olho esquerdo, levando-lhe boa parte da cabea. Parece que 
o arteiro do burro conseguira furar a cerca da roa de um caipira, e regalava-se de milho verde e tenra fava. Mas saiu-lhe cara a gulodice.
        No msero estado em que o pusera o caipira, pode, arrastando-se, chegar quela charneca, onde se deitou, quase moribundo, em um brejal. Com pouco os urubus 
vieram pousar nas ramas da imbaba.
        Acaso passou Berta pelo caminho e ouvindo gemidos, foi guiada pelos abutres, dar com o animal agonizante no meio de uma toua de juna. Movida de compaixo, 
venceu a natural repugnncia que lhe devia causar o aspecto da ferida para lav-la e cobrir com folhas de fumo atadas por embira.
        Do fumo sempre ouvira falar como remdio para todos os achaques. Se no servisse para ferimentos, em todo o caso guardava o talho contra as moscas e taves.
        Repetiram-se estes cuidados, at que afinal comeou a ferida a cicatrizar; mas deixara o burro em tal lazeira, que ainda era duvidoso se escaparia. No desanimou 
Berta, em cuja alma se produziam na maior efervescncia os transportes dessas abnegaes veementes, que so para certas naturezas uma necessidade irresistvel de 
expanso.
        - Coitado do cot! Ainda est muito magricela?... disse a menina com um carinho compassivo.
        E tirou do saco meia dzia de espigas de milho, que o animal devorou com uma gana de convalescncia.
        Debulhado o ltimo sabugo, farejou o burro o saco, donde se escapavam umas exalaes que lhe pruiam agradavelmente o olfato.
        Rindo, outra vez meteu Berta a mo no seu inesgotvel saco e trouxe um punhado de farinha que o burro lambeu-lhe das palmas. Dando ento um ligeiro tapa 
na belfa do animal, deitou a correr pelo campo fora seguindo a mesma vereda.
        Atrs de um fraguedo, cuja fralda atravessava o leito do rio, abrolhando-lhe a corrente, existia naquele tempo uma casa em runa. J tinha desabado metade 
da parede do sto e o telhado abatia aos poucos, rompendo os caibros podres.
        Da cozinha, que ainda se conservava em bom estado, com exceo da porta j tombada ao cho pela ferrugem das dobradias, saa um som roufenho e soturno, 
como o grunhido de um porco. Acocorada a um canto, com o queixo sobre os cotovelos fincados ao peito cerrando a cara, descobria-se uma criatura humana, dobrada sobre 
si a modo de trouxa.
        Era uma preta velha, coberta apenas de uma tanga de andrajos, e que resmoneava, batendo a cabea com um movimento oscilatrio semelhante ao do calangro. 
De tempo em tempo desdobrava um dos braos descarnados, insinuava ligeiramente a mo pela espdua, e fazia meno de matar uma pulga que imaginava ter presa entre 
o polegar e o indicador.
        Havia algum tempo j que Berta parara  porta da cozinha, sem que a estranha criatura desse o menor sinal de a ter percebido.
        - Zana! disse afinal a menina.
        Estremeceu a negra, e ps-se a escuta daquela voz, como se viesse de longe, de bem longe, e s mui de leve lhe ferisse as ouas. No se repetindo o chamado, 
voltou  primeira posio e continuou a resmonear, abanar a cabea coberta de uma carapinha grisalha da cor de l churra do carneiro.
        Entretanto Berta aproximou-se de uma prateleira que havia na parede, junto ao fogo, para esvaziar ali o resto do saco. No velho alguidar esborcinado, deitou 
a farinha de milho; e sobre a tbua algum feijo e torresmos de carne de porco, embrulhados em folhas de couves.
        Recostando-se ento  aba da prateleira, a menina com os olhos fitos na preta comeou em um tom brando e suavssimo a repetir este acalanto:
                Cala a boca, anda, nhazinha,
                        Ai-hu, l-l!
                Seno olha, canhambola,
                        Ai-hu, l-l!
                Vem c mesmo, Pai Zumbi,
                Toma, papanha Beb!
         proporo que a menina cantava,  preta desrugava-se o rosto contrado por um espasmo, que lhe deixara impressa no semblante alguma profunda angstia. 
Uma vaga expresso de sorriso chegou a iluminar aquela fisionomia bruta e repulsiva. Os olhos pouco antes baos e quase extintos desferiram um lampejo, e vagando 
um instante pelo aposento, se fixaram enfim no vulto de Berta.
        - Beb!... regougaram os grossos beios da negra com uma voz que no parecia humana, embora repassada de extrema doura.
        Depois arrancou do peito cavernoso a mesma toada do acalanto, cujas palavras truncava por forma que somente se percebia delas a sonncia confusa e estranha. 
Dir-se-ia que ela cantava em algum dialeto africano, to brbara era a pronncia com que se exprimia.
        Entretanto fora dela mesma que Berta aprendera a cantilena por t-la ouvido repetir muitas vezes. Imagine-se que esforo de pacincia e ateno no fora 
necessrio  menina para decifrar entre os sons ignotos e quase inarticulados, as palavras da cantiga, que ela dantes nunca ouvira.
        Mas a pobre louca era uma das misrias sobre que se derramava como blsamo a alma de Berta. Desde criana se habituara a passar a algumas horas, de quando 
em vez; tornando-se moa vinha regularmente duas vezes por semana visitar a sua protegida e trazer-lhe o sustento.
        Esperou Berta com a maior pacincia que Zana acabasse de cantar; e ento mostrando-lhe as provises conseguiu que ela comesse alguns bocados dados por sua 
mo. Para que a doida abrisse a boca, porm, era necessrio que a menina estivesse a repetir de momento a momento duas palavras que pronunciadas por sua voz carinhosa 
produziam sobre esse esprito enfermo um efeito mgico.
        - Zana, beb!...

XVIII

A viso

        Sentara-se Berta na soleira da porta da cozinha, e com a vergntea que partira do galho seco de um marmeleiro, traava letras no cho do quintal.
        Eram iniciais de nomes, que ela tinha no corao ou na memria; e naquele momento de cisma lhe acudiam de envolta com as recordaes de sua modesta existncia, 
 qual estavam entrelaadas.
        De instante a instante, voltava o rosto para observar Zana, que j completamente alheia e despercebida de sua presena, continuava a menear a cabea com 
a mesma incompreensvel surdina; ou arrancava da taipa um torro de barro, que mastigava com avidez.
        Nessas ocasies fitava Berta os olhos em uma rstia de sol, que, penetrando pela fresta praticada no alto da parede exterior, cortava obliquamente o aposento 
com uma faixa de luz. O raio esbatido na taipa do fundo se inclinava gradualmente com a elevao do sol no horizonte, e descia vertical sobre o canto onde se acocorava 
habitualmente a louca.
        A folhada crepitou com um estalido cadente, que indicava passo de homem ou animal a caminhar por entre o matagal que cercava as runas e ameaava afog-las 
sob a basta ramada.
        Olhava a menina assustada para o lado de onde viera o rumor, quando na balsa fronteira lobrigou um vulto pardo que resvalava por detrs do tapigo, e cujo 
ofego sussurrava entre as folhas.
        Ligeira escondeu-se Berta na cozinha, e por uma fenda que havia no aposento prximo, outrora dispensa, espreitou o circuito. Mas um incidente a distraiu 
desse propsito, chamando sua ateno para o interior.
        A rstia de sol, descendo, batera na cabea de Zana, que se ergueu esfregando os olhos, e aproximou-se do fogo. Agachada em frente ao bueiro, comeou a 
soprar, como se houvesse ali nas grelhas algum brasido coberto pelo borralho; entretanto o tijolo gretado, que servia de lareira, j no conservava nem restos de 
cinzas.
        Depois de algum tempo empregado na quimrica operao de acender um fogo ausente, a louca foi  prateleira buscar uns cacos de telha, que se lhe afiguravam 
panelas ou frigideiras; e fez meno de lavar o trem de cozinha, para preparar a comida.
        Em meio dessa ocupao, de chofre voltou ela a cabea, aplicando o ouvido,  guisa de quem escuta um chamado, e para acudir arrancou do peito um grito spero 
e gutural:
        - Inh!...
        Imediatamente deixou o fogo, depois de por os testos s panelas, e dirigiu-se pelo corredor  sala da frente, donde passou  alcova prxima. No havia a 
ningum; as paredes esboroavam-se; o teto de fasquias de taquara caa aos pedaos, e as tbuas do soalho rangiam sobre os barrotes carcomidos.
        Zana tinha parado junto  porta, em atitude de escutar outra pessoa, que por ventura ali estivesse a falar-lhe. Os gestos rudes, mas expressivos; os esgares 
vivos e rpidos, que lhe cambiavam a mbil fisionomia, indcio eram das impresses encontradas que abalavam esse esprito embotado.
        Seguira Berta com ansiosa ateno os passos da louca, decorando seus menores movimentos e observando-lhe amide a expresso do rosto. Cosida a ela como a 
sombra ao corpo, roando-a muitas vezes a seu pesar, ou bafejando-lhe o rosto com o hlito, quando acaso se inclinava para espiar-lhe o semblante, nem assim Zana 
dava f de sua presena.
        Desde algum tempo, em uma de suas visitas, reparou Berta na singular mmica da doida, e de princpio no viu nisso mais do que um efeito natural da loucura. 
Mais tarde, porm, notando a insistncia com que a negra repetia os mesmos movimentos, e ordem em que eles se sucediam, suspeitou a menina um mistrio.
        No seria essa pantomima a representao muda de uma cena que ali, naquela casa em runas, passara outrora, e abalara a alma da negra a ponto de a subverter 
e alucinar?
        Assim como dizem que a pupila conserva a imagem da ltima viso, no suceder o mesmo com o esprito, e no ficar nele gravado, como em esteretipo, o quadro 
que iluminaram os ltimos clares da razo extinta?
        Foi este pensamento de Berta, que, atrada pelo encanto desse mistrio, empenhou-se em perscrutar esse ermo onde jazia no seio de uma casa e de uma conscincia, 
ambas em runas, o arcano impenetrvel.
        De tantas vezes que assistira quele esboo rude e taciturno de uma tragdia ignota, j conhecia Berta de todos os seus episdios e incidentes, que mais 
tarde ela reproduzia de memria com o af de penetrar-lhes o sentido oculto.
        At o momento em que Zana entrava na alcova, era fcil de compreender o fato que a reminiscncia da doida retraava to ao vivo.
        A preta, que era naturalmente a cozinheira da casa, despertada pelo sol, do costumado cochilo, acendera o fogo e preparava o almoo, quando ouviu chamarem-na 
do interior. Deixou a ocupao, e acudiu algum, que estava na alcova.
        A ouviu assustada e com espanto o que lhe dizia essa pessoa, e, achegando-se  janela na ponta dos ps, enfiou os olhos na direo que lhe fora indicada. 
Assim permaneceu algum tempo, at que recuou espavorida, com a mscara do terror no semblante e os ossos dos joelhos a estalarem, batendo um contra o outro.
        O que vira ela?
        No pudera a menina atinar ainda, nem com a explicao desse terror, nem com o resto da histria, que de mais se complicava.
        No meio do sbito pavor, cobrava Zana a vontade, estendia os braos crispados, parecia tomar um objeto que apertava ao seio convulso, como se quisesse esconder 
ou sufocar; e atirava-se fora do aposento com um mpeto de horror que a levava at um cubculo da cozinha, onde fazia sua dormida.
        Dir-se-ia que deitava o fardo no cho e corria ao fogo para tirar dali alguma coisa, que depois de moda espalhava nas palmas das mos para ir esfregar 
o objeto escondido no cubculo.
        Saa ento ao terreiro, e passeava de um a outro lado com os modos de uma ama, ninando criancinha de colo. Era nessa ocasio que, balanando o corpo, com 
os braos arredondados ao peito, ela entoava a montona cantiga, que Berta conseguira decifrar.
        De repente transmudava-se completamente a doida, passando daquela extrema volubilidade a uma apatia balorda. Parecia fazer-se um vcuo em suas reminiscncias, 
que fugiam-lhe deixando a alma sepultada se intrumescia com a expresso do idiotismo.
        Nesse estado de estupor, vagava a passos trpegos pela casa, at que parava automaticamente na porta da alcova e estendia o pescoo para dentro. Devia de 
ser  de ser horrvel o espetculo que ali surgira a seus olhos, porque depois de tantos anos, a s imagem a fulminava.
        Erguia-se-lhe o corpo hirto; um grito de terror estalava no peito e vinha estrangular-se nas fauces. Volvia sobre si; e tombava ao cho, como uma pedra.

XIX

O desconhecido

        Tal era o esboo grosseiro do misterioso drama, que ali se representara e do qual Berta debalde se empenhava em devassar o segredo.
        Mais estimulava a sua curiosidade o cuidado com que em criana a tinham arredado da casa em runas, j inspirando-lhe um terror supersticioso da louca, j 
recomendando-lhe que nunca se dirigisse para aquela banda.
        Tambm quando a menina queria saber a histria de Zana e a razo por que a negra doida ali vivia abandonada numa casa em runas, que devia ter pertencido 
a pessoa abastada, ningum lhe respondia; mas procuravam uma evasiva para no falar sobre tal assunto.
        Tudo isto, longe de arredar a menina daquele stio, bem ao contrrio desenvolvia nela uma dessas tentaes de criana que no conhecem obstculos. A pouco 
e pouco, de susto em susto, animou-se ao cabo de muitas semanas a aproximar-se das runas e observar Zana em distncia, at que afinal se convenceu que era uma criatura 
inofensiva a msera doida.
        J tinha ento Berta seus quinze anos, e com a afoiteza da idade tambm ganhara mais largueza e desenvoltura da ao para sair de casa e demorar-se fora 
sem inspirar cuidados.
        Berta passava por enjeitada e ela o sabia, pois nunca lho ocultavam. Fora a me de Miguel, nh Tudinha, quem a recolhera e criara com o maior desvelo. Na 
casa, porm, onde se achava emprestada e por comiserao, era ela a verdadeira senhora, pois que os donos se faziam cativos seus e porfiavam em adivinhar-lhe as 
vontades para satisfaz-las.
        Sem dvida que nh Tudinha queria mais bem ao filho de suas entranhas; mas no tinha para ele os extremos, as debilidades e carinhos, que fazia por essa 
filha de criao, a enjeitadinha. De seu lado, Miguel, embora se estremecesse pela me, decerto que pensava mais em Berta, sua colaa.
        Sentindo a seduo que exercia em torno de si, no abusava todavia a menina, transformando-se em uma pequena tirania domstica,  imitao de certas crianas 
dengosas. A no ser para conservar a liberdade, a que a habituara uma educao campestre, no mais esquivava-se quanto podia ao imprio que lhe deferiam os sditos 
de sua graa e gentileza.
        Assim explica-se como podia Berta passar horas e horas nas runas, observando Zana e esforando por desvendar o mistrio dessa louca solitria, que ali vivia 
ao desamparo, completamente esquecida e nutrindo-se de terra de razes cruas, antes que a menina se incumbisse da tarefa de prover a sua subsistncia.
        No dia em que estamos no acabou Zana a pantomima de sua viso diria.
        Quando se aproximava p ante p da janela da alcova, em atitude de quem espreita, os olhos da negra esbarraram com os de um homem. Era o Barroso que assomara 
de dentro do mato, pouco antes, e dirigiu-se passo a passo para as runas.
        Estremeceu a doida, e to violenta foi a propulso, que a fez saltar sobre si. Com os olhos esbugalhados, a boca escancarada e os beios arregaados, ficou 
banza um instante; mas logo, espancada pelo terror, precipitou-se para fora to desastradamente que errou a porta e bateu em cheio na taipa.
        De novo arremeteu, e rechaada pelo choque, andou aos embates contra a parede, at que acertando com o vo da porta fugiu estremunhada de pavor.
        Advertida pelo primeiro sintoma de estupefao da louca, Berta seguindo-lhe a direo do olhar, avistara tambm o Barroso, que nesse momento parado em face 
da janela, a alguns passos apenas, a encarava com uma expresso de profundo rancor.
        Teve medo a menina, e recuou instintivamente. Estava acostumada a correr s os campos vizinhos, onde freqentemente encontrava caipiras e toda a casta de 
gente malfazeja, de quem alis nunca se receara. Esse homem, porm, inspirava-lhe uma indefinvel repugnncia e terror.
        Esteve Barroso a consider-la alguns instantes, com ar de quem se resolve. Por fim, mascando um riso mau, que revia-lhe dos lbios, afastou-se murmurando:
        - Eu hei de saber! Ah! se fosse!...
        Com a partida do desconhecido, recuperou Berta a calma de esprito e volvia os olhos pela sala procurando Zana, que vira fugir, quando lhe feriram o ouvido 
gritos esganidos e sufocados, que vinham do terreiro.
        Precipitando-se da alcova, a preta viera at o terreiro da cozinha, onde, faltando-lhe as foras, abateu-se como um fardo a que retiram o apoio.
        Imediatamente de dentro do balseiro saltou com o arremesso de um gato do mato uma estranha criatura cuja roupa de grosso brim escorria para a iluso. Acocorando-se 
em cima do corpo inerte da louca, apertava-lhe ao pescoo as mos crispadas, procurando esgan-la, enquanto com os ps e os joelhos malhava-lhe o ventre.
        Foi esta cena cruel que Berta viu de relance ao chegar  porta da cozinha, chamada pelos gritos. Arrojando-se do mesmo mpeto ao terreiro, seus lbios lanaram 
com um tom de severa exprobrao o nome do perverso, que espancava to barbaramente uma criatura inofensiva.
        - Brs!
        No se animou o rapaz a erguer a cabea, to acabrunhado ficara, e to corrido de sua barbaridade. Naquele instante no havia foras para obrig-lo a fitar 
o semblante de Berta, e afrontar a clera de seu olhar.
        Agachado, como se quisera sumir-se pela terra a dentro, fugira ele antes que a menina chegasse para tirar-lhe a preta das garras; e foi esconder-se por detrs 
de um maracho da taipa, que esboroara da parede do outo.
        Cuidou Berta de levantar a cabea da doida, na esperana de reanim-la, o que s conseguiu depois de muito tempo. Quando a preta se pode erguer, ajudou-a 
ela a ganhar o cubculo, onde  noite se agasalhava a infeliz. Havia tempo que trouxera a menina uma esteira, sobre a qual a acomodou, prometendo a si mesma voltar 
logo mais com aguardente e pano para deitar sobre a contuso que tinham deixado as mos de Brs.
        Este continuava agachado por trs do medo de taipa; espiando  sorrelfa os movimentos de Berta, quedava-se com a humildade do rafeiro quando espera que 
a mo do senhor o fustigue pela falta cometida. Ao rumor dos passos da menina, que vinha de seu lado, encolheu-se ainda mais; parecia concentrar-se todo para o transe 
difcil.
        Trazia Berta no olhar uma profunda repulso, e o lbio frisado por um assomo de clera. A perversidade do rapaz contra a msera doida a revoltara dolorosamente 
a ponto de esquecer que tambm esse ato cruel era de um esprito enfermo, e quem sabe se mais digno de lstima.
        Parou ela em face do culpado, perplexa, hesitando por ventura no castigo que devia infligir-lhe. Por fim deixou cair dos lbios um sorriso de desprezo e 
afastou-se rapidamente.
        Esperava o rapaz uma severa repreenso. Este desprezo e repentino abandono, o trespassaram de dor. Quis levantar-se para correr aps a menina, e as pernas 
lhe fugiram. Voltando-se ao rugido que ele soltara, o viu Berta de joelhos, estorcendo as mos splices e esforando arrancar das fauces uma palavra que o sufocava.
        - No! disse a menina.
        Esta palavra fulminou Brs, que estrebuchou no cho, estorcendo-se em uma convulso medonha, que dobrou-lhe o corpo hirto, como se fosse uma verga de chumbo. 
Espumava-lhe a boca, e os dentes rangiam com horrveis contraes, que deformavam-lhe o semblante.
        Vencida pela compaixo dessa agonia, Berta correu a ele; e sentada sobre a relva, o tomou ao colo para amim-lo como o faria a uma criana, acalentando-a 
com meiguices e carinhos.

XX

A pousada

        Quem transitava pela estrada de Campinas via, meia lgua antes de Santa Brbara, dois casebres unidos por uma espcie de rancho ou telheiro.
        Um dos edifcios era bem velho, o outro novo, porm ambos de grosseira fbrica, sem reboco nas paredes mal emboadas, que mostravam entre os torres de barro 
as varas atadas com cip aos frechais. O cho despido de ladrilho, ou qualquer espcie de soalho, estava cheio de buracos e poas; de pintura no havia traos, nem 
mesmo de uma simples caiao.
        Na extremidade da casa velha, as duas portas abriam para uma espcie de taberna, a julgar pelo balco de pau que dividia o aposento a meio, e por duas ou 
trs ordens de prateleiras, onde se viam alguns rolos de fumo em corda, rapaduras envolvidas com palha de milho, e uma dzia de garrafas arrumadas em fila.
        Da venda passava-se por uma porta lateral para o aposento prximo que, em sendo preciso, servia de pousada.
        Era uma quadra de tamanho regular, Ao centro da parede interna encostava-se uma tosca mesa, ladeada em todo o comprimento por um s banco estreito. Em cada 
canto havia uma cama, cuja barra era feita de tiras de couro cru entretecidas a modo de esteira.
        Era j sol fora.
        Abrira-se de pouco a taberna, que parecia deserta, como todo o resto da habitao. Ao menos quem passava na estrada, acertando de enfiar os olhos pela porta, 
no via no meio da silenciosa imobilidade do interior outro sinal de vida a no ser o vo das moscas pousando sobre o balco para sugarem o mel de umas farpas de 
rapadura, que ali tinham deixado os viajantes da vspera.
        No era, porm, to absoluta como parecia, nela a solido.
        Na venda, por trs de uma quartola, arrumado em cima do balco e de bruos neste, cochilava um sujeito com a cabea posta sobre os dois braos cruzados em 
cima da tbua. Quando algum tropel soava na estrada, levantava ele a meio a testa, e enfrestava pela aberta que havia entre a parede e o bojo da quartola uma vista 
encadeada pela claridade. Passado que fosse o viajante, voltava  contnua modorra.
        Ainda moo e robusto, derramava-se no obstante no fsico desse homem certo ar de indolncia, que nesse momento mais se carregava com a sonolenta expresso 
do rosto seco, plido, bao, e levemente sombreado por alguns raros fios de barba. O cunho especial dessas feies, e particularmente o vis dos olhos com os cantos 
alados para as tmporas, revelavam o cruzamento do sangue americano com a casta bomia.
        Do lado oposto da habitao, em um compartimento, que tinha jeito de varanda, cozinha e ptio de criao, tudo ao mesmo tempo, fervia a panela posta em uma 
trempe de pedra no meio do cho. O fogo, apenas alimentado por gravetos, mal cozia o feijo e couves, destinados ao sustento daquele dia.
        Fronteira  janela, sentada ao cho, com os joelhos levantados e os braos cados sobre eles, estava uma rapariga de seus vinte e cinco anos, que parecia 
muito e muito ocupada em observar a fervura da panela; pois no tirava dela os olhos, nem fazia outra coisa. Perto dela jaziam, espalhados pelo cho, ou dentro de 
uma gamela, vrios pratos brancos de beira azul, uma tigela igual e algumas colheres de estanho.
        Diferentes vezes j, a rapariga lanara um olhar de enfado para a loua ainda suja do servio da vspera, e alongava depois a vista pela porta afora at 
l embaixo no brejal, onde passava o rego da gua, e media a distncia a percorrer. Abria ento a boca em um interminvel bocejo, espreguiava o lombo estirando 
os braos; e, quando parecia levantar-se para cuidar na lavagem dos pratos, achatava-se ainda mais no cho, murmurando:
        Tem tempo!
        Ouvindo o estrumpido de animal na estrada, ergueu o sujeito a cabea para olhar pela fresta; e seu rosto debuxou, atravs da sorna habitual, um gesto de 
aborrimento e agastadura, produzido pela vista do viajante que se aproximava.
        Era este homem de trinta anos, de to alto e esguio talhe que se curvava ao peso de uma cabea enorme e guedelhuda, ou talvez pelo hbito de cavalgar derreado 
 banda, como usam os caipiras. Sua fisionomia grosseira nada tinha de notvel, a no ser a malha que lhe marchetava de ndoas brancas a tez acobreada, bem como 
as costas das mos.
        Vestia um pala em bom uso, sobre fina camisa de morim e cala de brim de listra. O chapu era novo e de meio castor; as botas de couro de veado com chilenas 
de prata. Trazia no aro da sela uma espingarda de dois canos, e na cinta uma garrucha.
Parando a mula  entra da venda, o cavaleiro bateu com o cabo de rebenque na porta, gritando:
        - Oh! de casa!... Ainda se dorme por aqui, nh Chico?... Querem ver que o diabo do Tingu est mesmo ferrado na soneira?... Foi volta de samba esta noite, 
e samba grosso que deu de si at a madrugada. No tem dvida! Oh! l de dentro! basta de dormir! J deve estar bem cozida a camueca!
        Desenganado de que no se ia o importuno, resolveu-se afinal o sujeito da venda a fingir que despertava da sonata; e, estorcendo-se em um ruidoso bocejo, 
estirou a cabea por fora do bojo da quartola.
        - Quem ?... Ah! nh Gonalo!
        - Ora, bem aparecido!... Parece que por c anoiteceu de madrugada!...
        - No sei o que ; mas ando com uma canseira agora. Tenho cismado que seja dureza. Levo s a dormir!...
        No rosto do Chico nem vestgios restavam mais da expresso aborrida que provocara a presena do Gonalo. Ao contrrio, com o riso postio e a oficiosidade 
prpria dos estalajadeiros, que sabem seu ofcio, se erguera para falar ao fregus; e, apenas o viu apear, preparou-se para acudir pressuroso a seu servio.
        Neste ponto fazia o dono da taberna uma exceo  habitual indiferena com que de ordinrio via chegarem  sua casa, e nela posarem, viajantes de posio 
muito superior  do Gonalo. Haveria por ventura a respeito deste alguma razo particular.
        - Bebe-se caf por aqui, ou no se usa?
        - Sempre h de se arranjar!
        - Pois ento vamos a isto; enquanto descanso um tantinho. Aqui onde v este degas, j desanquei uma capangada! Quiseram se meter de gorra!...
        - Nhanica!... bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de caf!
        Ergueu-se ento a rapariga e sem espreguiar-se; tirou da trempe a panela de feijo para deitar o boio dgua; e arranjando o saco, onde ainda estava o 
polme da vspera, que servia para dois dias, correu a buscar gua para lavar a loua.
        Entretanto o Gonalo, derreado sobre o balco, chalrava com o Chico sobre o que vinha a pelo:
        - E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonalo.
        - Eu l sei, homem! Anda pelos matos, enquanto no do cabo dele, que no tarda muito!...
        - Ento acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonalo com um alvoroto de prazer, que mal disfarou.
        -  o mais certo! Dizem que esto lhe pondo o cerco.
        - Ora, isso h muito tempo!
        - Mas um dia chega a caipora.
        - Como? Se ningum sabe onde ele vive?...
        - L isso  verdade! ningum!
        - Pois eu c no me escondo! Quem quiser que venha!
        De costas para o interior da venda, o Gonalo, embora olhasse para fora, espreitava de soslaio o Tingu, que nesse momento, debruado sobre o tampo do balco, 
onde fincava os cotovelos, parecia inteiramente absorvido em examinar as ferraduras da mula.
        - Um dos cravos da mo est bambo! disse ele apontando para o casco do animal.
        -  mesmo! tornou Gonalo, que levantara a pata da mula. Pincha-me c o martelo.
        Nesse instante, no topo do caminho que descia  esquerda pela rampa de uma colina, apareceu uma troa de caipiras. Vinham a p, com as espingardas ao ombro; 
e diante deles trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois ces de caa.
XXI

O bacorinho

        No inverno costumam passar por aquelas paragens ranchos de caadores que demandam o serto para a montearia das antas e veados que ainda abundam nos campos 
de Araraquara e Botucatu.
        Parecia uma dessas partidas de caa, o magote de caipiras que parou fronteiro  venda, e para l encaminhou-se depois de combinarem entre si os companheiros.
        Um deles, que parecia ter sobre os camaradas tal ou qual preeminncia, adiantou-se enquanto os outros atravessavam muito vagarosamente a testada da casa.
        - Viva, patrcio! Queremos arranchar aqui para almoar!
        - Pois sim! respondeu o Tingu com a sua voz sorneira sem mexer-se do balco onde continuava debruado.
        Habituados certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram por si tomando conta da casa e aboletando-se na pousada. Uns se estiravam nas camas, 
e outros j sentados no banco junto  mesa esperavam o almoo com uma fome de caador.
        - S Filipe, venha alguma coisa que se masque, para despregar a barriga do espinhao! exclamou um dos companheiros.
        - E tambm que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar o peito! acudiu outro.
        - A vem, camaradas, no se assustem! retorquiu Filipe.
        Dirigindo-se ao balco, pesquisou ele com os olhos nas prateleiras e por todo o mbito da taberna, o que havia para matar a fome: e sempre arranjou-se com 
um velho queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho.
        - Pode nos das caf? perguntou ao Chico.
        - H de se poder! tornou o vendeiro.
        Rodearam os caipiras a mesa e devoraram as provises, depois de terem molhado a garganta com um copzio de boa cachaa de Piracicaba, a fim de escorregar-lhes 
bem o bocado, e no os engasgar.
        Na extremidade oposta, tomava o Gonalo seu caf, observando os caadores com a curiosidade natural  vida montona do interior, mas tambm com um recacho 
de arrogante fatuidade. Sem dvida tinha-se ele por um grande personagem, incgnito queles pobres diabos.
        - Isso h de ser tarde j! disse olhando cu.
        Era um pretexto para travar a conversa; mas os outros com a boca cheia no estavam dispostos  palestra. Apenas o Filipe correspondeu com um meneio de cabea.
        Virou o Gonalo a palangana de caf e acendeu o pito.
        -  servido? perguntou oferecendo fogo ao caipira.
        - Nada, obrigado.
        - Ainda que mal pergunte, o patrcio vem de longe?
        - De Campinas!
        - E anda caando? Por estas bandas h muito veado e paca: mas como os caititus este ano, nunca se viu:  mesmo uma praga!
        - Ns c andamos no rasto, mas  de outra caa! atalhou um dos caipiras a rir.
        - Viemos desencovar uma ona! acudiu outro.
        - E  suuarana!
        - Qual! Tigre verdadeiro!
        Fizeram coro os caipiras na gargalhada que despertara o dito do companheiro. No compreendendo a pilhria, o Gonalo estava a olh-los meio desconfiado e 
com um riso insosso.
        - O patrcio no lobriga?
        - Por vida, que no! tornou o Gonalo. Ainda que Suuarana  o sobrenome c do degas; por causa de ser malhado como a bicha. No v?...
        E mostrou as manchas da cara.
        - Sem falar da munheca!... Talvez o amigo no acredite; mas onde a v, j pegou queda de brao com uma; e mais era um bicho da altura daquela porta, sem 
exagerao! Agora quanto s risadas dos patrcios, a falar verdade no avento!
        - J v que  caa gorda.
        -  c uma histria!
        - Por fora que h de conhecer um tal Jo Bugre?
        - Conheo bem!
        - Pois a est a bicha fera que viemos desencovar. Parece que a furna dele fica por aqui perto. No podia nos dar notcia?
        - Mas ento os camaradas andam-lhe na pista?
        Entrava o Chico Tingu, com a pichorra de caf e as palanganas que deitou sobre a mesa, recostando-se depois ao portal da entrada, com a perna tranada e 
a mo no quadril.
        - No ouviu falar no Aguiar, do Limoeiro, no?... Um fazendeiro, que o tal Bugre arrumou com duas facadas, h de andar por uns dois meses?
        - Tenho uma idia, replicou o Gonalo.
        - O negcio deu brado, porque o homem era rico e andava sempre com uma ruma de capangas. Mas Bugre fez-lhe as contas.
        -  um temvel!
        - Marcado como ele s!
        - Nem por isso! observou o Pinta. Mas ento  por causa dessa morte que os camaradas vm prend-lo?
        - O filho do Aguiar d dois contos a quem filiar o meco.
        - No digo que no!
        - Se quer entrar na festa?
        Relanceando um olhar ao Tingu, que parecia cochilar encostado  ombreira da porta, respondeu o Gonalo com frouxido:
        - Nada; tenho obra mais fina.
        - Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?
         -Pois que dvida!
        - Ser mesmo o duro que dizem?
        -  conforme. Eu c no conto com ele.
        - Hum!...
        - O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho?
        - C o amigo Chico  quem h de saber por onde anda o cujo. Oh! psiu!...
        - Nh Pinta... Ah! Nh Gonalo! Acudiu o Tingu querendo engolir as primeiras palavras escapadas.
        - No sabe que rumo levou o Jo?
        - Tanto como mec.
        - Ora, ande l.
        - Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; no conta onde pousa; nem a gente indaga da vida alheia.
        - Pois tocava uma boa maquia a quem nos pusesse no rasto da ona. Cem bicos!
        Nesse momento um bacorinho de pelo ruivo, embestegava com um trote mido, mas ligeiro, pela cozinha, e atravessou toda a casa at a pousada, onde conversava 
a capangada. A comeou a fossar nas pernas do Chico Tingu, que, arrancando-se  balorda posio, desfechou no importuno animal um pontap.
        - Arre, patife.
        Deu-se por advertido o bacorinho, que imediatamente enfiou outra vez pela venda e foi sair no quintal, onde ps-se a grunhir com o focinho ao vento e os 
olhos na porta da cozinha.
      - Pelos modos l o homem de Campinas est com gana mesmo no Bugre? observou o Gonalo que no tirava os olhos do Chico.
        Pudera no! Da maneira por que arranjou-lhe o pai!
        - X!... Eh! Baia!... x!... Diabo de mula canhambola!
        Partiam vozes do vendilho, que fazia um grande escarcu com braos e pernas, a fim de espantar uma besta muar que sua imaginao figurava estar furando 
a cerca do pasto, ao lado direito da casa. Entretanto o inocente animal assim caluniado pelo dono restolhava pacatamente a grama tosada, em companhia de uma porca 
e um bacorinho preto, de tamanho igual ao do outro.
        Afinal atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro, e quebrando o canto desapareceu.
        O Gonalo, a quem no escapara esse manejo, ergueu-se pronto da mesa, e, correndo ao ngulo da casa, observou o campo oculto pela quina da parede.
        O bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe as pegadas, o Chico Tingu estugava o passo.
        Riu-se o Gonalo, e do terreiro disse ao Filipe:
        O patrcio faz favor?

XXII

O trato

        O tal Gonalo era um valento; e tinha-se na conta do mais faanhudo espoleta de toda aquela redondeza.
        No acreditava, porm, a gente do lugar nas proezas de arromba que blasonava o pbulo, nem tomava ao srio as roncas e bravatas com que andava sempre a azoinar 
aos mais.
        Para dar  sua pea um tom ameaador e ao mesmo tempo disfarar o seno do rosto, engendrara o Gonalo sagazmente o apelido de Suuarana, que a todo instante 
atirava  barba dos outros, mostrando as pampas da cara.
        Mas  exceo dele, ou de algum scio que lhe filava a pinga, ningum o chamava pelo tal apelido seno pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o 
distinguir de outro Gonalo carafuz, tambm morador no lugar.
        No aturava, porm, o valento esse desaforo; e disparatava com quem o tratasse pela alcunha. Para no se meter em rixas, evitava a gente de o chamar daquele 
modo na presena, ainda que muitas vezes pelo costume l escapava a palavra; mas o Gonalo fingia no ouvir. Tambm, segundo contavam, j por vezes lhe tinham chimpado 
com o Pinta de propsito e mesmo na bochecha, sem que ele respingasse.
        Todavia o que mais amofinava o Gonalo era a fama de Jo Fera, de quem invejava no s a fora e valentia, como o apelido, que lhe granjeara sua malvadeza, 
o terror que inspirava aquele nome, e at as mortes de que acusavam o outro, eram para ele faanhas de estrondo.
        Chegava o zelo do valento a ponto de consumir-se quando ouvia mencionar o Bugre como o maior criminoso de toda a provncia de So Paulo. Muitas vezes em 
seu despeito encavacou seriamente; e andava pelas vendas e ranchos com a canseira de provar que ele, Gonalo Suuarana, merecia cem vezes mais a forca do que Jo; 
pois as perversidades cometidas por este eram travessuras de criana comparadas com os seus espalhafatos.
        O subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei o substitura. Deixava bem descansado de seu o Gonalo Pinta, que assim podia a salvo 
gabar-se de ser um fama sem segundo na arte de matar gente.
        Todavia enquanto vivesse Jo Fera, sabia o valento que o nome deste havia sempre de ser o mais falado e temido de toda aquela redondeza, e por isso o tinha 
em grande ojeriza, apesar do servio, que lhe prestara o Bugre, havia anos, livrando-o de um recruta que o levava preso.
        J ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como no se atrevesse a atac-lo de frente, espreitava ocasio de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito 
rondava disfaradamente pela venda do Chico Tingu, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido.
        Tais eram as disposies do Gonalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em particular:
        - O patrcio quer mesmo pilhar o Jo Fera? perguntou ele.
        - Mas decerto, homem!
        - E no sabe onde ele se encafua?
        - Que esperana! Pois ainda estava aqui?
        - E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?
        - Abra o preo, amigo.
        - Duzentos bicos?
        - Topado.
        - Mas h de ser com um ajuste...
        - Diga l.
        - Isto fica entre ns dois s. Negcio de muitos no serve.
        -  assim mesmo.
        - Pois ento moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o Tingu  ressabiado, hein! V andando por a afora. Passando este morro, 
atrs do outro, h um rancho. Eu j me boto pra l.  s enquanto avio aqui outro negocinho.
        Este curto dilogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde havia um grosso toco de rvore, denegrido pelo fogo da coivara que ali passara outrora. 
Ainda quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos interlocutores, ali a dois passos dele, o vulto decrpito de um negro, arrimado 
a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escoro de uma sapopema.
        Seguiu Filipe o aviso de Gonalo, e, pagando a despesa  Nhanica, mulher do Tingu, que fazia no balco as vezes do marido na ausncia dele, ps-se a caminho 
com os companheiros.
        Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope. Era o Barroso que descambando o outeiro, na rpida guinilha do castanho, veio 
parar  porta da venda.
        - J est por c? perguntou o Gonalo que o esperava no terreiro.
        - Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, j teve tempo de gralar! tornou o Gonalo rindo-se da sua pilhria.
        - Pois bom proveito lhe faa a roa!
        Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso  vendeira:
        - Qued este homem?
        - Ele no est, nhor, no!
        - Onde foi?
        - Na vila, nhor, sim.
        - Quando volta?
        - Volta logo.
        - O diabo o leve e mais quem o ature.
        Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tingu que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, no o dizia ele; mas despicava-se 
em ferrar o dente no pobre do vendeiro.
        - Que lhe fez c o homem? inquiriu Gonalo.
        -  um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jo Bugre.
        - O patro tambm tem negcio com esse danado? disse Gonalo.
        - Pois o negcio era com ele; mas o patife no ata nem desata; e j a coisa me cheira a caoada.
        - Que quer? O senhor foi se meter com ele: no tinha que ver!
        - Ento no  o que dizem?
        - Qual! Gabolice tudo! No deixava de ser valente. L isso  verdade. Mas onde v, j o encostei, e s com este brao. No  debalde que me chamam de suuarana!
        - Com tanto que me avie o diabo depressa.
        - No custa.  s falar; o mais fica por minha conta. Eu c no sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste no est feito, que eu j ando com a obra em meio.
        - Pois vamos acabar com isto de uma vez.
        Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direo que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troa.
        Neste momento o casco da cabea do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbnculos, se alongaram 
pelo caminho alm.
        - Eh! Branco mesmo!... resmungou uma voz trpega.

XXIII

Nh Tudinha

        Era pela volta das oito horas.
        Nh Tudinha entrava e saa, andando de um lado para outro, na labutao do costume. No por necessidade, que s por gnio vivia ela nessa contnua lida caseira 
desde que amanhecia at o escurecer.
        Tinha essa mulherzinha baixa e rolha tal prurido da pele que no podia estar um momento sossegada. Por fora que se havia de ocupar alguma coisa; e para 
que lhe rendesse a tarefa, muitas vezes desfazia o que j estava pronto, a fim de Ter o gosto de arranjar de novo.
        Nunca sentia-se to feliz e contente como nos dias em que a apoquentavam de trabalho. Correr daqui para ali, revolver os cantos da casa, abrir e fechar portas, 
acudir da varanda  cozinha, e dar vazo a tudo; nisso consistia o seu maior prazer nesse mundo.
        Quem a visse naquela dobadoura da manh  noite, ficaria admirado de seu ar lpido e agudo; pois decerto no se podia esperar semelhante volubilidade naquele 
corpo rechonchudo, com suas perninhas curtas e socadas.
        Achava-se ento nh Tudinha em uma de suas boas vezes. O So Joo estava  porta; e ela, que tinha, e com muita razo, o seu garbo de doceira afamada, por 
costume antigo se pusera na obrigao de mandar em dias de festa os mimos feitos por suas mos, no que estava o chiste, s pessoas de amizade, cujo rol comeava 
necessariamente pelo compadre Lus Galvo, padrinho de Miguel.
        Por isso j de vspera andava ela s voltas com o alguidar e o forno.
        Sentada na varanda sobre uma esteira e rodeada de todos os petrechos, estava mui atarefada e, anaar ovos e amassar fub mimoso para fazer as broas saborosas 
e os bolos de milho que ningum preparava como ela.
        Ajudava-a neste mister a Fausta, preta de meia-idade. Eram, essa escrava e a casinha, os restos da abastana de que outrora gozara em vida de seu finado 
marido, Eugnio de Figueiredo, companheiro e amigo de Lus Galvo. Ms colheitas e juros enormes, tinham consumido os modestos haveres.
        Quando estava nh Tudinha mais embebida em fazer um passarinho de biscoito, de repente lho arrebataram sutilmente da mo, e uma voz brejeira que arremedava 
tanto quanto podia abocanhar de um cozinho, gritou:
        Nhau!...
        Voltou-se a rechonchuda mulherzinha debulhando-se em uma risada gostosa, porque adivinhava o autor da travessura, que no era outra seno a ardilosa da Berta, 
em quem ela achava uma graa imensa, No fazia a menina um trejeito, nem dizia uma faccia, que a viva no se desfizesse em gargalhadas. Era a efuso de sua ternura 
pela pequena. O corao de nh Tudinha s tinha para exprimir o amor dois vocbulos, o riso, ou ento o choro nos dias de tristeza e luto.
        - Ai, menina!... Qui!... qui!... qui!... J se viu, que ladroninha?
        - Uh! pumbu!... dizia entretanto a Berta, beijando o biquinho da rola de biscoito; e acrescentou voltando-se para a viva. Quer ver como voa?
        Comeou ento a traquinas a fazer voar o biscoito, no meio das cachinadas de nh Tudinha, que de tanto se estorcer, afinal arrebentou o cs da saia.
        Cansada Berta, ou antes aborrecida daquele brinco infantil, e curado o frouxo riso da viva, levantou-se esta para o almoo, que j estava posto  mesa, 
e frio de esperar.
        - Que mezinha m! tornou Berta com faceirice. Fez tantos biscoitos e no me guardou um s!
        - Pois ento! No me deixaram sozinha? Cuidei que no voltavam mais hoje. E o almoo esfriando!
        - Bem bom! No queima a gente!
        - E o outro?... perguntou a rir a viva. Por onde anda?
        - Quem sabe se perdeu-se?... Coitadinho do Miguel!...
        - Ai, que j no posso! Qui, qui, qui!... Mas voc, aposto que foi ver a Zana!
        - Que tem?
        - Eu fico mesmo to assustada quando Inh vai para aquelas bandas! No  graa, no!
        - Por que?... Tem medo que o tutu me pape? Ele que se meta em bulir comigo e ver! Olhe, mezinha, eu agarro-o pelas orelhas, assim; e meto-lhe um cipozinho, 
zs, zs, zs, que ele vai por a gritando, ui, ui, ui!...
        Nova gargalhada de nh Tudinha, que j sentada no banco junto  mesa foi obrigada a erguer-se para apertar as ilhargas temendo estalassem com as embigadas 
que lhe fazia dar o frouxo riso.
        A esse tempo chegara Berta  porta e chamou o Brs, que se deixara ficar no meio do quintal, a alguns passos da casa, com os olhos fitos no lugar onde sumira 
a menina a quem ele acompanhava.
        Depois que Berta com seu desvelo e afago dissipou os violentos paroxismos da convulso em que se estorcia o rapaz, e foi-se a crise acalmando, procurou ela 
adormec-lo, cerrando-lhe docemente as plpebras.
        Da posio em que estava junto  tapera da Zana, descobria-se uma volta da senda tortuosa que enredava-se pelas faldas ensombradas de um serrote. Desde algum 
tempo seus olhos voltavam-se a espaos naquela direo, e agora, amide, com certa impacincia.
        Vendo o rapaz quase adormecido, repousou-lhe a cabea em uma leiva de grama, e adiantou-se pelo trilho alm, parando s vezes, para depois continuar.
        Havia andado j grande extenso, quando reparou que fazia-se tarde; e malograda sua esperana retrocedeu ao lugar onde tinha deixado o Brs. Este porm j 
ali no estava; apenas se afastara a menina, que ele abrira os olhos, e agachado, lhe seguira sorrateiramente e de longe os passos.
        Quando viu o rumo que ela tomava, um movimento de ira escapou ao monstrengo, que atirou ao vento os murros das punhadas convulsas, arquejando de raiva. Rastejou 
ento como um rptil, por meio da relvagem, e sumiu-se nas entranhas da terra.
        Metera-se ele em uma espcie de fojo que tinha recentemente praticado em um barranco atufado de junas, e a cuja borda passava o trilho. A cavava o cho, 
com as unhas aduncas, e como tomado de um frenesi; at que percebeu, por uma repercusso da cova, o passo de Berta que voltava.
        Vendo-o com as mos cheias de terra, e a roupa suja de arrastar-se pelo cho, a menina o ralhou brandamente e conduziu-o  casa onde acabava de chegar.
        - Venha almoar! disse Berta da porta.
        - No quero!
        Esta resposta do menino, deu-a ele com sua fala particular, que era uma rouca exploso da voz, despedida em speras e bruscas articulaes, como o rugido 
de um animal, ou a blaterao de um surdo-mudo.
        A quem no estivesse muito habituado com essa pronncia desabrida e selvagem, seria impossvel discernir de pronto os vocbulos, pela velocidade com que 
eram arremessadas as slabas incisas e truncadas.
        Aproximara-se nh Tudinha com a curiosidade de ver a quem Berta falava, e como reconhecesse o menino, escapou-lhe um gesto de visvel repugnncia. Mas um 
olhar da menina bastou para apagar essa repulsa, e convert-la em agasalho.
        - Ande, Brs! disse a viva com afabilidade. Tome uma coisa que lhe guardei.
        Desta vez nem se deu o rapaz ao trabalho de responder com a voz. Fez uma careta m a nh Tudinha e voltou-lhe as costas.
        - Brs!...
        Nesse monosslabo proferido por Berta, com sua voz sempre doce e melodiosa, percebia-se uma vibrao ntima que destoava no meio daquela harmonia. Era como 
o brandimento da corda que estalava, ou como o spero triscar do diamante no vidro.
        Voltou-se Brs e veio dcil e humilde, acompanhando a indicao do gesto de Berta, colocar-se em frente dela, que, depois de lavar-lhe as mos e cortar-lhe 
as unhas, o sentou a seu lado no banco da mesa. A tomou um prato, que lhe serviu ela, e comeu com uns modos comedidos, embora um tanto hirtos, que ia copiando da 
moa. Ningum diria que fosse este o mesmo lambaz, que na mesa de Galvo metia o queixo na xcara, deixava na toalha uma roda de sobejos, e lambuzava a cara de sopa 
e manteiga.
        Foi rpido o almoo.
        Nh Tudinha no tirava o sentido do forno onde assava um bolo de mandioca puba; alm de que de prova em prova j petiscara seus biscoitos bons. Berta, essa 
comia como um passarinho, aos beliscos. Antes de sair de casa pela alvorada, tomara caf, e de caminho trincara as roscas de goma que levava para Zana.
        O Brs tambm no tinha fome. O constrangimento, em que o punha a presena da menina e a sua fascinao, deviam de embotar-lhe o apetite insacivel, com 
que de ordinrio devorava quanto lhe deixassem.

XXIV

A lio

        quela hora da manh, projetava a casa larga sombra para o oito voltado ao poente.
        Nessa fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de estacas de cambus j enramadas, acomodou-se Berta para passar a sesta, que se aproximava. Da 
avistava-se por uma ogiva rendada que abria a folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba, adormecido no regao da campina.
        Sentara-se a menina em um pedao de alto prancho, que a tinham colocado para servir de banco; e suas mos sutis e ligeiras tomavam o ponto s meias, ou 
serziam e remendavam a outra roupa lavada, que precisava de conserto e enchia o balaio posto a seu lado na ponta do tabuo.
        Adiantando a sua tarefa diria, que pelo hbito j os dedos geis faziam s cegas e com uma presteza admirvel, escutava com ateno ao Brs, ajoelhado ao 
outro lado do balaio, na esteira de tbua, que servia de tapete, ou antes de tabuleiro para a roupa j consertada, a fim de no misturar-se com a outra da cesta.
        Com as mos postas, e um modo srio, repetia o rapaz de cor a Salve-Rainha, sem titubear. Dir-se-ia que estava lendo no formoso semblante de Berta por mgica 
influio aquelas palavras ignotas, tal era a fixidez da pupila e a absoro de sua alma no hausto desse olhar.
        Era sem dvida a primeira vez que o Brs dizia certa a orao, pois no gesto da menina, onde vislumbrara uma vaga inquietao, derramou-se grande contentamento 
pelo triunfo obtido sobre a fatalidade que encadeava aquele esprito bronco.
        - Assim, Brs! disse a gentil mestra desfolhando-se, como uma bonina, em ledos sorrisos.
        - Til contente? perguntou timidamente o rapaz, com certa brandura de voz, que desvanecia o tom brusco e explosivo.
        - Muito!...
        E a menina cingiu com o brao esquerdo a cabea do rapaz e a estreitou ao seio com efuso. O sentimento de bem- aventurana que difundiu-se pela fisionomia 
do idiota; o xtase de felicidade, no qual se embeberam suas feies, sempre transtornadas pela imbecilidade, e agora consertadas por um plcido sopitamento; essa 
elao ao toque da meiga carcia, no h traos para esboar.
        A transio sbita de um informe toro em esttua acabada, somente pode dar uma idia da transfigurao, que um supremo gozo havia operado nessa infeliz criatura, 
cujo vulto descomposto e mal-amanhado negava muitas vezes a forma humana.
        Esteve Berta a espiar-lhe por entre os revoltos cabelos essa expresso inefvel de rosto que ela conservava unido ao seio; e de seus olhos um tanto amortecidos 
e brandos naquele instante, manava uma ternura santa e imensa, na qual ressumbravam extremos da maternidade.
        - Agora a Ave-Maria! disse Berta afastando a cabea do rapaz, e tornando  anterior posio.
        Arrancando ao enlevo, como um galho decepado que rola ao cho, ou como a lasca do penedo que se alteava no pncaro do alcantil e vai sumir-se no abismo, 
sentiu o idiota romper-se-lhe o corao e estalar com dores cruas e dilacerantes. Era a alma arremessada do cu ao bratro.
        Foi muda porm essa angstia, que afundou-se pelo ntimo, nos recessos insondveis dessa conscincia vedada ao mundo; e no reumou um ai dos lbios nem 
lentejou uma lgrima as plpebras. Os bolhes, que por ventura levantou l nos mais escusos refolhos, como a rocha tombando nos pegos e tremedais, s os denunciou 
a crispao pungente das feies.
        Reparando naquele espasmo doloroso, quase arrependeu-se Berta de haver quebrado ao pobre idiota o encanto em que o tinha. Mas o seu carinho, ameigado, no 
embotava contudo as energias dalma da mais fina tmpera, que semelhante a lmina de ao, dobrava-se com a flexibilidade de uma fita de seda, mas tambm, quando 
brandida, cravaria o bronze, sendo preciso, como o budo fio de um estilete adamascado.
        Naquele instante ela era sobretudo mestra; ou mais que mestra, pois no ensinava somente, seno que tirava do caos dessa animalidade confusa e revolta o 
balbuciar de uma razo sopita. Era quase uma criao a obra sublime, a que se dedicava, de plasmar do mostrengo um ser humano.
        - Reze!... insistiu Berta com autoridade.
        Engalfinhou o rapaz outra vez as mos e comeou a recitar com a mesma concentrao de esprito a Ave-Maria, passando sucessivamente s oraes do catecismo. 
Terminava a reza uma teno particular, como se usa em muitas casas, e na qual se implora a proteo divina a favor das pessoas da famlia, dos entes mais queridos.
        Chegado a este ponto estacou Brs.
        - Virgem Purssima... proferiu a voz insinuante de Berta.
        Vendo pintar-se no semblante do idiota as vacilaes da memria prestes a apagar-se, articulava a menina mudamente as palavras que se desenhavam em seus 
lbios mimosas e fagueiras, donde o Brs as recebia como imagens a se refletirem no espelho da alma.
        - Virgem Purssima, Rainha do Cu, Bem-aventurana nossa, Me de Jesus e dos aflitos, intercedei...
        Aqui fez o menino uma reticncia, e fechando um instante os olhos para no ver o rosto gentil da moa que servia de pgina quela splica singela, terminou 
abrupto por um modo teimoso e rebelde:
        - Intercedei por Til, s, s, s, s!... Til muito feliz! Til muito bonita, muito tudo!...
        Ressumbrou aos lbios de Berta um meigo sorriso, que ela escondeu sob um gesto severo:
        - Diga direito!
        - Ele ruim... ela ruim!... Morde nele... nos outros... Bem eu?... tu s!
        - H de querer bem a todos, Brs, que eu mando!
        A expresso de rancor, derramada na feio do rapaz, sublevou-se em assomos de fria selvagem. Parecia que desse bolnio informe e labrusco surgira por estranha 
mutao uma vpera terrvel, que um instante subjugada pela fascinao, silvava de raiva e assanhava-se contra o encanto que a entorpecera.
        Erguera, porm, Berta a mo direita, e com o indicador fez ao rebelde um gesto de ameaa, estendendo a unha rosada quase a crav-la no meio do sobrolho espesso 
do idiota.
        - Diga, seno...
        O confrangimento de uma vasca estampou-se na figura do infeliz; mas apesar, os dentes rangiam-lhe de clera.
        - No sou mais Til! disse a menina lentamente.
        Caiu-lhe ento aos ps, outra vez humilde e cativo, rojando como um verme, o msero idiota, de cujo corpo rompia em arquejos e contores o pranto, que no 
sabia exprimir como os homens em lgrimas e lamentos.
        Acalentou-o Berta, amimando-lhe as faces, e depois que o viu calmo, trouxe-o de novo  reza e o fez recitar a prece interrompida.
        - Virgem Purssima, Rainha do Cu, Bem-aventurana nossa, Me de Jesus e dos aflitos, intercedei por meu tio, minha tia e meus primos; por mim, por Berta 
e aqueles a quem ela quer bem, e fazei-nos a todos felizes.
        - Vamos  lio! Disse Berta.
        Repetiu ento o Brs de cor o abecedrio e uma parte da carta de slabas e nomes.

XXV

O idiota

      Tirando do balaio uma varinha de peroba em forma de flecha, que lhe servia para esticar o pano, quando tomava o ponto s meias ou cerzia a mais roupa, Berta 
comeou a traar no cho as letras do alfabeto.
         proporo que Brs  acertava com o nome de cada letra, a ia apagando a mestra gentil com a ponta do p bulioso e faceiro, para escrever outra e outra 
at o fim do abecedrio, como se costuma nas escolas sobre a ardsia.
        O grande esforo, que faz o idiota para decifrar as letras e slabas, ressalta-lhe do rosto contrado. As feies de ordinrio balordas e flcidas, como 
abandonadas  sua materialidade pela ausncia do esprito, as confrange neste momento a tenso violenta do bestunto porfiando romper a rija crosta que o empederniu.
        Assim pasmam-se, em uma fixidez espantosa, as pupilas vagas e amortecidas; a belfa cada sempre como a mandbula de um animal, a arreganhar a boca, dava-lhe 
uma expresso lorpa; mas agora comprime fortemente o lbio superior, e a ponto que rangem-lhe os dentes e nas ventas sibila o sopro da respirao ofegante.
        s vezes parecia que, extenuado por esse af, o bronco entendimento do rapaz ia desfalecer e sucumbir; pois perpassava-lhe no semblante uma nsia repentina 
e seus olhos apagavam-se, como se a enorme cabea vacilasse.
        Nesses momentos de obliterao, porm, o doce olhar de Berta sustinha aquele esprito titubeante prestes a submergir-se nas trevas. Entrelaando o rude labor 
da lio com sorrisos e meiguices, que orvalhavam a alma enferma do msero idiota, a carinhosa mestra no s incutia-lhe o nimo de perseverar no insano esforo, 
como iluminava com um vislumbre de sua alma a densa caligem daquele crebro grantico.
        - Esta letra, Brs!... No se lembra?... Olhe para mim, olhe bem! O que estou fazendo?...
        - Rindo!
        - Ento que letra ?
        - Erre?... dizia o rapaz depois de lenta cogitao.
        - Isso mesmo.
        Outras vezes, para dirigir o entendimento de Brs e despertar-lhe a embotada reminiscncia, contava Berta uma histria, imitava o canto de um pssaro, ou 
inventava um brinquedo que suscitasse a noo esquecida.
        Embora j tivesse Brs percorrido quase toda a carta de leitura, de sbito, e no obstante esse adiantamento, faziam-se em seu entendimento profundos eclipses. 
Dir-se-ia que apagava-se de todo o morno lampejo da inteligncia bruta, e que esse crnio vazado em molde humano descia abaixo de uma caveira suna.
        Por isso Berta o obrigava a repetir constantemente tudo quanto j havia aprendido, no intuito de,  fora de hbito, por uma espcie de atrito contnuo, 
gravar-lhe profundamente no boal engenho os rudimentos que tinha ensinado com admirvel pacincia. S de tal sorte conseguira ela inserir nessa bruta animalidade 
algumas idias, que ali permaneciam como inscries lapidrias abertas em lousa.
        Era Brs filho de uma irm de Lus Galvo, a qual falecera trs anos antes, ralada pelos desgostos que lhe dera o marido, e pelo suplcio incessante de ver 
reduzido ao lastimoso estado de um sandeu o nico fruto de suas entranhas.
        Quando morreu, j era de muito viva a infeliz senhora; e, pois, com a sua perda, ficou Brs sem outro arrimo, a no ser por Lus Galvo, seu tio e  mais 
prximo parente, que o trouxe imediatamente para casa e desvelou-se como pode, pela sorte da msera criana.
        Compreende-se quanto devia custar a D. Ermelinda, ciosa em extremo da morigerao de seus filhos, o receber no ntimo seio da famlia um menino at certo 
ponto estranho, e no s baldo de toda a educao, como incapaz de receb-la. Mas compenetrara-se a digna senhora que seu marido, recolhendo o sobrinho rfo e servindo-lhe 
de pai, cumpria um rigoroso dever; e tanto bastou para que no suscitasse a menor objeo. Resignada ao mal inevitvel, socalcou sua repugnncia.
        Somente exigiu de Lus Galvo, e isso o fez com autoridade de me, que, recebido Brs e tratado como filho da casa, se evitasse contudo seu ntimo contato 
com Afonso e Linda, conservando-os, quanto possvel, alheios  existncia do primo, e impedindo o menor trato e convivncia com ele.
        Consentia D. Ermelinda em ser-lhe me e cerc-lo de toda a solicitude, apesar da natural repulso que deviam causar  sua ndole to delicada os modos brutais 
e parvos do idiota. No lhe sofria porm o corao que seus filhos vissem nesse menino mal-amanhado e grosseiro um camarada e um parente, quanto mais um irmo.
        Apesar de convencido da inutilidade de seus esforos, no os poupava Lus Galvo para reparar a desgraa do sobrinho ou pelo menos atenu-la. Havia em Santa 
Brbara uma aula pblica de primeiras letras, a qual ainda o vulgo pelo costume antigo tratava de escola rgia. Servia de mestre um latago de verbo alto e punho 
rijo, que fora outrora ferrador e a quem chamavam de Domingo.
        Fiel s tradies da antiga profisso, entendia ele l de si para si que um bom processo de ferrar bestas devia ser por fora excelente mtodo de ensinar 
a leitura e a tabuada: e fossem tir-lo dessa idia! Assim encaixava o abec na cachola do menino com a mesma limpeza e prontido com que metia um cravo na ferradura. 
Era negcio de dois gritos, um safano e trs marteladas.
        Tal era o professor, a quem foi incumbida a tarefa de ensinar a ler ao Brs. Depois dos trs primeiros dias de indulgncia, ps o ferrador em prtica o seu 
mtodo repentino, que desta vez, com pasmo seu, falhou completamente. Nunca, em sua vida, dizia ele, tinha encontrado um jumento de casco to rijo.
        Debalde o Domingo brandiu a pesada palmatria de guarant, e ferrou uma chuva de formidveis carolos na cabea do Brs; no conseguiu dele em um ms que 
repetisse o nome das trs primeiras letras. Quando lhe puseram nas mos a carta pregada em uma tbua, o menino percorreu todos aqueles hierglifos com olhos pasmos 
e botos, e s deu sinal de ateno, em descobrindo o til.
        Ento expandiu-se-lhe o estpido semblante com um riso alvar, que estertorou na gorja, e, tomado por sbita alacridade, ele, de ordinrio soturno e pesado, 
comeou a fazer trejeitos e gatimonhas ao pequeno sinal ortogrfico, procurando imit-lo a uma com os dedos, com a boca, e at com todo o corpo nos saltos extravagantes 
que dava pela casa.
        Toda a escola disparou a rir; e o mestre no primeiro momento no se pode conter; mas logo refazendo a carranca magistral, ps cobro ao escndalo.
        Sem embargo, repetiu-se ele ao outro dia, e em todos que se lhe seguiram. Em apresentando-se a carta ao marmanjo, era a mesma indiferena para tudo, e a 
mesma festa grotesca ao til.
        Com as mos dodas das palmatoadas e a cabea empolada dos coques de rgua, fugia o pobre do Brs para o mato, onde ia descobri-lo o pajem, que diariamente 
o acompanhava pela manh da fazenda  escola e vinha busc-lo por volta de uma hora da tarde.

XXVI

O abec

        Em uma das escapulas que fez o Brs da escola, sucedeu encontr-lo Berta, acocorado, a soprar as palmas inchadas e rosnando contra o Domingo, a quem ameaava 
de longe com murros ao vento.
        Consolou-o ela e o levou consigo at a casa para deitar-lhe panos de aguardente nas mos e distra-lo da exasperao em que o via.
        De todas as pessoas que Brs encontrara nas Palmas, fora Berta a nica de quem no o afastara o seu natural bravio, nem a averso instintiva que lhe inspirava 
toda criatura humana com quem se achasse em contato. A gratido, que logo mostrara pelo modo compassivo e meigo da menina, redobrou com aquele incidente.
        Quis Berta, para livrar o pobre rapaz dos bolos e repeles do mestre, ensinar-lhe todas as manhs a lio; e nesse desgnio preparou-lhe uma carta. Continuaram 
as cenas da escola; e repetiram-se as visagens e gaifonas  vista do til; porm desta vez em maior escala, pela liberdade em que estava o parvalho do rapaz. No 
seu af de imitar o sinal, que tanto lhe dera no goto, virava cambalhotas e corcoveava pela grama.
        Trabalhava a enjeitadinha com toda a meiguice para aplicar s letras o boto engenho daquele rfo, ainda mais que ela desamparado da fortuna. Vo esforo, 
em que, no obstante, porfiava com uma perseverana incrvel naqueles tenros anos e em to humilde condio.
        De seu lado tambm no descorooava o Domingo de meter o abec nos cascos do Brs, ainda que para isso fosse necessrio abri-los de meio a meio:
        - Burro! gritava ele com uma voz de trompa, esgrimindo a frula. Ou te racho o quengo com este bodoque, ou pes em achas o guarant!...
        Afinal teve Berta uma inspirao. Desenganada de obter que o menino pronunciasse ao menos o a, deixou-o lanar-se aos costumados esgares e gambitos. Observando 
ento o pobre sandeu com um d profundo, pensava ela que Deus, em sua infinita misericrdia, concedia a essa alma to atribulada e sempre confrangida por terrvel 
angstia, um breve instante de alegria.
        Nisso o Brs pulando como um boneco de engono, passava a ponta do dedo mui de leve pelas sobrancelhas negras de Berta, por seus lbios finos, pela conchinha 
mimosa da orelha; e, apontando alternadamente para o til na carta do abec, repinicava as risadas e os corcovos.
        Iluminou-se de sbito o corao de Berta. A impresso estranhas que no idiota produzira aquele insignificante objeto, e cuja causa escapava  sua compreenso, 
no era a trepidao de um raio, tnue embora, de inteligncia, que filtrava daquele crebro denso como o frouxo bruxuleio de uma estrela atravs do nevoeiro?
        A camada profunda que soterrava o esprito do Brs, tinha um interstcio por onde coava-se alguma chispa, que rareava as trevas carregadas dessa noite sem 
manh. E por singular coincidncia o primeiro balbucio da inteligncia bta se dirigia a ela, como o primeiro vagido da criancinha no bero chama pela me.
        Ningum sabe o que passou ento no ntimo de Berta, que tinha suas venetas, e de quem se referiam casos que a gente velha do lugar, e especialmente as pretas 
da fazenda, atribuam a uma influncia misteriosa e sobrenatural.
        Associando-se a lembrana original do idiota, disse-lhe a menina, ajudando a palavra com mmica expressiva e apontando para a carta.
        - Eu sou til!
        Esteve Brs um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender, apesar da nsia com que afinal bateu palmas de contente e deitou a pular, regougando a sua 
parva risada.
        - Eh!... eh!... eh!... Berta, umh!... Berta, umh!...
        Da em diante aquele sinal, que para o idiota era smbolo de graa, da gentileza e do prazer, tornou-se a imagem de Berta, e no se cansava Brs de o repetir, 
no por palavras, mas por acenos com os meneios mais extravagantes.
        Dias depois, chamando-a ele pelo nome, a menina respondeu-lhe:
        - No me chamo mais Berta; meu nome agora  Til.
        - Hanh!... fez o idiota com essa interjeio ou bocejo, que na sua bruta linguagem exprimia uma interrogao embasbacada.
        - Til!... tornou Berta com a pronncia clara e vibrante.
        Forcejou o infeliz para articular o monosslabo; mas s a custo, e ajudado por Berta, o conseguiu. Causou-lhe isso to intenso prazer, que a todo o instante 
proferia o nome, e amiudando-o trinava com ele, a modo dos pssaros quando em seu crebro gorjeio repicam a mesma nota.
        Assim identificava com a carta pela estranha afinidade que inventara a estultice do menino, Berta recobrou a esperana que j a ia abandonando.
        Um dia, Brs com violento esforo e aps funda concentrao, arrancou dos beios grossos e flcidos estas palavras truncadas:
        - Brs... bem Til... muito... muito!...
        Sorriu-se Berta, e agradeceu-lhe com um carinho.
        - E Til?... interrogou o idiota com ar ansiado.
        - Til quer bem...
        Com um repente, mostrou-lhe Berta a carta, pondo o dedo sobre o a .
        - A este!...
        - Pela primeira vez reparou o rapaz na forma da letra, que se lhe gravou na memria.
        - Hanh?... tartamudeou ele ofegante.
        - Afonso!
        Arreganhou-se a estlida cara do idiota na terrvel catadura de um sabujo de furor. Arrebatando o abecedrio da mo de Berta, despedaou-o para arrancar 
o a, que trincou nos dentes com sanha.
         princpio atemorizou-se a menina; mas logo, revoltando semelhante fraqueza as energias de sua alma, tranqilamente e com ar de indiferena observou aquela 
clera brutal, que atingiu a maior exasperao.
        Como se esperasse justamente esse momento culminante do acesso, chamou Berta o idiota para junto de si com um aceno; e bastou-lhe pousar a mozinha afilada 
sobre o ombro para aplacar-lhe a exacerbao.
        - Til gosta deste!
        Estas palavras, disse-as a menina mostrando com a unha rosada o b e repassando-as de uma voz to doce, que derramou na alma ulcerada do msero um ignoto 
consolo. Voltou ele para Berta os olhos baos, que iluminaram-se com um reflexo vtreo.
        Compreendeu Berta a muda interrogao, e a satisfez.
        -  Brs!
        - Til?... balbuciou a voz trpega, enquanto o dedo convulso apontava a letra.
        - Sim! disse Berta.
        Caiu Brs em um novo acesso, porm este de alegria, que chegava ao delrio. Atirando-se ao cho, estrebuchou de prazer, soltando gritos descompassados e 
risos sibilantes, que mais pareciam guinchos de um animal bravio.
        Assim em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam. Pondo 
em jogo as broncas paixes do idiota, e colhendo os rudes germes de idia que se formavam em seu bestunto, obteve ela afinal transformar a carta do abec em uma 
famlia, em um mundo, para a existncia enfezada dessa msera criatura.
        Ao cabo de um ms, conhecia Brs todo o abecedrio. Que inauditos esforos de pacincia, que sublimes intuies no foram necessrias para vencer esse impossvel!
        S Berta o poderia conseguir. A fascinao que exercia sobre o idiota era uma sorte de encanto e magia. Sua vontade movia aquele corpo, como se fosse o esprito 
que o animava. Brs sentia e pensava unicamente pela alma dela, que lhe transmitia as impresses no olhar carinhoso, na voz suave, no sorriso fagueiro.
        Dir-se-ia que se tinha operado a misteriosa transfuso dalma do anjo na grosseira bestialidade do mostrengo. Quando nos acessos epilpticos, estrebuchando 
o infeliz em medonhas contores, no bastavam as foras de trs homens possantes para sopear os mpetos formidveis, nem as mais enrgicas aplicaes para superar 
a crise violenta, o simples toque dos dedos de Berta ou sua fala maviosa, subjugava aquele furor e aplacava logo a horrvel convulso.

XXVII

A cotia

        Percebendo que a fadiga abatia as foras de Brs, suspendeu Berta a lio.
        Descanse agora!
        Ajoelhado como estava, deixou-se Brs cair sentado sobre os calcanhares; de corpo bambo, os braos pendurados, e o queixo cado, quedou-se o estafermo em 
pasmatrio, com os olhos dormidos no gentil semblante de Berta.
        Ocupada com sua tarefa, j no lhe dava ateno a menina, cujo pensamento andava agora enleado em outras cismas.
        Nisso apareceu Miguel, que voltava afinal, e, procurando Inh pela casa, veio a sair na porta do oito.
        - Sempre chegou?... disse Berta a rir.
        - No fao falta, respondeu Miguel com um motejo tristonho.
        - Mec est hoje to macambzio, nh Miguel! replicou a menina galhofando com a inteno de desanuviar o semblante do moo.
        - Nem sempre faz bom tempo! s vezes amanhece a gente com uma cara, que mete medo aos outros, e os obriga a se esconderem! No  assim?
        Com a aluso de Miguel atalhou-se Inh, enrubescendo de leve, pois logo acudiu-lhe a sua graciosa petulncia:
        - Ora que caador!... exclamou a rir. No deu com a pista!...
        - No quis, e para no agoni-la.
        - A mim?
        - Cuida ento que eu no percebi desde muito tempo? Quando voc vai ver a Zana, no gosta que ningum a acompanhe!
        - Ah! descobriu isso? Est muito adiantado! Berta com um modo agastado e concentrando-se em sua tarefa.
        - Zangou-se?
        - Eu no ando espiando o que os outros fazem!
        - No faa caso do que eu disse, Inh! Desculpe!... tornou Miguel enleado e aflito.
        Berta, de todo absorta no conserto da roupa, parecia ter esquecido a presena do colao, o qual a contemplava com um enlevo apaixonado, que rompia dentre 
a expresso abatida de sua figura. Pesaroso por ter ofendido a menina e acanhado com a presena dela, queria falar, e no achava a palavra para desvanecer o enfado, 
que havia causado.
        Brs, que desde a chegada de Miguel se agachara sobre as patas como um co de fila, rosnava surdamente, saltando com o olhar do semblante de Berta ao vulto 
de Miguel, como se esperasse um gesto da senhora para filar a presa e abocanh-la.
        Os agastamentos de Berta eram cleras do colibri, que to depressa belisca e arrufa-se, como cintila aos raios do sol, feito um rubi celeste.
        A cabea inclinada sobre a costura ocultava-lhe o rosto que Miguel supunha fechado ainda pela zanga, quando j dos cantinhos da boca lhe estava borbulhando 
um sorriso zombeteiro que lhe salpicava as faces de petulante malcia.
        Relanceando uma olhadelha de soslaio, percebeu o pesar de Miguel e arrependeu-se de se haver agastado com ele; mas conteve-se para fazer-lhe pirraa e gozar 
por algum tempo ainda do enleio do moo.
        Desde alguns instantes ouviam-se uns guinchozinhos, como de pre, mas abafados; e apesar da curiosidade de saber donde partiam, a menina no levantava a 
cabea.
        - Aqui est o que lhe trouxe, Inh, animou-se a dizer Miguel tristemente.
        Metendo a mo por baixo do pala, tirou uma linda cotia, que tinha as patas amarradas para no fugir.
        Berta apenas erguera um canto da plpebra; mas foi o bastante. De relance pulou junto de Miguel, arrebatou-lhe a cotia, e conchegando-a ao seio, comeou 
a alisar-lhe a pelcia dourada, animando-a com os dengosos requebros e a garrulice carinhosa em que se expande a inexaurvel sensibilidade da mulher por tudo que 
 frgil, mimoso e delicado como ela.
        Passado o primeiro afago, a travessa repartiu com Miguel as meiguices, no s por gratido do mimo que lhe dera, como para mostrar que j mo conservava 
a menor queixa dele.
        - Coitadinha! exclamou ao ver que o animal estava com as patas ligadas por uma fita de craut.
        - Olhe que foge! disse Miguel impedindo a menina de desdar o lao.
        - Ento voc h de fazer uma casinha para ela! To bonitinha! Que pelo macio; parece um veludo. E os olhos? To lindos! Eu conheo uns olhos ternos assim! 
No se lembra?
        - Se me lembro! atalhou Miguel com um tremor na voz. Pois no os estou vendo?
        Com sua volubilidade natural, j estava Berta longe da pergunta que fizera, e, toda embebida de novo com a cotia, sentara-se para agasalh-la ao colo.
        - Onde apanhou?
        Teve Miguel de referir ento a longa histria de como fora o animal apanhando, os incidentes que tinham acompanhado a caada, e muitas particularidades que 
Inh desejava saber; se a linda cotia ainda tinha me; se j era casada, e deixara no mato algum filhinho; pois nesse caso queria solt-la.
        Tranqilizou-a Miguel, asseverando que a cotia era solteirinha e vivia s, por terem as raposas acabado toda a famlia, no tardando que lhe fizessem o mesmo 
a ela, pelo que era at um benefcio ret-la cativa.
        - Ai, coitadinha! exclamou Berta condoda, e conchegando outra vez o animalzinho ao seio. Veja l, Miguel, voc h de fazer a casinha para ela, com porta 
e janela, e tambm um coche com seu bebedouro. E depressa que  para eu dar a Linda!...
        Ao mesmo tempo voltava Miguel o rosto para esconder a expresso de pesar que o tinha subitamente invadido, um grito de espanto partia dos lbios de Berta.
        Rpida como uma seta, a cotia fuzilou no ar e sumiu-se pelo mato. O Brs de quem os dois se haviam esquecido, se aproximava rojando pelo cho como um rptil, 
e sem que o percebessem, acocorado junto  parede, gorgotava um riso sarcstico e manhoso.
        Precipitou-se Miguel para castigar o idiota, que ele adivinhava ser o autor da pirraa, mas Berta, que lhe viu o mpeto, se interps a tempo.
        - Deixe, Miguel! exclamou ela; e voltando-se para o alarve, atirou-lhe apenas esta palavra:
        - Lesma!
        Como um novilho ferido pelo aguilho, o idiota arremeteu pelo campo e desapareceu.
        - Se voc no fizesse to pouco caso do que eu lhe dei, aquele brutinho no se havia de atrever.
        - Oh! Miguel, pois queria mais?
        - Dando aos outros em vez de guardar para si?
        - Mas era para Linda! atalhou Berta com ingenuidade. Ela havia de ficar to contente, sabendo que vinha de voc!
        Concentrou-se Miguel em um violento esforo, que lhe desmaiou o brilho dos grandes olhos e a cor das faces.
         tempo de acabar com este gracejo, Inh. Alm de minha me, eu lhe juro, que s a voc quero bem; mas voc no se importa comigo; portanto j sei o que 
devo fazer. No hei de aborrec-la mais.


XXVIII

A bolsa

        Naquela manh Jo Fera sara das brenhas, onde se acoitava,  mesma hora em que Berta chegava  tapera para ver Zana.
        Vinha o capanga sombrio e torvo mais que de ordinrio, porm sobretudo absorto em funda cogitao, e to alheio de si, que no se apercebia do lugar por 
onde passava, nem dos objetos que o cercavam.
        Devia ser poderosa a preocupao que assim o demovia da habitual desconfiana, bem como das precaues, indispensveis na sua condio de foragido e reclamadas 
pela perseguio de que era alvo.
        Assim no ouviu ele um rudo subterrneo que ressoou-lhe embaixo dos ps; ou, se ouviu, no fez reparo, atribuindo a algum animal, que estivesse a abrir 
a toca.
        Era o Brs, o qual antes de aproximar-se da tapera, onde encontrara Berta, ali andava cavando com a p, achada no esqueleto de um burro, a terra que tirava 
com as mos e o chapu.
        Havia nesse lugar uma pequena estiva, feita sobre um socavo pelos antigos moradores do stio, para serventia da roa. Com a runa da casa, desapareceram 
as plantaes, e do caminho s restava aquele carreiro e o aterro que a tinham posto.
        Aproveitando-se da configurao do terreno, gizara Brs com instinto perverso aluir as ribanceiras do groto, para que faltando apoio s extremidades da 
estiva, um dia abatesse ela com o peso de Jo Fera, que rolaria pelo barranco abaixo.
        Entretanto prosseguia lentamente Jo Fera seu caminho; seno que ao passar perto da tapera, e como subitamente arrancado aos pensamentos que o tomavam, manifestou 
seu gesto,  vista da casa em runas, uma espcie de terror e espanto, que o fez acelerar o passo e afastar-se quase em fuga.
        Sabia o capanga que quela hora costumava Berta aparecer na tapera onde tantas vezes a tinha encontrado, e era dela que fugia, dela a quem no se animara 
a rever desde a cena da azinhaga no dia da tocaia.
        Quando trs dias antes partira espavorido daquele stio ao ver o relicrio de que Berta lhe oferecera o cordo de ouro, correra por algum tempo sem inconscincia 
de si, mas acossado por uma lembrana que o pungia, como o aguilho da mutuca no lombo do tapir.
        Recobrada a calma, achou-se  borda da estrada, que em sua carreira por dentro do mato ele perlongara sem o sentir. Soava perto um tropel de animais, e Lus 
Galvo apareceu na volta do caminho. Seguido pela batida na orla da estrada, o animal ia passar rente com o capanga, oculto pela cepa de uma gameleira.
        Foi um momento de coliso para Jo Fera. A estava ao alcance do brao,  sua merc de um movimento seu o cumprimento de sua palavra, que ele no podia doutro 
modo libertar. Mas o olhar cintilante de Berta e o gesto de seu desprezo se debuxavam ainda ao pensamento do facnora como um antema.
        Lus Galvo passou inclume; e Jo Fera encaminhou-se  venda do Tingu.
        Esperava-o a o Barroso, que mal avistou-o no terreiro do rancho, logo saiu-lhe ao encontro, impaciente de receber a nova.
        - Arrependi-me! disse-lhe o capanga secamente e com um olhar de chumbo.
        - Hein!... exclamou o outro azoado com a palavra.
        - No se faz nada.
        - Por que?
        Podia o capanga arranjar uma desculpa; mas repugnava-lhe a mentira.
        - No quis! respondeu lacnico.
        - Est galante a embroma! rascou o Barroso com rinchavelho de clera. E vem dizer-me isto com toda a frescura! Mas a culpa tenho eu em fiar-me num tratante 
da sua laia.
        A ltima palavra no a acabou de proferir, que dum revs da mo o capanga o lanou cho, calcando-lhe a alpercata ao peito. Viu ele descer ameaadora a coronha 
do bacamarte e fechou os olhos. O bugre ia esmigalhar-lhe a cabea, como se faz com um rptil.
        - O que te vale  estar eu em dvida contigo. Mas So Joo no tarda; e at esse dia duma ou doutra forma hei de desempenhar minha palavra. Ento ajustaremos 
minha palavra. Ento ajustaremos esta conta.
        Afastando de si o corpo do miservel com a ponta do p, entrou na venda para beber um martelinho de cachaa. Debalde o Chico Tingu quis tirar conversa; 
o taciturno capanga, na introverso dalma, nem se apercebia da presena do amigo.
        Onde e como obter a soma necessria para resgatar sua palavra, ele que s conhecia um meio de ganhar dinheiro, e nunca tivera outra profisso a no ser a 
de matador?
        Sem aquela quantia, como livrar-se do empenho que tomara, seno dando conta da tarefa, e incorrendo portanto no desprezo e averso de Berta, que jamais lhe 
perdoaria?
        Eis a nsia em que se debatia a alma de Jo Fera.
        Aps longa obsesso, ergueu-se impelido por uma idia, que de repente acudira, e sem despedir-se partiu. Sado ao terreiro, no lugar onde h pouco se encontrara 
com Barroso, seus olhos baixos deram com um objeto, que lhe causou reparo. Era uma bolsa de couro, e parecia recheada de moedas.
        - Oh! Chico!
        Acudindo o vendeiro, Jo empurrou com a coronha do bacamarte a bolsa:
        - Guarda isto para entregar quele safado!
         No tinha andado cem braas o capanga, quando ouviu os psius do Tingu a cham-lo. Era o caso que sentindo o Barroso falta da bolsa, voltara por ela, justamente 
quando o vendeiro entrava para guard-la; e, sabendo que a achara o capanga, deixou-lhe uma moeda de alvssaras, talvez com a esperana de aplac-lo. Para entregar 
essa gorjeta correra o Chico ao alcance de Jo.
        - Toma para ti. Eu no aceito dinheiro de semelhante peste.
        E sem mais foi-se.
        Pouco alm, ganhando um atalho para desviar-se da estrada, lobrigou ao longe um vulto entre a folhagem.
        Era um mascate, dos muitos que percorrem a p os circuitos das cidades do interior, onde se demoram semanas a vender pelas fazendas e arraiais.
        Descansavam,  sombra de uma rvore, da excurso que j tinha feito naquela manh, e da qual lhe surtira bom lucro, pois estava ele entretido em contar os 
midos, que tirava da algibeira da borjaca. Colocando-os, uns sobre outros, formava os maos de dez, aos quais ia acomodando em uma grande carteira de marroquim 
azul, aberta diante dele sobre a grama e j bem fornida de notas.
        Ao lado, estava a maleta de jias e miudezas, que ele costumava trazer s costas, presa por uma correia, e um grosso bordo ferrado, que servia ao seu brao 
musculoso no s de arrimo  fadiga, mas de arma formidvel para a defesa.
        Muito embebido estava o italiano em seus clculos, pois no percebera a aproximao de Jo Fera, que em p atrs do tronco, e a dois passos dele, o tinha 
em seu poder.

XXIX

Desencargo

      Na posio em que se achava Jo Fera bastava-lhe carregar a mo sobre a nuca do mascate para subjug-lo, sem que este pudesse fazer ou sequer tentar a mnima 
resistncia.
      Entretanto pela mente do capanga, desse homem feroz que se fizera instrumento de dios e vinganas alheias, nem de longe perpassou a idia de que tinha ali 
 merc da vontade e ao alcance do brao, uma quantia superior quela de que necessitava para desempenhar sua palavra, e pela qual dera de bom grado alguns dias 
de vida.
        Bem diverso foi o pensamento que lhe sugeriu o inesperado encontro.
        - Este tem de sobra, bem que podia me emprestar! murmurou consigo.
        J promovia o passo a fim de aparecer ao mascate, quando foi tolhido por um receio, que o estacou. Sua presena imprevista, naqueles ermos e em semelhante 
ocasio, devia necessariamente sobressaltar o italiano, que sem dvida se julgaria ameaado, e o tomaria, a ele Jo Fera, por um ladro de estrada.
        Tanto bastou para que o capanga sem mais demora se retirasse com todas as precaues de modo a no pressenti-lo o mascate; e, chegado que foi a alguma distncia, 
afastou-se rapidamente daquele lugar.
        Nos trs dias que decorreram desde ento, debalde engendrou Jo Fera meios de obter a soma precisa. Frustraram-se todas as esperanas, uma aps a outra.
        Jogou e perdeu os magros cobres que tinha. Alguns ajustes entabulados falharam: porque o genro que desejava aliviar-se do sogro, e o cafelista a quem azoinava 
um vizinho resinguento, tinham resolvido esperar pela mudana da poltica, para com mais segurana aviarem esse negcio.
        Um tigre que descera do serto destrua o gado de uma fazenda prxima, cujo dono prometera boa recompensa a quem o matasse. Botou-se para l o capanga; mas 
j a ona acossada por outros caadores se havia retirado.
        Afora estes, no imaginava Jo Fera outros meios de ganhar dinheiro sem humilhao. O trabalho, ele o tinha como vergonha, pois o poria ao nvel de escravo. 
Prejuzo este, que desde tempos remotos dominava a caipiragem de So Paulo, e se apurava nesse homem, cujo esprito de sobranceira independncia havia robustecido 
a luta que travara contra a sociedade.
        Era a enxada para ele um instrumento vil; o machado e a foice ainda concebia que os pudesse empunhar a mo do homem livre; mas em seu prprio servio, para 
abater o esteio da choa ou abrir caminho atravs da floresta.
        Tornando da malograda espera do tigre, alcanou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho e conversavam acerca de seus negcios 
particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jo Fera que destinavam eles uns cinqenta mil ris, tudo quanto possuam,  compra de mantimentos, a fim 
de fazer um moquiro, com que pretendiam abrir uma boa roa.
- Mas chegar, homem? perguntou a velha.
- H de se espichar bem, mulher!
Uma voz os interrompeu:
        - Por este preo dou eu conta da roa!
        - Ah!  nh Jo!
        Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitao; e foram mostrar o lugar que 
estava destinado para o roado.
        Acompanhou-os Jo Fera; porm, mal seus olhos descobriram entre os utenslios a enxada, a qual ele esquecera um momento no af de ganhar a soma precisa, 
que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.
        Na manh em que estamos, sara o capanga de seu esconderijo resolvido a lanar mo do meio que reservara para a ltima extremidade. Afastando-se das runas 
para evitar um encontro com Berta, chegara a um sombrio raleiro do mato, onde retouava o bacorinho ruivo.
        Enxotado por Jo, o animalzinho desapareceu, e antes de meia hora estava de volta precedendo o trote mido o Chico Tingu.
        Pensou l consigo o vendeiro, apesar do chamado, que o mais urgente era avisar o capanga do que tramavam contra ele; e pois foi logo contando o quanto ouvira 
pouco antes.
        Riu-se o Bugre.
        - Deixa-os!
        - Mas o arengueiro do Pinta meteu-se de scia com eles, redargiu Chico; e no  de bom que o demnio me anda a cheirar c pelo rancho a uns tempos. Agora 
mesmo quando vim, l me ficou espiando!
        Jo Fera encolheu os ombros com um ar desdenhoso.
        - Escuta, Chico, isto  negcio srio. Hs de ir agora mesmo  fazenda do tal Aguiar. Diz-lhe que ele perde seu tempo em estar oferecendo contos de ris 
a quem me agarrar. Se quiser, que te entregue cinqenta mil ris, e sou capaz de ir l  fazenda uma tarde que ele marcar depois de So Joo. Dou minha palavra.
        Olhou-o Chico espantado e quis objetar.
        - Vai ou no? Atalhou Jo com o tom decisivo.
        O vendeiro abaixou a cabea e partiu. Vendo-o desaparecer, dirigiu-se o capanga para a casa de nh Tudinha, e j a pedao oculto entre a ramada, estava de 
longe observando Berta, quando Miguel se retirou despeitado, deixando s a colaa. Nessa ocasio animou-se ele a transpor a orla da mata; a menina o viu e adivinhando 
que lhe queria falar, foi a seu encontro.
        O olhar de Berta era uma interrogao instante e cheia de inquietao. No se encontrara com o capanga, desde que este fugira de volta da Ave-Maria, sem 
fazer-lhe a promessa que ela exigia.
        - Agora posso desempenhar minha palavra, e no me importarei mais com o Galvo; disse o capanga cabisbaixo e humilde.
        Estremeceu Berta, pensando no perigo que at aquele instante correra o pai de Linda.
        - Obrigada, Jo! Disse Berta com efuso sincera.
        Nem lhe ocorreu, fosse o que ela agradecia, ddiva de um assassino, que lhe cedia uma existncia como um artigo de seu brbaro trfico.
        - Mec est contente? Perguntou animando-se o capanga.
        - Muito, muito, Jo!
        - Ento... me deixe...
        A voz do capanga balbuciou, e por fim gelou-se nos lbios trmulos e lvidos.
        - O que ? insistiu Berta. Fale, no tenha susto. Quer que eu faa alguma coisa por voc?
        - Sim!
        - Pois diga.
        Com um violento esforo arrancou o capanga estas palavras trpegas:
        - Beijar o bentinho.
        Sorriu-se Berta, e com um gesto gracioso tirou do seio o relicrio pendente com a cruz do cordo de ouro, e, erguendo-se na pontinha dos ps, o deu a beijar, 
preso como estava ao pescoo.
        Jo Fera roou os lbios pela relquia, e, sem fora para erguer a cabea bamba, com o corpo balordo e o passo trpego, cambaleando como um brio, afastou-se 
da menina, sem nimo de por os olhos no semblante dela.
        - Est embriagado! pensou Berta com indignao que se pintou em sua fisionomia.
        Mas j a caridade vibrava as cordas mais suaves de sua alma, e o primeiro assomo de severidade se afogava nos eflvios de uma compaixo inexaurvel.
        - Coitado! murmurou.
        A blaterao do Brs a surpreendeu nesse instante. Voltava com a roupa em frangalhos, a cara arranhada de espinhos, as mo escoriadas, os cabelos emaranhados 
de gravetos, e todo ele coberto de p ou lama. Trouxera presa uma cotia, que fora caar para Berta, em troca da outra.
        Quando a ia entregar  menina, vendo a repulso que se desenhava no lindo semblante, e adivinhando a causa, o idiota soltou a sua bestial interjeio, apontando 
para o vulto de Jo Fera.
- Hanh! hanh!...
Tinha o idiota a atitude e o gesto do mastim que interroga o olhar do senhor, e com um latido surdo pede-lhe que o estume contar o inimigo.

XXX

Trama

        Era vspera de So Joo.
        Na fazenda das Palmas, desde muito cedo que se faziam os aprestos para a festa daquela noite de folguedos. J o ptio estava enramado de coqueiros; e no 
centro erguia-se uma pilha de lenha para a fogueira fatdica.
        Nh Tudinha se instalara na cozinha. Cercada de uma multido de caarolas, frigideiras, gamelas, alguidares e latas, a repolhuda comadre repimpava-se no 
cepo do pilo, para distribuir suas ordens pelas raparigas; mas no se podia ter que no saltasse logo do seu pedestal e acudisse aqui e ali, em toda a parte, com 
uma azfama crescente, o que fazia dizer a crioula Rosa, em aparte ao Faustino:
        - Gentes! Esta mulherzinha tem bicho-carpinteiro.
        D. Ermelinda abdicara naquele dia em nh Tudinha o governo da cozinha e despensa para ocupar-se exclusivamente com a recepo dos hspedes que eram esperados 
 tarde.
        Depois do almoo, Linda e Berta com os braos entrelaados pelas cinturas, desceram ao terreiro por uma das escadas laterais e depois de percorrerem as ruas 
de coqueiros e o pavilho de folhagem que tinham arranjado ao redor da fogueira, foram abrigar-se do sol na horta  sombra de uma latada, onde podiam conversar  
vontade.
        Linda parecia triste. A prxima festa, longe de enflorar, lhe desfolhava o brando e mavioso sorriso. Como o dourado inseto que se esconde entre as ptalas 
da rosa, havia um segredo a suspirar nesses lbios mimosos.
        - Esta noite as moas ficam sempre to contentes! disse a menina em tom suave de queixume.
        - E voc? tornou Berta com um sorriso.
        - Eu no!
        - Por que, Linda?
        - Todas tem uma pessoa que pense nela.
        - Ento voc no tem? perguntou Berta com um doce remoque.
        Linda abanou a cabea melancolicamente.
        - E Miguel?
        - Ele no gosta de mim! suspirou a menina com o lbio balbuciante e uma lgrima a tremer na plpebra.
        Respondeu-lhe Berta com uma fresca risada, que debulhou mesmo nas faces da amiga, como os bagos nacarados e saborosos de uma rom.
        - Olhem que sonsinha!...
        - Nunca mais lhe direi nada, Berta! acudiu Linda, ressentida do modo por que recebera a amiga sua confidncia.
        - Pois, menina, voc tem lembranas, que a gente no pode mesmo deixar de rir-se. Ento Miguel no gosta da senhora? Era preciso que ele no tivesse olhos 
para ver essa carinha de feitio.
        - H outra que ele acha mais bonita!
        - Outra?... Qual?... perguntou Berta de todo confusa.
        - Esta, que ele v a todo momento! replicou Linda, afagando o semblante da amiga com um gesto de triste resignao.
        De novo disparou Berta a rir com a lembrana da amiga.
        - Ai, que ciumenta, Jesus!
        Retiniu perto o grito spero do curiau. No meio do silncio que reinava naquele stio, como era natural, excitou esse brusco rumor a ateno das duas amigas, 
e arrancou-as  anterior preocupao. Berta sobressaltou-se com a lembrana de que ouvira o mesmo apito no dia da tocaia.
        Conteve-se receando assustar Linda; mas, apesar da promessa que lhe fizera o Bugre, estremecia com a idia de que Lus Galvo devia chegar de Campinas naquela 
manh, e talvez ao passar na volta da Ave-Maria fosse vtima do assassinato que ela uma vez impedira. Em falta de Jo Fera, a oculta vingana que ameaava a existncia 
do fazendeiro, teria procurado outro instrumento.
        - Vamos ao mirante, Linda? O sr. Galvo no pode tardar.
        - Papai s chega ao meio dia; respondeu a moa erguendo-se para acompanhar a amiga.
        Na ocasio em que as duas atravessavam a horta, um vulto se esgueirando por detrs dos pessegueiros, passava a cerca e sumia-se no canavial. Berta que o 
viu nessa ocasio, e apenas de relance, inquiriu de Linda para certificar-se.
        - No  o Faustino aquele?
        A filha do Galvo, distrada, de nada se apercebera.
        No se enganara Berta. Era de feito o pajem Faustino, que sara de casa sorrateiramente para acudir ao grito do curiau, sinal combinado com o Barroso. Atravessando 
trs ou quatro tales do canavial, foi ele surdir justamente no lugar onde anteriormente, no dia da partida de Lus Galvo, estava de espreita o Monjolo.
        Era um stio escuso e sfaro; ficava embaixo de uma barranca, escondido pelo macio do canavial e pelo matagal embastido que j invadira o valado.
        A estavam Barroso e Monjolo, ambos com o ouvido  escuta de qualquer rumor que lhes anunciasse a chegada do pajem. O branco descansava encostado  barranca; 
o negro estava acocorado como gamb, junto a uma casa de cupim.
        - Ento o diabo chega, ou no chega? disse o Barroso ao Faustino, mal lhe ps os olhos.
        No tarda; antes do meio dia est a, sim senhor, respondeu o pajem.
        - Eh! Eh!... fez o Monjolo.
        - Vem mesmo?
        - Se vem!...
        - Pois ento, esta noite  o batuque. Esto ouvindo?
        - Monjolo j est sacudindo, sim senhor! disse o africano fazendo jeito de saracotear.
        - Tomara eu ver a dana! acudiu o pajem.
        - Olhem l! Cuidado em trancar a negralhada no quadrado, seno est tudo perdido.
        - Isto  com Monjolo!
        - Monjolo arranja tudo, deixa estar.
        - Quando estiverem bem seguros  s dar o sinal, que o fogo rebenta c no canavial. O diabo corre para acudir; e a voc, rapaz, tranca tambm a gente da 
casa, a mulher e os filhos, e espera, que eu no tardo, para arranjar a histria. Ouviram vem?...
        - No tem dvida! disse o Faustino.
        - Voc que  mais ladino, explica bem quele pai.
        Riu-se o Monjolo, com uma expresso bestial que parecia confirmar o dito.
        - Mas... replicou o Faustino. Eu c  com a condio que o senhor sabe. Eu frro; a Rosa, para mim; e o mulato surrado como canhambola.
        - Pois est entendido! disse o Barroso. Foi o ajuste.
        Fuzilou uma chispa na rbida pupila do africano.
        - E tu, paizinho?
        - Monjolo no quer nada, seno gimbo muito para comprar fumo e cachaa.
        - Fica descansado.
        Separaram-se os cmplices. O pajem voltou  casa, Monjolo  roa, e Barroso foi juntar-se a pouca distncia ao Gonalo Pinta, que o esperava com dois animais 
 destra.
        Apenas se desvaneceu o rumor dos passos, que um galho murcho atirado a um canto da barranca se agitara, descobrindo a boca de um covo, talvez de tatu canastra, 
de onde saiu de rojo meio corpo do Brs.
        Daquele esconderijo, a que se acolhera para o no surpreenderem, ouvira o idiota a maquinao do Barroso, e, fato incrvel, a compreendera, ou antes a sentira, 
porque no fora pela razo, mas por uma sorte de faro moral, que recebera essa percepo.
        Adivinhara a inteno dos cmplices, como o animal carniceiro conhece o desgnio do caador e o acompanha para aproveitar dos despojos das vtimas.
        Um riso, que ressumbrava brutal crueldade, arregaou-lhe os beios estpidos.

XXXI

Pai Quic

        Sentado o Brs num torro de argila, que esbroara da barranca, entregou-se a uma singela ocupao.
        Tirou do seio um embrulho de folhas de inhame, onde prendera uma boa poro de gafanhotos, que poucos momentos antes apanhara a devorarem um arbusto. Espetando 
cada qual em um espinho de juara, fincou-os no cho, diante de si, at o nmero de seis.
        Terminada esta operao, comeou o sandeu a ranger os dentes, espumando de raiva e ameaando os insetos com os punhos crispados. Enquanto se desarticulava 
nessa furiosa gesticulao, escapavam-lhe dos lbios sons estranhos e guturais como o grunhido de um porco, ou o ganir de um co.
        As pupilas vtreas esbugalhavam-se com as contores da fria brutal que lhe contraa os msculos faciais. Eram as fosforescncias de um dio violento, que 
iluminavam de reflexos lvidos esse olhar, de ordinrio morno e fusco.
        Afinal tomado de um acesso de ira, saltou o idiota sobre uma pedra, e com ela esmagou freneticamente, um a um, todos os seis gafanhotos. No contente com 
este suplcios, ainda por cima trincou nos dentes a cabea daqueles que tinham sido poupados por seu aodamento.
        Ofegante, exausto pela violncia das emoes, prostrou-se por terra e a ficou por algum tempo arquejando.
        Era o desgraado menino um estranho aborto da natureza. De todo bronca e estpida, tinha contudo essa monstruosa organizao bem vivo e patente o instinto 
do mal. Parecia que o aleijo, privando-a da alma racional, no reduzira s o homem  condio de bruto, mas o tinha logo demudado em fera.
        At conhecer Berta, o nico vestgio humano que havia nessa bestialidade, era o dio. Aborrecia a toda criatura racional, talvez por uma confusa percepo 
de sua deformidade e estupidez.
        Depois que o desvelo da menina lhe inspirara a fria amorosa, transformara-se em profundo rancor a profunda repugnncia que ele sentia por todos; e tal fora 
o choque produzido por estas paixes, que acendeu uma centelha nas trevas daquele esprito embrutecido.
        Desde ento houve nessa animalidade um impulso que no era idiota; e foi o dio. Estpido em tudo, parvo at nos mpetos da cega dedicao que votava a Berta, 
mostrava para o mal uma astcia e perspiccia admirvel. Incapaz de conceber uma idia, maquinava pacientemente uma vingana terrvel.  sutileza do rptil venenoso, 
reunia a sagacidade do guar.
        Os insetos figuravam as pessoas que mais odiava, e a quem ruminava exterminar, espreitando a ocasio de levar a cabo a feroz maquinao. Enquanto no chegava 
o momento, divertia-se com aquele sinistro folguedo.
        Surpreendido quando chegava ao stio habitual, e obrigado a esconder-se, ouvira a trama do Barroso, que o alegrou a princpio, porm agora o contrariava 
pelo receio de perder a sua maldade.
        Sacando do socavo um pedao de arco de barril que afiara a ponto de torna-lo um punhal, ocultou-o no bolso do jaleco; depois do que desapareceu um instante 
ao lado do brejal, e voltou com um sapo que atirou junto ao buraco da casa de cupim, debruando-se em cima dela,  espreita.
        Imediatamente ao grasnido do anfbio, apareceu no buraco a enorme cabea de uma cascavel, que fitou no sapo a pupila cintilante.
        Desde muito tempo cercava aquela serpente, que entrava no seu plano. Com uma forquilha, da posio em que estava, facilmente conseguiu prender a cabea da 
vpera e agarrando-a pelo colo sem importar-lhe a sanha com que ela silvava, estorcendo a cauda e aoitando-lhe o rosto, deitou a correr por dentro do canavial.
        Chegando que foi junto  casa, trepou a uma jabuticabeira para alcanar o peitoril da janela, cuja vidraa estava erguida, mostrando entre as cortinas de 
cassa uma linda cama de mogno coberta por colcha de damasco azul, um toucador, guarda-vestidos e outros mveis da recmara de uma senhora.
      Era a alcova de Linda. A mo perversa do idiota arremessou a cobra, que foi cair justamente sobre a cama e depois de aplacada a fria, encolheu-se entre as 
rendas dos travesseiros, com a pupila em sangue e o bote armado.
      Acabava o idiota de preparar assim o primeiro ato da obra de extermnio, que ele ruminava em sua feroz estultcia, quando o fez estremecer a voz de Berta que 
se encaminhava para a alcova.
      Lus Galvo havia chegado. Ao avista-lo as meninas tinham descido do mirante a correr para chamar D. Ermelinda e irem ao encontro do fazendeiro. Tambm acudiram 
para tomar a beno ao senhor os escravos empregados no servio domstico, e alguns dos que no trabalhavam na roa, mas andavam por perto nas tulhas e fbricas.
      Entre estes distinguia-se um invlido curvado como um arco de pipa, com a cabea lisa como um quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada; pelo que chamavam 
de pai Quic. Era ele um dos favoritos de Berta, que todos os domingos lhe dava um vintm para fumo.
      Depois de salvar ao senhor, pai Quic que ainda no tinha visto Berta naquele dia, fez-lhe muitas festas como sempre, e comeou a costumada e interminvel 
lengalenga com que a menina muito se divertia.
      Berta era curiosa, e pois gostava de saber de tudo quanto se fazia ou falava por aqueles arredores. O negro velho que no tinha outra coisa para dar  sua 
gentil protetora, trazia-lhe quanto mexerico e histria ouvia pelas vendas, onde graas  liberdade de traste intil, passava a maior parte do tempo.
      - Nh moa, sabe? Aquele homem muito mau, que mata gente, o Bugre que foi aqui da fazenda?...
      - Que tem? perguntou Berta, cuja ateno foi excitada.
      - Vo prender ele.
      - Quem te disse?
      Contou o negro velho o que ouvira ao Gonalo junto  venda do Chico Tingu, e o mais que dos ditos de outros e de sua prpria astcia colhera posteriormente. 
Era naquela tarde que o Pinta ficara de guiar Filipe ao esconderijo do Bugre.
      - E voc sabe onde ele est? perguntou a menina com vivacidade.
      - Sabe, sabe; Quic sabe.
      - Onde ?
      - Quic mostra o caminho.
      - Pois vai indo que eu j te apanho.
      Este rpido dilogo travou-se no meio do terreiro. Entrando em casa, viu Berta a amiga na sala e perguntou-lhe:
      - Onde deitou meu chapu, Linda?
      Foram estas palavras que estremeceram Brs, e ainda mais quando ouviu a resposta de Linda.
      - Em cima de minha cama.
      Apoderou-se a vertigem do idiota, que tombou da rvore ao cho.








FIM DO PRIMEIRO VOLUME




Segundo Volume




I

O bugrezinho

        Em 1826, a mais bonita moa que havia nas vizinhanas de Santa Brbara, era Besita.
        Quando ia  missa aos domingos e dias de guarda, todos se voltavam na rua para v-la passar. Festa em que ela no aparecesse, perdia toda a graa, at os 
velhos achavam desenxabida a patuscada.
        Filho de fazendeiro, que tinha a mostrar bonita mula arreada de prataria, l passava duas e trs vezes por dia defronte da casa da moa, que morava em companhia 
do pai, quase ao sair do povoado, bem perto de nh Tudinha.
        Entre os mais assduos, nenhum levava as lampas a Lus Galvo, que era naquela poca um chibante moceto de vinte anos. Raro dia, no vinha ele ao povoado 
e no achava pretexto para apear-se em casa do velho Guedes, pai de Besita.
        Apesar da roda que lhe faziam tantos rapazes e da balda que h em terra pequena de bisbilhotar tudo, no aparecera o menor mexerico a respeito da moa, e 
quando se falava dela era para gabar o seu modo srio e o recato que sabia guardar com todos, o que mais admirava por ter perdido a me ainda criana, e viver quase 
sobre si, pois o velho mal podia com seus achaques.
        Nesse tempo servia de camarada a Lus Galvo um rapaz de pouco menos idade, que o acompanhava constantemente em passeios e viagens. Era Jo, a quem os outros 
se tinham habituado a chamar de Bugre, pela tez bronzeada, que distinguia aquela raa indgena.
        Esse rapaz fora criado nos Piles, antiga fazenda de Afonso Galvo, pai de Lus; e a viera ter de um modo singular e misterioso.
        Um dia, no mais ardente da calma, quando os enxadeiros descansam na roa  sombra das rvores esperando o jantar, e o resto da gente recolhe s habitaes, 
acaso chegando o velho fazendeiro  janela viu parado no terreiro deserto um sendeiro sobre o qual se encarapitava uma figurinha que  primeira vista pareceu-lhe 
um macaco.
        Logo, porm, reconheceu que era uma criana, de pouco mais de um ano. Apesar do natural pacato do rocim causava espanto que o pequerrucho se pudesse conservar 
em cima dele, escanchado na cernelha e agarrado s crinas.
        - Que quer voc, pirralho? perguntou o velho Galvo.
        Volveu a criana para o fazendeiro uns olhos negros como carbnculos, e ficou a mira-lo com o ingnuo pasmo da infncia. Como se verificou depois, o menino 
no falava ainda, talvez por ser tarde nele o desenvolvimento dessa faculdade.
      Nunca se pode saber donde sara aquela criana; como chegara at o terreiro sem darem por ela; se viera s ou algum a trouxera. Tambm foram inteis as pesquisas 
que se fizeram para descobrir os pais, ou ao menos algum indcio de quem poderiam ser.
      Como de costume, apareceram vrias conjeturas e invenes, cada qual mais engenhosa. Uma velha, muito versada no Novo Testamento, afirmou que esse menino era 
o Anticristo e o sendeiro a prpria besta do Apocalipse, descrita por So Joo. Outra jurava ser o caula do diabo cocho que se metera na pele do bugrezinho, e andava 
fazendo estrepolias pelo mundo.
       parte essas e outras caraminholas de que os visionrios encheram a cabea da gente ignorante, correu entre as pessoas sisudas uma verso, que ningum soube 
donde proveio, e naturalmente formou-se de uma misteriosa agregao de circunstncias, como sucede sempre s rapsdias populares.
      Houvera grande cheia no rio. Uma famlia de gente pobre ia passar o vau, que faltou-lhes. A mulher sumiu-se, o marido correu a salva-la, desapareceram ambos 
arrebatados pela correnteza, ou tragados por algum perau. Ento o sendeiro, que levava o menino, e cujo cabresto soltara o infeliz pai no impulso de salvar a companheira, 
recuou, e seguindo pela margem foi ter  fazenda. A tronqueira estava aberta naturalmente; e assim pode chegar ao terreiro, onde o descobriram.
      Era essa a verdade ou mera suposio? Ningum tinha presenciado o sinistro, nem sabia-se em toda a vizinhana, de gente que houvesse desaparecido. Mas todos 
afirmavam o fato, que era aceito como ponto de f.
      Foi o bugrezinho batizado com o nome de Joo, sendo o padrinho o Afonso Galvo. As velhas que sustentavam haver partes do diabo no pequeno, no se deram por 
vencidas; e asseguravam que, durante o sacramento, o manhoso do inimigo para livrar-se da estola e dgua benta, saltara mais que depressa e se escondera na pana 
do velho fazendeiro.
      Tornou-se Jo o companheiro de brinquedos de Lus; e desde logo mostrou a tmpera do carter que s mais tarde se havia de formar. J em criana era robusto, 
valente, mas taciturno e sombrio; quando a molecada, que fazia roda ao senhor moo, o inquizilava, a ele Jo, ia-os sovando em regra, apesar de serem muitos e mais 
velhos.
      Crescendo, veio a ser o camarada de Lus, a quem servia com dedicao que sob aparncia rspida e seca, era sincera e infalvel. As vezes que salvara a vida 
ao jovem patro, j no se contavam. Arriscar-se estouvadamente o moo fazendeiro, e salva-lo com fria intrepidez o rapaz, era fato comezinho e trivial na existncia 
de ambos.
      Assim nem Lus j agradecia aquilo, que passava entre eles por um servio to fcil como de arrear-lhe o animal; nem Jo se julgava com o menor ttulo ao reconhecimento 
de seu patro, por ter feito uma coisa, que lhe fava a si mesmo prazer e satisfao.
      Lus Galvo era magano e fragueiro; gostava de bulir com as raparigas e pregar peas aos caipiras. Da resultavam constantes desavenas, em que Jo, para defender 
o moo, tinha necessidade de desancar os assaltantes, pagando em muitas ocasies com a pele as aventuras galantes do jovem patro.
      Uma vez travou-se to renhida a luta, que o Bugre prostrou morto a seus ps um arrieiro com quem Lus Galvo puxara briga, oferecendo vinte pataces pela mula 
de estimao em que ele montava, a fim de fazer torresmos do couro. Irritou-se o tropeiro por tal forma com o sarcasmo, que teria com certeza morto ao filho do fazendeiro, 
se Jo no lhe arrostasse a fria.
      Com algum dinheiro tapou-se a boca aos parentes do morto e acomodou-se tudo; de modo que o Bugre continuou a acompanhar ao patro em suas correrias.
      Foi pouco depois desse incidente que Lus Galvo, passando uma tarde por Santa Brbara, viu Besita  janela e ficou imediatamente cado por ela.


II

O casamento

        Tinha Jo por Besita uma dessas paixes veementes que se afrontam com o impossvel e arcam para subjug-lo.
        As pujanas de sua alma se revoltaram contra a adorao fervida e respeitosa que o trazia submisso; mas o carter indomvel estava enervado pela fascinao 
que exercia em natureza to ardente a sedutora beleza da moa.
        Quantas vezes no pensou que bastava-lhe um momento de resoluo para arrebatar a mulher a quem amava, e leva-la ao deserto onde ele no se envergonharia 
de seu amor, e talvez sentisse orgulho de o inspirar to possante e extremoso.
        Mas ele que no temia o mundo e zombava dos perigos, assustava-se s com a idia de um ressentimento de Besita; e no era preciso mais para espancar de seu 
esprito a tentao que em si produziam os encantos da menina.
        Imagine-se, pois, o que pensou o Bugre quando percebeu que Lus Galvo gostava de Besita.
        No dia em que teve certeza do fato, o provocador das rixas foi ele, que brigou sem descanso e com desespero. Pelo modo por que se expunha aos golpes dos 
adversrios, parecia obstinado em procurar a morte, que entretanto fugia caprichosamente diante dele.
        Quando no achou mais com quem tirar bulha, embriagou-se, ele que at ento dera provas de sbrio; e tal foi a moafa, que todo o dia seguinte no deu acordo 
de si, e esteve atirado na estrada onde escapou de ser esmagado por um carro de bois.
        Essa crise fez remisso. Recobrando-se do primeiro e violento abalo que sofrera, achou o rapaz dentro de si, no corao revolto, certa calma e consolo.
        Se algum, que no ele, tinha de ser amado por Besita, fosse-o Lus Galvo de quem era amigo; outro qualquer morreria s suas mo; assim o jurara.
        Adivinhou Besita as duas afeies de que era objeto, e com a intuio da mulher amada, conheceu o contraste profundo que havia entre ambas. A paixo do Bugre 
era submissa, a do moo imperiosa; na primeira ressumbrava a abnegao, a segunda ardia em desejos.
        Sentiu ela tambm que ia amar, seno amava j a Lus Galvo; e por isso mesmo prevendo os perigos de sua ternura por um homem capaz de tudo ousar, tornou-se 
fria e constrangida em relao a ele, enquanto mostrava-se expansiva e afetuosa com o Bugre. Sabia que deste nada tinha a recear nem mesmo um olhar impertinente, 
pois todo o emprenho dele era ocultar sua ardente dedicao. Assim podia gozar desse inocente prazer de ver-se adorada mudamente como uma santa.
        Em princpio contentou-se Lus Galvo com as visitas que sob qualquer pretexto fazia ao velho Guedes, e os encontros que tinha com Besita na missa ou em 
casa de nh Tudinha. De dia em dia porm foi-se tornando mais exigente; e chegou a alcanar da moa algumas entrevistas no quintal ao escurecer.
        Besita concentrava todas as duas forar para resistir; considerando-se irremediavelmente perdida, buscava em torno de si um apoio que a amparasse e no achava. 
Seu pai era um pobre velho, que via no namoro de Lus uma boa fortuna. No tinha em falta de sua me uma amiga, que a defendesse contra os prprios impulsos de seu 
corao.
        Nestas circunstncias, apareceu em Santa Brbara um moo chamado Ribeiro, que vinha arrecadar alguns bens da herana de um tio. Vendo Besita, apaixonara-se 
por ela e a pedira em casamento ao velho Guedes.
        - O Lus  melhor! disse o pai  filha, comunicando-lhe o pedido.
        Besita tornou-se plida e respondeu com a voz trmula:
        - Mas Lus no se casar comigo!
        - Tu pensas?
        - Tenho a certeza.
        - Pois havemos de ver.
         tarde apareceu Lus Galvo. Contou-lhe o Guedes a pretenso do Ribeiro, e pediu-lhe conselho. O filho do fazendeiro demudou-se; mas recobrando-se sugeriu 
dvidas sobre os haveres do pretendente, alegando ser pessoa desconhecida no lugar.
        Esperou o Guedes quinze dias, decorridos eles, disse  filha:
        - Tu adivinhaste,  um peralta!... Aceita a mo do Ribeiro, e sers feliz.
        - O que meu pai ordenar, eu o farei de boa vontade! respondeu a menina com doce resignao.
        Aceitava ela esse casamento como um sacrifcio, para salvar sua virtude, embora  custa dos sonhos fagueiros de sua alma.
        Espalhada a notcia do casamento, Jo sabendo-a teve um cruel sossbro, como se fora ele prprio a quem a moa repudiasse para se dar a outro. To identificados 
estavam em sua alma os dois amantes, que ele j no os separava em seu afeto; e envolvia Lus na adorao que tinha por Besita, e esta na amizade que voltava quele.
        A primeira vez que depois disso o capanga viu a moa  janela, voltou o rosto para no lhe falar.
        - Est mal comigo, Jo? disse Besita com o modo afetuoso que lhe era habitual.
        Deitou-lhe o bugre um olhar duro, e pregando a aba do chapu na testa com um murro, no tugiu.
        - Que lhe fiz eu, para no me falar?
        - Mec no vai se casar com o Ribeiro?
        -  por isso?
        - E nh Lus?
        Besita fitou o rapaz nos seus grandes olhos, onde brilhavam aljfares de lgrimas, e mostrou-lhe um cravo que tinha nos cabelos.
        - Se voc, Jo, atirasse na beira da estrada, como uma coisa  toa, esta flor, podia se queixar porque outro a apanhasse para si?
        - Ento ele no quer bem a Nhazinha?
        - Quer, mas como tem querido a outras antes de mim: no mereo ser sua mulher!
        Partiu-se Jo a galope e foi ter em casa com o patro:
        - Nh Lus, ela lhe quer bem!... case com ela!
        - Qual, Jo!... O velho no admite!
        No quis ouvir mais o Bugre; arrecadou em um leno o que tinha de seu, to pouco era, e despediu-se do patro com estas palavras:
        - Pode procurar outro camarada; eu no conto mais com o senhor.
        Foram baldados os esforos que fez Lus Galvo para ret-lo. O Bugre ficou inabalvel na resoluo que tomara em um minuto, de deixar a casa onde fora acolhido 
e vivera desde a infncia.
        Pouco tempo depois efetuou-se o casamento de Besita com o Ribeiro; mas este ao sair da igreja recebeu uma carta, que o chamava a toda a pressa para Itu para 
salvar a maior parte da herana, que o tio confiara a um negociante daquela vila, hoje cidade.
        Partiu o Ribeiro no dia seguinte para voltar logo. Sua mulher foi viver na casa da fazendola, que o trouxera a Santa Brbara, na inteno de vende-la; e 
agora devia servir-lhe de morada ao menos nos primeiros tempos do casamento.

III

Beb

        Tinham decorrido dois meses depois do casamento de Besita.
        Eram nove horas da noite. A moa beijando a mo do pai, se recolhera  alcova; e depois de rezar, cismava em sua vida, lembrando-se com saudade dos sonhos 
de ventura que fizera outrora e que to depressa se tinham desvanecido.
        Encostada  rtula da janela, com os olhos engolfados no azul, bebendo a cintilao das estrelas como um orvalho de luz, sentia-se arrastada para aquele 
passado recente, e deleitava-se com as reminiscncias das carcias de Lus e dos seus ternos protestos, que ela sabia mentidos, mas que no obstante a embeveciam.
        J todos dormiam na casa, quando ela, deixando a janela, deitou-se. Nesse instante ouviu sobressaltada bater  porta. Quem seria, quela hora?
        Soaram os passos de Zana no corredor e logo depois a voz da preta a trocar perguntas e respostas com a pessoa que batia. Afinal rangeu a chave na fechadura.
        - Nhazinha,  sinh!
        Ia Besita levantar-se precipitadamente para receber o marido, quando sentiu no escuro que dois braos a cingiam e uma carcia atalhava-lhe a palavra nos 
lbios.
        Ao bruxulear da madrugada, Zana acudindo ao chamado da moa foi ach-la debulhada em pranto, na maior consternao.
        - Tu me perdeste, Zana! No era meu marido!
        - Quem era ento, Nhazinha? perguntou a preta espantada.
        - Olha! disse a moa mostrando-lhe o vulto de Lus Galvo que se afastava.
        - Meu Jesus do cu! exclamou Zana caindo de joelhos aos ps da senhora.
        Felizmente o velho no ouvira bater; e nunca soube da desgraa da filha. Morreu meses depois crente de que a deixava no mundo feliz e amparada.
        Uma pessoa, porm, suspeitou do que havia ocorrido. Foi Jo Bugre, que na sua indignao quis matar Lus Galvo; e o teria feito, se Besita no o proibisse.
        Entretanto o Ribeiro no dava cpia de si; corriam os meses sem que em Santa Brbara houvesse novas dele, e do rumo que levara. Somente sabia-se que no 
estava em Itu, ou qualquer outra vila prxima. Esse abandono, que o marido parecia ter feito dela, foi o que deu coragem a Besita para resistir  desgraa que a 
acabrunhara, sobretudo quando lhe conheceu todo o alcance.
        Mais de um ano, depois que a abandonara o Ribeiro, teve Besita uma filha, cujo nascimento foi inteiramente ignorado em Santa Brbara, pelo isolamento a que 
se condenara a moa desde a morte do pai. S o soube, fora Zana, Jo Bugre, cuja dedicao apurava-se com o infortnio daquela por quem sacrificaria a vida, se pudesse 
por este preo resgata-la aos dissabores.
        Um dias s ocultas, levou o capanga nos braos a criancinha a Campinas, a fim de a batizar o vigrio dessa vila, pondo-lhe o nome de Berta, que tinha sua 
me. Havia ajuntamento na igreja para assistir a um casamento: era o de Lus Galvo com D. Ermelinda.
Custou ao Bugre conter-se, que no seu exaspero no insultasse ali em face de toda gente aquele homem de quem fora amigo, e por quem tinha agora a maior averso. 
Reprimiu-lhe o primeiro mpeto a lembrana de Besita e da mgoa que lhe podia causar o escndalo.
        Voltou sombrio e sinistro:
        -  preciso que eu mate esse homem! disse ele  moa entregando-lhe o filho.
        - No quero que lhe faas o menor mal! respondeu Besita com imprio.
        - Mec sofreria se eu o matasse?
        - Muito!...
        - Basta, Nhazinha! atalhou Jo.
        Algum tempo viveu Besita com sua filhinha no mesmo isolamento sem outra companhia alm de Zana, que lhe dera de mamar, e o capanga, o qual a servia como 
um escravo humilde e fiel da casa. Convencida de que realmente seu marido a abandonara de vez, habituara-se com o correr do tempo  placidez e serenidade daquela 
existncia recndita, que embeleciam as efuses do amor materno. No seio dessa tranqila solido, cercada de afeies sinceras, sentia-se quase feliz.
        Seu prazer, nos momentos que lhe deixava a criao, era enfeitar a filha, e fazer bonito o seu Beb, arranjando-lhe ora toucas de rendas, ora roupas. Lembrou-se 
um dia de bordar-lhe um cinto com signo-saimo, zodacos, figas e outras figurinhas de prata, como se usava ento para livrar do quebranto.
        No havendo por perto ourives capaz de lavrar os emblemas, mandou Besita o Bugre a Itu, a fim de os encomendar. Com repugnncia, e um inexplicvel constrangimento, 
ausentou-se Jo por alguns dias dessa casa onde vivia quanto amava neste mundo e sobre a qual velava como um co fiel e dedicado.
        Foi isto em uma tera-feira. Na quinta seriam oito horas da manh, e Besita fazia saltar sobre os joelhos o seu lindo Beb, sentada na alcova, com uma rtula 
aberta a meio. Eis que derramando a vista pelo arvoredo, ficou transida, como se lhe surgisse em face um espectro.
        Enxergara o rosto de Ribeiro, que se ocultou entre a folhagem. Seria apenas uma alucinao de seu esprito, ou a tremenda realidade, cuja idia tantas vezes 
a enchera de terror, nas longas noites no dormidas?
        A tremer chamou a preta, que estava na cozinha cuidando do almoo:
        - Meu marido, Zana!...
        Aterrou-se a ama, ouvindo da senhora os pormenores da apario, que anunciava tamanhas desgraas; e esteve algum tempo a espiar por entre a rtula a ver 
se lobrigava ainda o vulto do Ribeiro, mas nada viu.
        Acudiu-lhe ento uma lembrana engenhosa, com a qual esperou e por entre a rtula quase cerrada, no podia o Ribeiro distinguir o semblante da criana. Tomou-a 
Zana dos braos desfalecidos da senhora, e levando-a a seu cubculo, tisnou-lhe o corpo de carvo.
        Feito isto arranjou outra vez as fraldas e a touca; e saiu ao terreiro para acalentar a criana, andando de uma para outra banda, e entoando a costumada 
cantiga, mas ento alterada por esta forma:

        Cala a boca, anda, negrinha,
                Ai-u-ll!
        Seno olha canhambola,
                Ai-u-ll!
        Vem c mesmo Pai Surro
        Toma, papa este tio.

        Compreendeu Besita o ardil da preta, e no desamparo em que se achava, confiou nessa frgil esperana.
        Passou o resto da manh sem o menor acidente. Assim desvaneceu-se o primeiro sobressalto, e a moa inclinada a crer que apenas fora vtima de uma iluso 
cruel, cobrou nimo, embora no se pudesse esquivar  inquietao que lhe deixara o terrvel susto.
        Veio a tarde: o cu estava sereno, e coava-se no espao uma aragem to doce que Besita encostou-se ao peitoril da janela. Com a fronte descansada  ombreira, 
deixando cair para fora as longas tranas de seus lindos cabelos negros, que a brisa fazia ondular, embebia-se em contemplar a estrela vespertina, que cintilava 
no horizonte. Sbito, no esquecimento dessa cisma, uma estranha idia despontou-lhe no esprito. Pareceu-lhe que, atravs da cintilao da luz, desenhava-se a imagem 
de sua me, a sorrir-lhe l do cu e a cham-la.
        Ento ouviu Zana um grito de terror, que se extinguiu em um gemido de angstia. Fora de si correu  alcova da senhora, onde a esperava um quadro horrvel.
        No meio do aposento, o Ribeiro, plido e medonho como um espectro, agarrando a mulher pelo pescoo, estrangulava-a com as longas tranas de cabelos.

IV

rf

        Um grito espantoso retumbou, que estremeceu o assassino e o lanou espavorido fora do aposento.
        Antes de sumir-se, porm, viu assomar no quadro da janela o vulto pavoroso de Jo, que de um arremesso atirou-se a ele para despeda-lo.
        Nesse instante trespassou a alma do Bugre uma voz exausta, que se desprendia a custo do arquejante soluo:
        - Jo!...
        Prostrou-se o rapaz aos ps da moa, que o Ribeiro deixara agonizante, com o corpo atirado sobre um ba, e a cabea pendida como o lrio, cuja haste o vento 
partiu.
        Julgando-a morta, Jo s tivera um pensamento, a vingana; no eram lgrimas, mas o sangue do assassino que ele queria derramar sobre aquele despojo do que 
unicamente amara neste mundo.
        - Nhazinha!... soluou ele de mos postas.
        - Minha filha, Jo, minha... Ele... mat-la!
        Concentrara a pobre moa todas as foras naquela nsia, truncada pelas vascas. Nesse j frio cadver ainda palpitava o corao materno.
        Precipitou-se o Bugre em busca da menina. Zana alucinada apertava convulsamente nos braos contrados, e com o fito de esconde-la ao seio, quase a sufocava. 
Foi preciso luxar-lhe os ossos para arrancar a criana.
        Quando Jo outra vez ajoelhou aos ps de Besita com a menina ao colo, a msera me, soerguendo o busto num arranco supremo, lanou os braos j hirtos aos 
ombros do rapaz e cingiu no mesmo abrao Berta e o fiel amigo que a salvara. Arrojou-se ento para dar  filha o beijo extremo; mas fugindo-lhe j a luz dos olhos, 
vacilava a fronte, e os lbios gelados a esmo roaram pelo rosto da criana, como pelas faces de Jo.
        Ao toque desse beijo, desmaiou o Bugre; mas embora lhe fugissem os espritos, seu corpo no tombou; somente desabou sobre si mesmo, como um penhasco, minado 
pela base, que soterra-se em seu prprio mbito.
        Passada a vertigem, a vista ainda baa do rapaz lobrigou atravs de uma nvoa escura o vultozinho de Berta, que brincava com a mo gelada de Besita, chilrando 
como um passarinho.
        Aquele beijo fora o supremo adeus da me. Besita estava no cu.
        Ofegou o peito de Jo com uma nsia que parecia rompe-lo; e o pranto se arrojou para os olhos sombrios; mas todo esse arremesso de uma dor imensa veio estalar 
na gorja, e tombando de novo nas profundezas da alma socavada pela dor, deixou apenas escapar uma surda estertorao, semelhante ao estrpito da torrente que se 
precipita da garganta da serra no abismo dos algares.
        A, entre o cadver da mulher a quem adorara, e o corpo frgil da criancinha rf, se quedou o rapaz um momento, procurando reatar em seu esprito o fio 
das recordaes subitamente apagadas. De repente soltou um brado, e arrojou-se.
        Valera-se o Ribeiro da demora que tivera Jo ouvindo a voz exausta de Besita, para fugir e pr-se fora do alcance de seu perseguidor. O assassino, que tinha 
maquinado friamente a sua vingana, se preparara para a fuga, no caso de perigo.
        Havia cerca de dois anos que esse homem partira de Santa Brbara, deixando sua esposa no dia seguinte ao do casamento, para Itu, salvar avultados interesses 
comprometidos. Apesar da pronta determinao, o negociante, seu devedor, j se tinha ausentado; e suspeitava-se que se dirigia a Curitiba.
        Foi-lhe no encalo o Ribeiro; e to feliz que obteve cobrar boa parte da soma. Vendo-se rico de repente, no resistiu o moo  tentao de gozar dos prazeres 
com que o seduziam a cada instante as gabolices dos tropeiros e marchantes.
        Afinal, ao cabo de dois anos, lembrou-se da mulher que deixara ainda noiva, no dia seguinte ao do casamento; e dirigiu-se a Santa Brbara. Remordia-lhe a 
conscincia; como era natural encheu-se de desconfianas.
        s ocultas aproximou-se da casa; e ficou  espreita. Viu Besita com a filha ao colo; e suspeitou de uma traio. Ao cair da tarde, quando a moa cismava 
com os olhos engolfados no cu, ergueu-se diante dela irado e ameaador.
        A infeliz prostrou-se de joelhos a seus ps e confessou-lhe tudo, o engano fatal de que fora vtima, e a desgraa irreparvel que a separara para sempre 
dele e do mundo.
        A resposta foi um escrneo.
        - Ele j era teu amante!
        Tomado por um acesso de fria, deitou as mos ao alvo colo da moa, e enleando-o com a madeixa, a estrangulara. Acabava essa cruel vingana e pensava em 
imolar tambm ao seu rancor a inocente criana, quando o bramido do Bugre o estremeceu de horror.
        Sem hesitar ganhara o mato pelos fundos da casa, e embarcando na canoa que o esperava, desceu o Piracicaba com a rapidez que dava a enchente  correnteza 
das guas.
        Pressentindo que o perseguia o dio profundo e implacvel de Jo, ou talvez acossado apenas por um remorso dilacerante, no descansou o Ribeiro enquanto 
no transps o oceano, colocando-o entre si e a terra onde exercera sua vingana.
        O Bugre o procurou por toda a parte, mas debalde: o homem estava em Portugal.
        Berta fora recolhida por nh Tudinha, cujo marido ainda vivia. Voltando do povoado a boa mulher ouvira um forte choro de criana que vinha da casa de Besita; 
e levada por uma curiosidade compassiva, aproximou-se para espiar disfaradamente pela janela.
        Viu Jo que desajeitadamente ninava a criana, desesperada de fome por falta de mama. Tentava o rapaz inutilmente que a menina chupasse a ponta de um pano 
embebido em caf; e vendo sem resultado seu desvelo, caam-lhe as lgrimas dos olhos em bagas.
        Surpreendida com esta cena e assustada com a imobilidade do vulto de Besita, que ela via deitada sobre a cama, nh Tudinha animou-se a entrar e soube do 
Bugre o lgubre acontecimento. No hesitou desde esse momento em considerar Berta sua filha.
        Apesar de ser Miguel muito mais velho do que Berta, ainda nh Tudinha tinha leite; e ali mesmo acalentou a infeliz rf dando-lhe de mamar.
        O nascimento de Berta e a morte de sua me eram um mistrio para a gente do lugar. Zana enlouquecera, e Jo, nica testemunha daqueles acontecimentos, s 
por alto os referiu a nh Tudinha, que nunca revelou o segredo.
        A casa onde nascera Berta ficou abandonada, e estava reduzida a tapera, onde vivia a doida, que depois de tantos anos ainda via na sua alucinao desenhar-se 
a cena pavorosa da morte da senhora.

V

Fera

        No se pinta a exacerbao de Bugre quando sentiu que lhe escapara o assassino de Besita.
        Estuava-lhe a alma. Entrava na venda para matar a sede que o abrasava; mas a cachaa parecia-lhe chilra e inspida como a gua do brejo. Sangue era o cordial 
que podia mitigar-lhe esse fogo intenso a lavrar-lhe dentro.
        Queria brigar; tinham medo e fugiam dele. Matar a frio, maquinalmente, como o carniceiro faz  rs, e o caador  perdiz, isso no o poderia; repugnava-lhe; 
tinha nojo ao cruor.
        Foi nestas condies que um ricao, informado da valentia de Jo, o tomou para capanga; e bem precisava ele, que no lhe faltavam inimigos. O preceito do 
Evangelho  no fazer aos outros o que no queremos nos faam. Da tinha o mando extrado uma regra para seu uso, a qual em sua opinio, era apenas o complemento 
da mxima crist. Faamos aos outros o que eles nos pretendem fazer, dizia ele; e sem o menor escrpulo, com perfeita serenidade de conscincia, ia aviando os 
seus inimigos, para no lhes morrer s mos.
Eis o homem a cujo servio esteve Jo durante algum tempo, no s pela necessidade de ganhar a subsistncia, como pela nsia de saciar a sanha terrvel que o devorava. 
Fez-se instrumento da perversidade do mando; mas essas vinganas no eram seno brigas e combates, em que ele barateava sua vida, ansiando pela morte, que se obstinava 
em poupa-lo.
        Sujeito que fugisse e se amedrontasse, no lhe tocava Jo, qualquer que fosse a recompensa ou ameaa do amo. Mas tambm quando se enfurecia, nada aplacava 
essa alma calcinada pelo fogo surdo que lavrava desde a morte de Besita.
        Referiam-se desse homem as maiores atrocidades; e a alcunha de Jo Fera que lhe tinham dado por esse tempo, bem revelava a profunda impresso produzida na 
gente do lugar pelos fatos que ele praticara. Alguns no se explicavam, a no ser pelo delrio sanguinrio que se apodera de certos homens, e no  talvez seno 
a exaltao do hbito levado at a mania.
        Chamado, pago e protegido por homens poderosos para escolta-los em aventuras e servir s suas paixes, o Bugre recebeu a iniciativa e a animao que iam 
acostumando seu brao a ferir e a repousar depois do crime, como se tivesse praticado uma honrosa faanha, uma valentia digna de louvor.
        Esta  com pouca diferena a histria de todos os assassinos incorrigveis, que infestam o interior do pas. Eles foram educados pelos poderosos como os 
dogues que se adestravam antigamente para a caa humana, dando-lhes a comer, desde pequenos, carne de ndio.
        Durante o tempo que serviu como capanga a diversos patres, no esqueceu Jo os dois pensamentos nicos de sua vida, ou antes nico pensamento que se dividira 
agora em dois cuidados.
        Era Besita que lhe deixara em legado, vingar sua morte, e proteger sua filha.
        No se passava um dia sem tirar Jo inculcas do Ribeiro, esperando que fizesse o acaso o que no pudera toda a sua diligncia. Tambm de tempos em tempos 
vinha s ocultas at Santa Brbara para ver Berta; e ento sempre lhe trazia algum enfeite e deixava na mo de nh Tudinha dinheiro para comprar-lhe o necessrio, 
de modo que andasse bem pronta e arranjada.
        Berta a princpio no queria saber daquele homem triste e carrancudo. Quando nh Tudinha a levava pela mo at o mato, onde ele as esperava para no ser 
visto, a menina tinha medo. Mas a pouco e pouco foi se habituando, e afinal sentada em seus joelhos brincava com a faca de ponta que lhe tirava da cinta e arrepiava-lhe 
a barba ruiva.
        Tinha Berta as feies da me, e Jo via com enlevos, travados muitas vezes de um terror supersticioso, surgir pouco e pouco do vulto da menina a imagem 
rediviva da mulher, a quem adorara como uma santa, embora tivesse amado tambm com a fria de um possesso.
        Quando j tinha Berta seus doze anos, e no corpo infantil iam se esboando os relevos graciosos e suaves contornos da esttua feminina, deixava-se o Bugre 
ficar longas horas em muda contemplao, com os olhos pasmos na menina, que brincava pelo campo sem dar-lhe ateno.
        Havia ento singulares alucinaes na alma desse homem. A paixo que jazera recalcada por tantos anos no fundo de seu corao, irrompia-lhe de novo com mpetos 
medonhos, semelhante a um tigre sedento que se arroja contra a jaula para despeda-la.
        Berta lhe pertencia. No pela mesquinha razo de a ter salvado, mas pela consagrao das angstias que sofrera. Ela era filha de sua dor; quando o pai a 
desprezara, abandonando a infeliz me, ele as envolvera ambas em uma ardente e incessante dedicao. A alma se lhe estancara nessa paixo imensa; carecia pois de 
orvalhos para umedecer a terra sfara e exausta, que era sua existncia agora.
        Afigurava-se  sua mente enlevada, que Besita revivera na filha para pagar a ele Jo os extremos do puro e humilde afeto. Enleava-se nas cismas de outros 
tempos e surgiam-lhe os sonhos que fizera outrora, os devaneios da vida feliz, no seio da floresta, longe do mundo que o perdera. Seu amor era infindo; chegava para 
encher o deserto.
        Todavia o olhar da menina o turbava, e desde muito tempo j no se animava ele a sent-la nos seus joelhos, como dantes. Se acaso Berta lhe fazia um afago, 
ao contado da mo mimosa o sangue espadanava-lhe do corao como lavas; mas logo reflua, gelado por um calafrio glacial.
        J no era Berta que ele via e sentia, mas o vulto de Besita, surgindo triste e lacrimosa para defender a filha.
        Nos arrancos e embates dessa luta correu a infncia de Berta.
        Havia um ano deixara Jo o ofcio de camarada; e vivia oculto nas vizinhanas de Santa Brbara, onde facilmente via Berta e lhe falava. Cessando a proteo 
que os potentados costumam dispensar a seus asseclas, e a imunidade de que os revestem, comeou logo o Bugre a ser perseguido como um flagelo.
        Mas at ento zombara de todos os esforos, apesar de prosseguir em suas faanhas. Raro era o ms no qual no se consumava pelos arredores alguma vingana; 
e o instrumento era quase sempre ele, Jo Fera, a quem buscavam de preferncia para esta tarefa, pela fama terrvel que tinha adquirido.

VI

A restituio

        Ao cabo de quinze anos voltara o Ribeiro a So Paulo.
        No se animaria contudo, se os anos, e mais ainda uma irrupo no rosto, no lhe tivessem alterado completamente as feies. Em Portugal o chamavam de Barroso, 
apelido que substituiu ao seu para maior segurana.
        J estava h meses na provncia, quando resolveu ir a Santa Brbara. Com a vista daqueles lugares acendeu-se o dio sopitado; um pensamento de serdia vingana 
despontou em seu esprito e medrou.
        Ouvira falar do Chico Tingu como inculca de um sujeito que se incumbia, mediante boa esprtula, de arranjar esses negcios. Tocou no ponto ao vendeiro; 
este expediu o bacorinho a Jo Fera, que no tardou no rancho, onde se fechara o ajuste, mediante o sinal de vinte pataces.
        Nenhum dos dois reconhecera o outro. Jo poucas vezes antes da morte de Besita vira o Ribeiro, e este nunca reparara no capanga, que raro tinha encontrado 
e de passagem em casa da noiva. Acrescia a mudana operada pela idade e outras circunstncias.
        Todavia notou Jo que esse homem lhe inspirava profunda averso; e cada vez que o avistava tinha mpetos de puxar briga com ele e mata-lo. Na Ave-Maria especialmente, 
no dia da tocaia, a no ser o urutu que espantou o cavalo, o Ribeiro cairia com o corao traspassado.
        Ao v-lo passar, na volta do caminho, entre os claros da folhagem, teve o capanga uma espcie de viso; pareceu desenhar-se a seus olhos a mesma face fouveira 
de raiva e terror, que rpida perpassara diante dele na tarde do assassinato de Besita, mas ficara para sempre estampada em sua reminiscncia.
        De seu lado o Ribeiro, embora no tivesse a menor suspeita do homem com quem lidava, no podia eximir-se de um involuntrio confrangimento, quando se aproximava 
de Jo Fera. E se este carregava sobre ele o duro olhar, corria-lhe pela medula um frio glacial.
        Assim estava impaciente de ver concludo o negcio para livrar-se do capanga; mas correram-lhe as coisas s avessas, pois agora depois do que passara na 
venda do Tingu, sabia que o tinha no encalo, e tratou de aprecatar-se.
        Contudo no esquecera o Ribeiro a sua vingana, embora tomasse ela outra feio da que tinha em princpio. Depois da tocaia na Ave-Maria, passara pelas Palmas 
e vira a famlia de Lus Galvo, reunida no terreiro, gozando a frescura da tarde, ao expirar de um dia clido.
        Afonso lia para a me e a irm. D. Ermelinda acompanhava com os olhos as mutaes das alvas nuvens que o vento carmeava no azul do cu, Linda fazia trabalhos 
de l.
        A serenidade e enlevo desse quadro pungiram acremente a alma do Ribeiro. Invejou a felicidade de Lus Galvo. Invejou a felicidade de Lus Galvo, no seio 
daquela famlia encantadora e no meio dos gozos que d a riqueza.
        Suas idias tomaram um rumo desconhecido. Ele que tinha consumido toda a mocidade em uma vida aventureira e vagabunda, e se isolara inteiramente no mundo, 
sem outra companhia, alm dos parceiros de jogo e prazer, sentiu de repente penetra-lo um eflvio da vida calma, sossegada, que desliza docemente no lar domstico, 
entre as alegrias ntimas e as festas singelas da famlia.
        Mas j estava adiantado em anos para tratar agora de criar uma famlia. Seria como o tardo lavrador que planta a rvore da qual no ver o fruto. O que lhe 
servia era uma famlia j formada, com seu macio conchego, seus hbitos encantadores, onde ele chegasse e tomasse o seu canto, como um conviva, que acha na mesa 
do banquete o talher preparado.
        E no estava ali, perto dele, a famlia de que precisava? Onde encontraria mulher mais agradvel? Podia nunca esperar que viesse a ter outros filhos mais 
lindos e prendados do que esse par gentil?
        Por estranhos que paream estes pensamentos, de tal modo se imburam no esprito do Ribeiro, que ele acabou rindo-se de seu primeiro projeto. Matar apenas 
Lus Galvo numa emboscada, como pretendia, era uma vingana brutal e estril que afagava o seu dio e nada mais.
        Fazer porm desaparecer o fazendeiro, e tomar o seu lugar, como fizera ele outrora; essa era uma desforra de mestre, que no s ajustava as contas do passado, 
como garantia o futuro. Aplicando ao sedutor a pena de talio, fazia ele, Ribeiro, ainda por cima um bom negcio.
        Desde ento empregou toda sua atividade em levar ao cabo a obra, cuja realizao fora marcada para a noite de So Joo.
        Ao recolher, se manifestar no canavial das Palmas um incndio que se h de atribuir a algum foguete desgarrado. Lus Galvo naturalmente acudir para acautelar 
maior estrago. Nem os escravos da roa, fechados nos quartis por Monjolo, nem os pajens trancados por artes do Faustino, podero acompanhar o senhor.
        Gonalo Pinta, emboscado no caminho, derrubar Lus Galvo com uma cacetada e o lanar nas chamas, para acreditar-se que foi vtima do incndio, e no de 
uma trama prfida e covarde.
        Ento Ribeiro ou Barroso, que figura passar casualmente pela estrada, acode e extinguindo com o auxlio dos camaradas o incndio, j de antemo cortado por 
largo aceiro, conduzir o corpo do Galvo  casa e oferecer  viva seus servios.
        Eis o plano, em virtude do qual esperava Barroso estar casado com D. Ermelinda e senhor das Palmas, antes de findo o ano do luto.
        Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as ltimas recomendaes, voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro, de dentro 
do mato, Jo Fera.
        O Barroso vacilou na sela; e o Gonalo Suuarana ficou ainda mais rajado, com a palidez que lhe afulou o semblante. Todavia no fizera o Bugre o menor gesto 
de ameaa; apenas lhes tomara a frente, postando-se no meio do caminho.
        -  hoje vspera de So Joo. Seu dinheiro aqui est; no lhe devo mais nada.
        Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo ao Barroso um mao de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mo bamba.
        - Agora passe bem. Havemos de encontrar-nos! continuou o Bugre, cujo olhar despediu uma chispa.
        E desapareceu.





VII

Fascinao

      Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapu, Linda veio ter com ela:
        - Onde vai?
        - Ali, j volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sfrega por evitar conversa naquele instante.
        - Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera.
        Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um brao, e impediu assim que ela se afastasse.
        - Olhem a curiosa! Zangou-se porque no lhe disse onde vou? Ah! Quer saber? Pois eu lhe conto; depois no fique a vermelhinha como uma pitanga. Escute!
        Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malcia:
        - Vou  casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta, e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa conhecida.
         proporo que falava a travessa da Berta, abrasava-se a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos clios velando os brandos olhos, ensombravam 
docemente a sua face enrubescida.
        Quando pronunciava baixinho as ltimas palavras, viu Berta uma formosa cabea magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus lbios e o ouvido 
da companheira, soltando estas palavras com um tom de motejadora confidncia:
        - Eu tambm entro no segredo!
        Era o Afonso.
        - Ai! exclamou Berta, sentindo nos lbios o roar do buo macio que pungia a face do mancebo.
        - Que abelhudo voc , mano! acudiu Linda, um tanto contrariada por no ouvir o resto do que tanto lhe interessava.
        - No disfarce, menina, voc mesma  que me disse que Inh estava me chamando para dar-me um bei...
        - Um belisco! atalhou Berta cravando-lhe no brao a unha rosada, mas rija como a garra da araponga.
        E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso no deixaria de tomar e que 
ela bem suspeitava qual fosse.
        Mas transtornou-lhe todo o plano o magano, metendo de pronto o joelho  porta, antes que a chave desse volta. Comeou ento uma luta, que devia terminar 
pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso moderava o seu impulso, a fim de 
no molestar a sua gentil competidora, e tambm para no lograr to fcil a vitria.
        Mas teve Berta um aliado, com o qual no contara o moo. Linda acudiu  amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caador para salvar a rola. Achegando-se 
ao irmo sorrateiramente, fez-lhe ccegas.
        Afonso era rdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando os cotovelos, para se desvencilhar da irm, sem abandonar o posto.
        - Assim, Linda! gritava Berta.
        - Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas.
        - Deixe a outra! acudia Linda.
        Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face  irm, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo e pronto como foi 
esse movimento no evitou que Berta com extrema agilidade, aproveitando-se da breve intermitncia em que a fechadura aderiu ao batente, desse volta  chave.
        Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada, soltou uma risada gostosa.
        Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflio; e vinha de dentro da alcova.
        - O que foi, Berta? exclamou Afonso.
        - Inh, Inh,  voc! balbuciava Linda sufocada pelo susto e abalando a porta.
        - Abra depressa! instava o moo cheio de inquietao.
        No tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava dentro grande silncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava como o spero 
trincar da lima no ferro.
        -  graa; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarando para consolar a irm, porm angustiado por um terrvel pressentimento.
        Ao mesmo tempo, curvado, espiando pelo espelho da fechadura, investigava o interior quanto lhe permitia a estreita abertura por onde passava o olhar. A luz 
que entrava pelas janelas abertas esclarecia o aposento; assim via o rapaz distintamente o centro da parede fronteira, onde estava colocado o toucador da irm. Com 
muito esforo, inclinando-se o mais possvel  direita, percebia a orla do cortinado desfraldado pela cabeceira da cama.
        - Viu-a? perguntou Linda que no cessava de chamar pela amiga.
        - No! respondeu agoniado o irmo.
        - Basta, Inh! disse a filha do fazendeiro, com o tom suplicante. Voc nos aflige com esta brincadeira.
        - Qual! Ela  pirracenta! replicava Afonso rindo-se para animar a irm. Mas logo, quando eu a pilhar, h de arrepender-se. Eu c me contento com uma dzia; 
e voc, Linda?
        Assim galhofando, Afonso aplicava alternativamente os lbios e os olhos ao orifcio da fechadura, para falar a Berta, e ver se ela dava sinal de o ouvir.
        De repente pareceu-lhe que uma sombra se interpunha entre a porta e o toucador; e afirmando a vista reconheceu o vulto de Berta, que oscilava. Cuidou que 
a menina, para fazer-lhe negaa, estava de brejeira a bambolear o corpinho.
        - L est ela se faceirando! exclamou Afonso cheio de contentamento.
        - Aonde?
        Lembrou-se, porm, o moo que Berta voltava-lhe as costas, em vez de virar-se para a porta, como era natural. Querendo verificar esse reparo, j no o pode, 
porque a sombra vacilara e desaparecera.
        Sofregamente buscava ele de novo enxerga-la; e no o conseguia, quando casualmente seus olhos caram sobre a face polida do espelho, que ornava o toucador 
de mogno.
        Uma surda exclamao, que o moo no teve tempo de sufocar, lhe prorrompeu dos lbios.
        - Ah!
        - O que ? interrogou Linda transida de terror.
        - No sei o que ela tem... Sentou-se... Parece que caiu.
        Estas palavras, proferiu-as o moo ofegante, recalcando as palpitaes violentas, que lhe talhavam a fala, e sem tirar os olhos do espelho do toucador.
        Fora ali que vira desenhar-se a imagem de Berta, sentada sobre o pavimento, com o talhe acabrunhado por sbito desmaio das foras; mas a cabea promovida 
por um rgido impulso, e as negras pupilas dilatadas em um olhar fixo, esttico, de vtreos lampejos.
        No se enganara Afonso; Berta se voltava com efeito para o interior, pois sua imagem refletia-se de frente no espelho. O que olhava, porm, ela com a vista 
assim pasma? Ansiava o moo por descobrir e no tardou muito.
        Na borda inferior do espelho, sobre o friso da moldura de mogno, surgiu um ponto que foi a pouco e pouco avultando. Era a cabea chata de um animal, coberto 
de trs ordens de escamas transversais dispostas sobre um couro de pardo fulvo mosqueado de preto.
        Um brado de horror escapou da gorja angustiada do mancebo, que recuando se arremessou com desespero, para espedaar a porta.
        Mas essa era da cabina; e desafiava as foras de muitos homens.
        Linda cara quase desfalecida sobre uma cadeira, ao ver a angstia e o espanto do irmo, o qual, reconhecendo a inutilidade de seus esforos contra a porta, 
se precipitara para o terreiro, com a idia de saltar pela janela no interior do aposento.
        Nesse momento, e como um eco de seu brado de terror, ouviu-se tambm do lado do canavial um grito, seno era uma gargalhada selvagem, semelhante ao grasnar 
do maracuj.

VIII

Letargo

Uma cena espantosa acabava de passar na alcova.

Com o rumor que fizera Berta ao bater a porta, na ocasio de entrar, a cascavel alou a cabea, e descobrindo o vulto da menina, desdobrou-se para escorregar ao 
cho.
Apenas tocou o soalho, enroscou-se rapidamente sobre si, na sombra que embaixo do leito projetava o cortinado, e enristou o colo como um dardo inserido na seteira 
de uma torre e pronto para o arremesso. Ao mesmo tempo a cauda romba e curta, vibrada por uma crispao nervosa, batia no pavimento a primeira das trs pancadas 
fatais que precedem o bote, chocalhando os cascavis com a sinistra crepitao, que gela a medula ao mais destemido.

Assim com o bote armado, esperou o insidioso rptil se aproximasse o inimigo, para de um jacto cravar-lhe os dois croques terrveis que manam o sutil e mortfero 
veneno.
Quando Berta, aproveitando-se do descuido de Afonso, conseguira fechar a porta, imediatamente correu  cama a fim de tomar o chapu que vira sobre as almofadas, 
e fugir pela janela, travessura que ela tinha em criana feito muitas vezes, e que se propunha a realizar agora antes de dar tempo ao moo para atalhar-lhe o caminho.

No meio do aposento, parou a menina de repente com um involuntrio estremecimento. Ouvira o som spero de um guizo estrdulo, tangido rapidamente; e sentiu logo 
um enjo produzido por acre exalao que se derramara no ar.

Atrados por um impulso misterioso, volveram-se os olhos de Berta, e caram sobre a boicininga, cujas pupilas fulvas, fulguravam na sombra, jorrando em ondas uma 
luz fosforescente, como as chamas sulfreas, que se levantam do seio da terra vulcnica e retalham o negrume da noite.

A fauce hiante, sangnea, se eriava com duas serrilhas de dentes aduncos e retorcidos como garras, e no meio dela agitava-se a lngua negra, hspida, dardejante, 
cuja ponta bfida ressaltava como impulsa por oculta mola de dentro de si mesma; pois servia-lhe de estojo a parte inferior.

Foi nesse momento, ao avista a cobra que o grito de terror escapou-se da boca de Berta. Mas s perguntas de Linda e de Afonso, se ainda as ouviu confusamente, no 
teve ela mais voz para responder-lhes que seus lbios estavam gelados.

Encontrando-se o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes se imburam e penetraram tanto um no outro, que no pode mais a vontade separa-los e romper 
o vnculo poderoso. Parecia que entre a brilhante pupila negra da menina e a lvida retina da cascavel se estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se o fluxo 
e refluxo das centelhas eltricas.

A mesma cambraia que retraiu o dorso flexuoso da boicininga espasmou o talhe grcil de Berta, como se uma fora nica regera a vida nessas duas organizaes. A 
estava produzida ao vivo a misteriosa identificao da mulher e da serpente, que deu tema ao potico mito da tentao.

Lentamente a cascavel afrouxava os anis em que enroscara o toro, at que se espreguiou ao longo pelo pavimento, pousando lnguida sobre a tbua a cabea chanfrada. 
Recolheu-se a lngua dentro da bainha, e esta desapareceu por baixo do focinho, que se abatera flacidamente sobre a mandbula.

Toda a fora vital da boicininga se concentrava no olhar, donde coava-se uma flama trepida, por entre as titilaes da membrana sutil, que reveste a retina da serpente. 
Encadeada por esse fio luminoso ao olhar cintilante de Berta, o medonho rptil parecia como deslumbrado por sbito lampejo.

Tambm a menina sofria a repercusso dessa influncia.

As pernas trmulas vacilavam; invadida por sbito desfalecimento, vergou ao peso do prprio corpo, e convolveu-se como a campnula que frange as ptalas para cerrar 
o clice e pender murcha sobre a haste.

Assim deixou-se Berta cair de joelhos e derreando sobre os calcanhares, foi preciso apoiar-se com a mo esquerda no soalho, a fim de suster o busto, que uma fora 
misteriosa impelia avante, como para prostra-la de bruos e colear-lhe o talhe.

Ainda assim no resistia de todo quela poderosa atrao. Com o pescoo distendido, a cabea lanada  frente, mostrava a nsia de arrastar-se para vencer a distncia 
que a separava da cascavel.

O desmaio da moa fora a princpio cheio de indizvel angstia; apoderou-se dela um incompreensvel pavor; queria fugir, e sentia-se elada a si mesma como a um poste 
de dor. Dir-se-ia que duas foras divergentes, duas naturezas em reao, lutavam dentro de sua alma e a dilaceravam, disputando-lhe o ser, como aves de rapina que 
brigam pelo cibo.

Uma dessas naturezas abatia-lhe a fronte, que a outra porfiava em manter excelsa; e estorcia-lhe o corpo feito para a estatura nobre e senhoril. Umas vezes, presa 
da estranha vertigem, via-se em p, diante de si mesma, imperiosa e cheia de desdm, a esmagar sua prpria cabea. Outras vezes transformada em vpera, eleva-se 
pelo colo da menina gentil, que ela era, e conchegava-se ao tpido calor de um seio virgem.

Afinal, com um movimento hirto estendeu Berta o brao direito para a cascavel, aberta a mo e crispados os dedos, no mpeto de tocar o rosto do rptil, ao qual tornou-se 
mais viva a trepidao do olhar.

Confrangendo-se, a boicininga propulsou de leve a cabea, como se arrastara um fio invisvel, e foi lentamente rojando para Berta. Nesse instante havia Afonso enxergado 
o rptil; e se precipitara horrorizado para despedaar a porta,

Entretanto Berta,  proporo que avanava para ela a boicininga, ia-se retraindo; erigia-se o busto, e ressurgia-lhe nalma essa elao que a desfere ao cu e que 
imprime na criatura humana a majestade do porte. Assumia a menina outra vez a fina tmpera de seu carter altivo e inflexvel.

Quando a cabea da cascavel roou-lhe a ponta dos dedos, um choque ntimo percutiu-lhe o corpo, e estorceu o toro da serpente. Mas passou instantaneamente; o rptil 
elando-se pelo brao mimoso, veio cingir-lhe as espduas, formando colar.

Com o toque desse brando serpear sentiu Berta a doura de uma carcia; a boicininga titilava de volpia ao tpido calor da ctis acetinada; e escondendo a monstruosa 
cabea na conchinha da mo que a menina recolhera ao seio, caiu no letargo.

IX

Transe

Enquanto rpidos corriam os ltimos acontecimentos, Brs erguendo-se no canavial, ainda atordoado da queda e da vertigem, saltou a cerca do ptio.

Por diversar vezes tentou sungar-se pela parede e trepar  janela; mas escorregava por falta de apoio ou salincia a que se agarrasse para alcanar o batente. Afinal 
de um salto enorme logrou o intento; e pode grimpar-se at o peitoril, onde agachou-se.

Ao ver Berta, sentada no cho, junto  cama, e enlaada pela cascavel, deu tremendo pulo o idiota, que travou da cabea do rptil como faria ao cabo de um chicote, 
e fugiu espavorido, soltando um berro de clera, e zimbrando o prprio corpo com a serpente que lhe servia de ltego.

Era o castigo que ele se infligia pelo susto causado a Berta e perigo de que a ameaara com seu desazo.

Subitamente arrancada ao encanto que a prendia, a menina correu  porta e abriu-a, lvida e palpitante de emoo. Linda atirou-se a ela para abraa-la; e logo depois 
chegou Afonso, que voltara ouvindo abrir-se a porta.

s impacientes interrogaes, Berta respondeu mostrando Brs, que rompia o canavial em uma corrida furiosa, vibrando o seu ltego vivo, a zunir pelos ares. Cheios 
de espanto, Linda  e o irmo seguiram com os olhos o vulto do idiota at que sumiu-se; e voltaram-se para obter de Berta a explicao daquela terrvel insnia que 
eles no haviam compreendido.

Berta porm tinha desaparecido.

Restabelecida da fascinao que sofrera, recordou-se a menina do motivo que a trouxera quela alcova, e receando ter perdido muito tempo, esgueirou-se ligeira pelo 
interior da casa para ganhar as plantaes e seguir o rumo que vira tomar pai Quic.

No fim do canavial ouviu ela um sussurro particular que parecia o zumbir de um grande besouro, e voltando os olhos para o lado donde trazia a brisa aquele zunzum, 
avistou acocorado a uma pedra, como uma intanha, o negro velho, que rosnava a sua montona lengalenga em gria africana.

- Psiu! fez a menina.

- Nh moa?

- Vamos depressa que j perdi  muito tempo.

Deitou-se a andar o paizinho e mais depressa do que se devia esperar da sua figura de arco de pipa. Apesar da toro que lhe vergara o espinhao como uma hstea 
de taquaruu, conservava ele ainda certa agilidade nas gmbias, que se moviam  semelhana das patas de uma guaiamu.

Sulcava a capoeira um trilho estreito, porm muito batido a julgar pela fita de argila socada e nua que serpejava,  guisa de um cip, entre a grama. Por a tomou 
Quic, e a menina o seguiu com tamanha impacincia que sua mo sfrega tocava amide o liso casco do negro como instigando-o a apressar o passo. Sua imaginao lhe 
representava Jo preso, algemado; quisera ter asas para voar.

Da capoeira desembocava-se em um vasto campo de cerca de meia lgua, regao da floresta virgem que lhe corria em volta, e cuja espessura j o machado havia desbravado 
do lado por onde vinham Berta e seu guia.

Quando se achavam os dois a meio da campina, ouviram longe o ribombo do trovo, o que era para admirar-se, pois  o cu estava lmpido, e no azul cristalino no se 
via capulho ou flocos de nuvens.

Entretanto o surdo trovo crescia e vinha rolando das profundezas da floresta, mas contnuo, incessante, sem as intermitncias dos roncos da procela. A terra, como 
percutida por violento abalo, tremia, reboando os ecos do estranho fragor.

De momento a momento condensava-se o hrrido estampido, que j parecia fremir na orla da floresta. De repente surdiram do seio desse ribombo e comearam a sulc-lo, 
outros rumores estridentes. Ouvia-se o estalo das ramas despedaadas, como se o pampeiro fustigasse a floresta; um spero grunhido e tambm um ranger de ossos, que 
trazia  mente espavorida os contos de cemitrios e duendes.

Involuntariamente o preto velho estacou, volvendo em torno de si um olhar aflito. Sbito pavor lhe transtornara as feies, repuxando as rugas da pele relha e borrando-lhe 
o negrume da ctis.

Surpresa com o estampido e assustada pela expresso de terror que viu no semblante de Quic, perguntou Berta:

- O que ?

- Queixada, respondeu o preto com a voz sumida.

Com efeito, da orla da selva rompia um bando de porcos do mato. Mais de cem desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriando as ruivas cerdas e afiando 
os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha, trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso arco de algum tamoio gigante.

Assim avanavam os ferozes queixadas, rompendo selvas, estraalhando quando encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a ngula bissulca das cem patas 
cadentes que batem o cho. Se o inimigo resiste ao primeiro mpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do arco se estorcem e a vara fatal cinge o msero, 
que tomba em pedaos, como a isca  flor de tanque piscoso.

Era medonho o aspecto daquela serra navalhada a se estender pelo campo afora com extrema rapidez. Berta compreendeu o perigo que a ameaava e horrorizou-se pensando 
no fim cruel que lhe fora reservado, e ali estava debuxado ante seus olhos com vivo e temeroso relevo.

Tinha-lhe ferido os olhos o sangue coalhado na belfa de uma parte dos queixadas. Pelo focinho, como pelas unhas dos mais ferozes, viam-se fragmentos de animais, 
que pareciam ces, e tambm resto de um despojo que bem podia ser de criatura humana.

A ltima esperana todavia ainda no desamparou o corao de Berta ante esse quadro hediondo. Corajosa como era, quis salvar-se alcanando um abrigo que a subtrasse 
 fria dos caititus. Mas na campina rasa poucas rvores perdidas se elevavam a trecho; dessas a mais prxima, ficava-lhe a cem passos, e j vergava rapidamente 
sobre esse ponto a ala esquerda da formidvel falange.

O impulso de Berta foi precipitar-se para aquele refgio e lutar de velocidade com os queixadas. Tinha confiana em suas foras, e contava alcanar a rvore antes 
das feras. Mas ao desferir a corrida, acudiu-lhe  mente o preto, que havia esquecido nas angstias daquele momento.

Abandonar o velho decrpito  fria dos animais, no lhe sofria o corao, e contudo uma voz impiedosa, a voz da conservao, lhe exprobrava o sacrifcio intil 
de sua existncia. H almas assim, que Deus apura no crisol da abnegao, e forma para se derramarem como a luz, o ar, o perfume.

Travando o punho de Quic, tentou Berta arrasta-lo em sua veloz corrida; no tinha dado vinte passos, que reconheceu a impossibilidade do violento esforo. O arco 
j se convolvia em caracol, fechando-a e a seu companheiro em uma espira sinistra, que cerrava-se de instante a instante como a constrio da jibia em torno  presa.

Estacou a menina; cada passo a aproximaria da morte, que a espreitava por todos os lados.

- Trepa na cacunda de Quic! disse o preto velho.

Com o olhar agradeceu Berta ao msero cativo, que na impossibilidade de a salvar oferecia ao menos esse meio de retardar-lhe o martrio, conservando-a suspenda nos 
ombros enquanto no o dilaceravam as feras.

Enfim j no  arco, nem mesmo cadeia, o que cerca os dois infelizes; mas um turbilho fulvo, que marulha, fossa, remoinha, grunhe, amolando os colmilhos, e batendo 
o cho.

Estreitou-se Berta em suas roupas, como a virgem crist no anfiteatro romano; e pondo os olhos no cu, esperou o martrio.

X

A garrucha

No era natural a arrancada de to numeroso bando de caititus por aquelas paragens, fora da mata cerrada e prximo de habitaes.

Houvera, porm, um motivo para essa alterao nos hbitos dos filhos bravios das selvas.

Fora aquele dia, vspera de So Joo, o que marcara Gonalo Pinta para atacar o Bugre e agarr-lo dentro da toca. Nesse intento e valendo-se da espionagem que fazia 
desde muito, combinara com Filipe um plano que no podia falhar.

O esconderijo do capanga ficava no mais intrincado da mata, entre as fraguras de uma penha que lhe servia de baluarte e prolongava-se atravs da floresta como a 
geba de algum monstro hirsuto.

Esse lado parecia a abrigo de qualquer ataque. Se da choa do capanga, embora dificilmente, se podia galgar o rochedo, era isso impossvel da outra banda em que 
a penha se talhava a pique, em abrupto alcantil.

Gizou, pois, o Gonalo que pela madrugada, Filipe com os companheiros ganhariam as cabeceiras da mata virgem. Ocultos pelas brenhas se aproximariam do penhasco e 
tratariam de tomar a sada do nico desfiladeiro por onde podia fugir o capanga.

Ao meio-dia, quando Jo Fera costumava descansar na grota, o Gonalo com uma troa de espoletas, pagos pelo Ribeiro, deitaria cerco pela frente, e o capanga, assim 
colhido, se entregaria vivo ou morto.

Partira o Filipe com sua malta  hora aprazada, e rodeou a floresta. Por segurana levava os cachorros que podiam servir-lhe para rastejar o inimigo no caso de escapula. 
A matilha, tomando faro ao fartum que trazia a brisa do fundo da floresta, colou (1) e, embrenhada pela espessura, levantou um bando de queixadas.
(1) termo de montearia: afundar-se pelo mato para descobrir e levantar a caa.

Acuaram as feras, voltando-se ameaadoras. Avisados pelos latidos, acudiram os caipiras que tentaram defender a matilha e desvencilha-la. Os queixadas, porm, estavam 
enfurecidos e arremeteram estripando os ces. Diante do perigo que corria, fugiu a gente; porm um dos companheiros, jarretado pelas terrveis navalhadas, tombou 
e num momento foi despedaado.

Ento o bando feroz, acossado pelos tiros que lhe desfecharam os caipiras, arremeteu atravs da floresta, grunhindo de sanha, e foi romper no campo onde se devia 
representar o ltimo ato do drama sanguinolento.

Resignada ao martrio, Berta erguera os olhos ao cu, pedindo-lhe asilo para sua alma pura prestes a desamparar a terra. Os porcos, removendo os queixos, j tocavam 
com as cerdas do focinho o babado da saia, aflado pela brisa.

Retiniu, porm, um brado espantoso, que reboou pelas crastas e penetrais da floresta como o berro medonho do sucuri quando surge  flor do imenso lago. Pvidos estancaram 
os queixadas, erguendo a tromba ao ar para conhecer donde provinha aquela ameaa.

Devorando a distncia na corrida veloz, saltando por cima dos magotes que encontrava em seu caminho, e s vezes fazendo do prprio lombo das feras cho onde pisar, 
Jo precipitou-se enfim no lugar onde Berta e o negro velho aguardavam a morte contritos.

Suspendendo a menina com o brao esquerdo, enquanto brandia o direito a longa faca apunhada, o vigoroso capanga, aproveitando-se do espanto das feras ante sua audcia, 
arrojou-se para a rvore mais prxima, onde poderia colocar a menina a salvo de perigo.

J ele transpunha a distncia, quando ouviu-se um grito dilacerante: o negro velho agitando convulsivamente os braos debateu-se no meio dos queixadas, como um nufrago 
no torvelinho das ondas, e estrebuchou.

- Jo! exclamou Berta angustiada, mostrando o corpo do africano que tombava.

- No!

Perseguido pelas feras, bem via o capanga que no tinha tempo a perder; a menor demora podia ser fatal. Os queixadas eram sanhudos e em numeroso bando. Se o envolvessem, 
tolhido como estava de um brao, corria grande risco Berta, a quem a morte dele Jo, longe de salvar, roubaria a ltima esperana.

Por isso recusou-se ao pedido da menina.

- Pois eu no o abandono!

Retorquindo-lhe por esse modo, Berta soltou-se do brao do Bugre, para correr ao negro, como se ela, frgil menina, pudesse valer-lhe naquele transe.

Preveniu-lhe Jo o impulso, e estreitando-a ao peito com fora, atirou-se em um arranco de desespero para o lugar, onde o msero Quic acabava de cair s focinhadas 
dos porcos. Abarcando-lhe o crnio com a mo robusta, o capanga arremessou-o longe, de um bolu, como faria com uma pedra.

- Foje, bruto! disse ele  ossada que varava pelos ares e que estalou entre os seus dedos.

E com a faca de ponta que um instante segurava nos dentes para dispor da destra, comeou a degolar e estripar os queixadas que o atacavam mais de perto e com sanha 
terrvel. Era muitos, porm; e toda sua pasmosa agilidade no bastava para resistir ao aluvio de feras que sobre ele crescia, assaltando-o por qualquer lado com 
redobrado furor.

Entretanto, pai Quic, caindo a vinte passos, onde o pinchara Jo, embora meio desconjuntado com o tombo, tinha-se arrastado para a rvore, e pode a muito custo 
iar-se pela rama a um galho mais rateiro, onde contudo estava a abrigo dos temveis queixadas, que lhe tinham retalhado o couro relho das canelas.

A refocilando na refocilando na egostica satisfao de se ver a salvo do perigo, que ameaava a outros, o paizinho contemplava o combate de Jo Fera com os queixadas, 
como se fosse uma divertida caada.

Quando, porm, mais recobrado do abalo reparou na multido dos animais bravios que envolviam o capanga, e na raiva com que investiam, o negro velho prevendo uma 
desgraa teve pena, e lanou os olhos ao redor com nsia, buscando a esperana de um socorro que ele, dbil e alquebrado, no podia dar.

Com efeito, j o sangue de Jo corria dos golpes, que recebera nas pernas, e embora cada um tivesse custado a vida a muitos inimigos, outros sucediam-se, e outros, 
sem a menor intermitncia. Era um ferir sem cessar.

Por vezes quis o capanga servir-se da mo esquerda, recomendando a Berta que se agarrasse aos ombros; mas curvado como estava para alcanar o rasteiro inimigo, e 
com a menina atravessada aos ombros para subtra-la ao furor de algum queixada, no se animara: temia que em momento de susto, ela escorregasse ao cho.

- Nhazinha! disse Jo de chofre esfaqueando sempre. Tire na minha cintura a garrucha.

Com a sua habitual vivacidade e petulncia dobrou-se Berta pela espdua do capanga, para arrancar-lhe da cinta a pistola, que forcejou armar, porm no conseguiu.

- Como , Jo?

- Ponha na minha boca, Nhazinha!

Armou o capanga a pistola com os dentes; e arrebatando-a rapidamente da mo de Berta, desfechou sobre os queixadas um tiro  queima-roupa, que os fez recuar de terror.

Aproveitou-se Jo desse momento para romper o crculo de navalhas que o ameaava e precipitar-se pelo campo fora, em busca da rvore.

Mas os queixadas, passado o primeiro estupor, arremeteram de novo na furiosa avanada.

XI

A furna

Em meio da penha, que atravessava a mata virgem, por entre o embastido da folhagem, fendia-se a estreita boca de uma caverna.

Era a furna de Jo Fera.

No tinha essa caverna traos de primitiva formao, quando o fogo subterrneo vazara o esqueleto grantico daquele fraguedo; nem mesmo provinha de algum aleijo 
vulcnico, desses que s vezes subvertem as entranhas da terra.

Antigamente o que havia ali era apenas uma grande laje, entalada na garganta do rochedo.

Uma semente de jeta, trazida pelo vento, caiu a numa greta da pedra e brotou. Cresceu a vergntea, mas encontrou a escarpa saliente da rocha que lhe ficava sobranceira, 
e foi insinuando-se por uma brecha do alcantil.

Estorcendo-se como um cip de umb, para acompanhar as sinuosidades do estreito lisim, afinal surdiu fora no alto do penhasco. Apesar de comprimido entre a escacha 
da rocha, o cepo nutrido pelo humo exuberante que depositava sobre a laje o enxurro do monte, medrou, inseriu-se por todas as fisgas de pedra, e fez-se tronco.

Um dia estalou o penhasco; e subitamente escalado, um estilhao do alcantil rolou sobre a laje. Amparada de um lado pela curva do tronco, e do outro retida por uma 
aresta da fronteira escarpa, a grande lasca ficou suspensa na altura de alguns ps, formando assim a abbada da gruta, fechada em torno pelos rochedos abruptos.

Como uma poderosa alavanca trabalhara o tronco robusto do jeta durante longos anos para escalar o penedo; mas este, por sua vez, caindo sobre o rijo madeiro, comeou 
a verga-lo sob o peso enorme.

Resistiu a rvore por muito tempo; afinal a sua copa frondosa que ensombrava a caverna reclinou-se para o abismo, onde no tardaria a despenhar-se, arrastando-a, 
o estilhao que ela escachara do rochedo e sustinha aos ombros.

Foi ento que Jo Fera,  procura de um esconderijo, descobriu a caverna, e querendo conserva-la, atochou uma pedra rolia entre a laje e o jeta, justamente por 
baixo do ponto onde assentava a abbada.

Desse modo, enchendo o vcuo que havia sob a volta do tronco tortuoso, e pondo-lhe uma escora, mantivera o capanga suspensa a grande lasca de rochedo; mas o seixo 
que servia de esteio, podia a cada instante com o peso romper-se ou escorregar esbarrondando a gruta.

Longe de inquietar, esta circunstncia agradou ao Bugre, que dela se aproveitara para a sua segurana, como ele a entendia.

Deitado na cama feita apenas de molhos de sap estendidos sobre a champa, Jo Fera com a cabea na escabrura musgosa do rochedo que lhe servia de almofada, via pela 
fresta da caverna quanto passava nas faldas como nos pncaros do penhasco.

Quando por fatalidade o ameaasse em seu covil tal fora armada que lhe tirasse os meios de salvao, no ltimo transe, perdida toda a esperana, bastar-lhe-ia deitado 
como estava meter o p com fora no seixo, para que este rolasse e partindo-se o tronco, o estilhao tombasse esmagando-o a ele e a seus inimigos.

Se antes, enquanto dormia tranqilo, a pedra se deslocasse com a dilatao do tronco, ou se alusse a base sobre que assentava, nenhum cuidado lhe dava isso. Para 
ele, Jo, a vida fora sempre um contnuo perigo; sua ndole precisava desse estmulo.

Poucos momentos depois da luta que travara com os caititus, chegava o Bugre  falda do rochedo, em cujo flanco estava a sua furna. Com alguns tiros mais conseguira 
livrar-se do bando de queixadas; e como um possesso deitara a correr para ali, em vez de refugiar-se em alguma das rvores prximas.

Atordoada com a velocidade da carreira e tomada ainda pelo susto do perigo a que escapara, deixou-se levar Berta nos ombros do capanga, sem resistncia, at que 
ele parou no sop do rochedo.

Ento desprendendo-se de seus braos e travando-lhe das mos com veemncia, exclamou:

- Querem-no prender, Jo! Fuja! Eles no tardam!

O capanga levantou os ombros desdenhosamente, e fazendo meno de afastar-se, todavia parou a alguma distncia, como se mo invisvel lhe sofreasse a vontade. Assim 
permaneceu com o corpo lanado, a fronte abatida, e a mo fechada a calcar o peito revesso.

- Voc no tem medo? replicou a menina vendo-o parado.

- Medo!... murmurou o Bugre. Eu tenho mesmo! E muito!

Com efeito bambeavam os msculos dessa organizao vigorosa e atltica; tremiam-lhe as curvas, e todo ele mostrava-se abalado por grande pavor, que derramava em 
suas feies e no seu gesto uma espcie de alucinao. Parecia que o assombrava temerosa viso ou que o esvairava algum horroroso pensamento.

- Jo, eu lhe peo, Jo, fuja!

- Sim... sim... balbuciou o capanga. Eu queria fugir... para bem longe... Mas no posso! No!

- Meu Deus, que tem voc?

Esta exclamao, a arrancara dos lbios da menina o espanto causado pelo aspecto medonho do Bugre que voltara-se arrebatadamente e cravara nela um olhar ardente 
e sombrio, como a cratera de um vulco.

Mal pensava Berta que naquele momento a ameaava outra fera mais horrenda, do que no era a terrvel cascavel fascinada por ela, e os sanhudos queixadas a cujas 
presas escapara um momento antes.

Seria ento meio-dia.

A terra abrasada pelo sol exalava o bafo incandescente de uma fornalha; e contudo sentia Jo Fera correr-lhe pela medula um calafrio. O contato do corpo gentil de 
Berta queimava-lhe ainda o peito amplo; mas era a lava que ferve no meio dos pncaros gelados dos Andes.

Tinha mpetos de atirar-se a Berta e s por um esforo inaudito conseguira conter o veemente anelo. Sua pupila fulva devorava as formas encantadoras; mas ele abaixava 
a cabea para no encontrar os olhos lmpidos da menina, onde irradiava uma alma to pura.

Finalmente arfou o Bugre, sacudindo as robustas espduas como um homem que dum arranco extremo rompe as cadeias que o prendem.

Depois fechou os olhos e avanou.

XII

O assalto

Ao dar o primeiro passo, voltou-se o Bugre rapidamente, para ver o que lhe fossava o calcanhar.

Era o bacorinho ruivo, que chegando naquele instante, esbaforido pela rpida corrida, focinhava os ps do capanga, estirando a tromba para o lado do campo, e soltando 
um grunhido particular, se no era antes um burburinho.

No hesitou Jo,  vista destes sinais. Tomando Berta nos braos outra vez, galgou aos saltos por cima dos calhaus e barrocos, agrupados na falda do rochedo, como 
os degraus de uma escada em espira; e sumiu-se com a menina no bojo da caverna.

Apenas o vulto do capanga desapareceu na sombra da gruta, ouviu-se farfalhar de leve o mato, que bordava as abas da penedia; e dentre a folhagem surdiram os canos 
de espingardas, cuja coronha parecia colada aos troncos mais grossos das rvores.

Houve um instante de silncio.

As armas, prontas a desfecharem, permaneceram imveis, talvez  espera de um sinal. Nenhum rosto ou figura humana assomou na cortina da floresta; nem mesmo se lobrigava 
qualquer vulto por entre a espessura.

Os assaltantes se tinham aproximado sorrateiramente, emboscados atrs do pau, saltando de um toco a outro, com receio da bala certeira, que o bacamarte do capanga 
podia mandar-lhes por entre as frestas da gruta.

Chegados  borda do mato, ficaram  espreita, com os olhos fitos na solapa, que servia de entrada  caverna, e as espingardas apontadas para aquele alvo aguardando 
um resultado, que no ousavam provocar.

To preocupados estavam de sua prpria segurana, que no repararam em um acidente importante. A boca da furna, pouco antes de uma escurido profunda, desvanecera 
um tanto; indcio de que, ou se abrira na caverna alguma fenda por onde penetrava a luz, ou se fechara a entrada com alguma lasca de pedra, na qual se refrangia 
a claridade exterior.

Passado longo trato nessa expectativa, soou enfim uma voz a gritar por detrs de grosso tronco de rvore:

- Entrega-te, bugre do inferno, seno morres!

No teve resposta essa intimao; mas a voz depois de curta pausa continuou a bradar:

- Chegou o dia!... Vais sentir o gonzo deste brao, e saber para quanto presta o Suuarana! Agora  que se quer ver a fama! Salta c para fora, caborteiro, se s 
homem!...

Calou-se um instante o Gonalo para escutar, e no ouvindo rumor na caverna, prosseguiu:

- Ests com medo, hein!... A valentia que arrotavas de papo cheio, fez vspora, no ? A coisa cheira a chamusco; e vais tratando de por-te de molho. Pois olha, 
desta vez escusa de estares a embromando, que no escapas, nem por artes do diabo.

Cada vez mais animado com o silncio e placidez que reinava na caverna como em seus arredores, o Pinta chegou a destacar-se do tronco da rvore, ao qual estava colado 
e lhe servia de guarita.

Agitando ento os longos braos e batendo no cho com a coronha da clavina, berrou ele:

- Ests filado mesmo, Bugre dos trezentos; e quem to diz sou eu, Gonalo Suuarana, que jurou cortar-te as orelhas, e aqui est para cumprir o prometido.

Ainda no teve resposta a arrogante bravata do Pinta. Mas um seixo desprendeu-se do flanco do penhasco e rolou pela fraga abaixo com grande estrpito, aumentado 
pela natural repercusso do som nas grotas e barrancos do serrote.

De um salto, digno de ona, que ele tomara por seu xar ou tocaio, o Gonalo alcanara o tronco protetor, e perfilou-se ao longo dele por tal modo, que no lhe aparecia 
fora a aba do chapu sequer, ou a mnima dobra do poncho.

Tanto ele, como sua gente, cuidou que fosse aquele o comeo das hostilidades por parte de Jo Fera; e com o dedo no gatilho, o olho da boca da furna, e o ouvido 
alerta para qualquer rumor, se prepararam para receber a investida do inimigo.

Bem viam que o Bugre no cometeria a imprudncia ou tolice de apresentar-se em face deles, na boca da furna, a descoberto, oferecendo-se como alvo aos tiros. Por 
isso, embora confiados no nmero, no deixava de invadi-los um terror vago com a lembrana de algum assalto brusco do capanga, favorecido pelos barrocos e fojos 
daquele stio escabroso, que ele devia conhecer como sua casa.

Todavia, depois que rolou a pedra do alcantil, se restabeleceu o silncio que sepultava constantemente esse ermo, e s era interrompido ento pelo zumbir das abelhas, 
ou pelo estalido das articulaes dos insetos a saltar sobre a grama.

- Qual! rascou o Gonalo com seu costumado entono. O cabra no se atreve! Ele conhece o degas; e sabe que eu no brinco.

- Mas desta maneira no se arrocha o cujo! acudiu um da troa.

- isso no! atalhou o Pinta. Aposto em como ele j se ps ao fresco, muito concho de si, porque pensa que pode escapulir. Mas sai-lhe a coisa s avessas, que l 
est da outra banda o Filipe com os outros camaradas.

- Bem pode ser; mas eu duvido. Que necessidade tinha ele de sair da concha onde est muito a seu gosto?

- L isso  verdade! Assim no se faz nada;  preciso desencafuar o bicho!

- Ento v l.

Deram os assaltantes uma descarga sobre a caverna, e no meio do estrondo dos tiros ouviu-se a voz aguda e estrepitosa do Gonalo Pinta, que mandava o assalto em 
berros formidveis.

- Avana, camaradas! Fogo! Matem-me este Bugre endiabrado! Depressa, antes que fuja o danado!

Apesar destas falas, o Gonalo no se resolvia sair fora da precinta da floresta; e o seu arrojo de ataque no ia alm de um passo distante do toco de rvore ao 
qual logo prudentemente se recolhia. Bem desejava ele que os outros executassem as vozes de mando independente de ato seu, mas no entendiam assim os camaradas que 
esperavam exemplo.

Cerca de uma hora decorrera nestas hesitaes, quando ouviu-se da outra banda da penedia uma descarga de espingardas; e ao mesmo tempo um urro medonho.

Aquele brado retroou pelos antros e solapas do rochedo, arrepiou os assaltantes e encheu-os de horror e espanto, porque era em verdade um grito pavoroso de furor 
e sanha.

Assim foi com a fala trmula e soturna que disse o Gonalo aos companheiros:

- Est seguro o bicho!

XIII

Luta

Penetrando na caverna, Jo Fera soltou dos braos a menina, e rolou um grande calhau para trancar a entrada.

 interrogao inquieta que lhe dirigira Berta, respondera ele com um modo brusco e um tom rspido.

- So eles.

Arrimando ento contra o alcantil o corpo, que sentia vergar ao prprio peso, submergiu-se o capanga em profunda cogitao. A conscincia desse homem era um antro 
medonho e tenebroso, onde eles raras vezes penetrava; e nessas ocasies confrangia-se de terror o corao, que nenhum perigo fizera nunca vacilar.

Berta, agitada por um receio que j se ia desvanecendo, mas viva e estouvada at mesmo nas suas comoes, estava espiando por uma fisga da rocha os movimentos dos 
assaltantes ocultos entre a folhagem.

Jo continuava absorto; e s vezes, seu olhar fincado no cho, e to pesado como um vergo de ferro suspenso pela extremidade, se levantava para cravar-se no talhe 
gracioso da menina, que meneava-se com vivacidade no esforo de alcanar a fenda do rochedo e enfrestar ela a vista.

Sentia o capanga revolto dentro em si todo seu ser, que bramia como o oceano proceloso, arrebentando contra as sirtes. Queria ele conter nas arcas do peito aquelas 
vagas impetuosas; mas era vo o esforo, que no tardava ser arrebatado por elas.

O toque suave do corpinho mimoso de Berta produzira nele uma embriaguez maior, do que no tivera quando pela primeira vez tomara o gosto  cachaa, ou aspirara o 
fumo do sangue.

Ele tinha sede; sede imensa, ardente, abrasadora, mas era sede de fogo: s chamas poderiam aplaca-la.

Um turbilho de pensamentos perpassava-lhe rapidamente pelo esprito sombrio, como nuvens de borrasca se acastelam em cu chumboso. A terra seca espera as primeiras 
gotas que a devem embeber; assim a alma de Jo buscava em cada um desses pensamentos blsamo para a dor cruciante que o dilacerava.

A imagem de Besita, que invocara do fundo de seu corao, para amparar a filha, contra sua loucura, e subtra-la  raiva que se apoderara dele, essa imagem querida, 
que adorara sempre, como uma santa, lhe aparecia agora, por um incompreensvel delrio, excitante e provocadora.

Depois lembrando-se como Besita fora arrebatada a seu amor por um crime, sem que ele a pudesse nem defender, nem vingar, associava esse horroroso acontecimento ao 
perigo que tinha pouco antes corrido Berta e ao qual sucumbiria se por uma casualidade no chegasse a tempo de socorre-la.

Como sua me, Berta se partiria deste mundo e o deixaria s, com aquele amor insano. Era preciso que ela lhe pertencesse, que ela a unisse  sua existncia para 
sempre, a fim de protege-la a todo o instante.

Ali estava a floresta; alm o serto imenso.

Ergueu-se o capanga; mas no teve fora de promover um passo. Berta voltara-se de chofre, e caminhava para ele risonha, embora com ligeira palidez nas faces. Colou-se 
Jo  rocha com tal mpeto que parecia embutido nela.

- Eles apontaram as espingardas para c! disse a menina. Venha ver, Jo!

E ela segurou com sua mozinha delicada o grosso pulso do capanga, a fim de traz-lo  fenda por onde estivera espiando. Deu o Bugre um salto espantoso, arrancando 
o brao dos dedos mimosos, como se estes fossem rijas tenazes que lhe triturassem os msculos com dores atrozes.

Algum tempo errou o capanga pela caverna, roando ou batendo pelos alcantis  semelhana da fera, que palpa os vares do crcere em que a prenderam. Dera ele tudo 
para ver-se naquele instante, longe, bem longe dessa furna, onde rugia a paixo indmita; e contudo no se resolvia a fugir.

Sucedeu cair seu olhar sobre o seixo que servia de escora ao tronco do jeta; e uma idia horrvel atravessou como um relmpago pela noite do seu pensamento. Lembrou-se 
de fazer saltar a pedra.

Desabaria o estilhao de rocha, que servia de abbada  caverna, esmagando a Berta e a ele; mas era justamente essa catstrofe, que lhe sorria, como um cu azul, 
no meio da sua terrvel alucinao.

A morte os uniria para sempre, livrava a Berta de uma desgraa e a ele de um atentado espantoso. A filha de Besita deixaria o mundo como sua me, pura e adorada 
por ele, mas sem amar a outro, sem condena-lo ao suplcio atroz que sofrera por tanto tempo.

Com os olhos fitos no recanto da caverna, estas cismas se atropelavam no crebro do capanga, que sofria nesse momento uma completa subverso do senso ntimo.

Atravs do delrio que o esvairava parecia-lhe que o seixo bruto animava-se, vivia, agitava-se; e ele, Jo, tornava-se uma coisa inerte, uma alma sem movimento.

Pouco antes o compelia um mpeto poderoso de precipitar-se para a pedra, agarr-la com ambas as mos, para atir-la ao despenhadeiro, derrocando dum jacto a caverna.

Agora, porm, era a pedra que arrojava-se para ele, travava de suas mos, e com elas arrancava-se dali, de onde estava, para aluir a gruta e sepult-lo vivo sob 
a pesada abbada.

E ele que reagia contra o impulso que o arrastava, agora pasmo e sucumbido abandonava-se quela obsesso. Involuntariamente, como um autmato, se aproximava do seixo, 
acreditando em sua insnia, que era o seixo e no ele, quem se movia.

Continuava Berta a olhar pela fresta, atenta s ameaas do Gonalo; e Jo, pasmo, sombrio, abatido, avanava lentamente aos trancos. J ele tocava o seixo, e curvava-se.

Nesse momento Berta soltou um pequeno grito, e correu a esconder-se junto do Bugre:

- Eles vo atirar, Jo! exclamou ela.

- Nhazinha tem medo de morrer? perguntou o capanga.

- Tenho, sim! respondeu a menina assustada.

A expresso de receio, que se desenhava em sua fisionomia, a salvou. Jo ergueu-se de um salto, arrastou o calhau que obstrua uma solapa do rochedo, por onde a 
caverna se comunicava com a prxima encosta, e fugiu horrorizado, levando consigo Berta.

Foi ento que vendo-o passar de relance pelo desfiladeiro, a gente de Filipe desfechou as armas; e o capanga urrou de sanha e furor.

Por atalhos s dele conhecidos, Jo ganhou a floresta e conduziu a menina at as plantaes da fazenda; a despediu-se dela com estas palavras, proferidas em profunda 
entonao:

- Nunca mais, Nhazinha, ande s por estes matos.

XIV

O beijo

Brincando e cantando, atravessava Berta os cafezais, j esquecida dos lances que passara, e contente por ter deixado Jo escapo.

Sobressaltou-a, porm, o ramalhar das rvores, agitadas por forte impulso; cuidando que a ameaava novo perigo, voltou o rosto para descobrir a causa do rumor.

Devia ser ameaador o que viu; pois desfechou numa carreira cega por entre o arvoredo, sem embaraar-se com as vergnteas a lhe baterem no rosto, e os gravetos que 
rasgavam a saia de seu vestido novo de cassa.

Amide olhava para trs e redobrava de ligeireza, sentindo-se perseguida por um inimigo que vinha sobre ela com extrema velocidade e no tardaria a alcana-la.

Com efeito j o estrpito dos passos no cho se confundiam; e soava a seus ouvidos o sussurro da respirao que resfolgava com o esforo da corrida.

Ouviu-se um grito de susto.

Colhida em sua carreira, a gentil menina estremecia entre os braos de Afonso, como a rola nas mos do travesso menino; mas no podia estanvar o riso brejeiro que, 
represo nos lbios mimosos, lhe estava borbulhando na covinha das faces e no gesto petulante.

- E agora! exclamou o rapaz apinhando os lbios num beijo papudo.

- Ai!

Soltando este chilro, a menina arrepiou-se toda, como para esconder-se em si mesma, e fechou os olhos.

Decorrido algum tempo, e admirada de no sentir na face calor algum, nem ouvir o estalo que esperava, abriu o cantinho do olho, e viu o camarada confuso, tmido, 
com a vista baixa e o rosto vermelho como um chich.

O brinco do rapaz, to desembaraado e atrevido, quando bolia com Berta em presena da irm ou perto da gente, agora que se achava s com a menina, a grande distncia 
de casa e num stio ermo, tomara-se de um sbito enleio, e mostrava-se constrangido.

Foi a muito custo e para disfarar o acanhamento que ele, desviando o rosto, disse  menina:

- Voc no me quer bem!

- Quero, sim! acudiu a moa que recuperara sua travessa iseno.

- E a Miguel?

- Tambm!

- Mas Miguel  quase seu irmo.

- E voc?

- Eu no! replicou vivamente Afonso.

O dito de Berta sem dvida o molestara; pois to prontamente e com tamanho calor o contestou ele. Ficou sria a menina, a qual lhe tornou j amuada:

-  sim!

- Mas... arriscou Afonso titubeando, os irmos... no... se casam, Berta.

- Porque no  preciso! replicou a travessa com um arzinho arrebitado, que enfeitiava.

- Como assim? interrogou o rapaz cujos dezoito anos se maravilhavam da importante descoberta feita pela menina.

- Pois ento! Os irmos no vivem juntos? No brincam diante de todo mundo, como ns fazemos? Quem no sabe que a gente se quer bem? Mas ningum fala mal por isso. 
Casar para que? Agora, aqueles que esto longe, que tem vergonha de se gostarem,  outra coisa; carecem perder o medo. Como Linda e Miguel! Estes, sim, precisam 
muito!

-  verdade!

- No v como ela anda sempre desconsolada e ele to macambzio?

- Ento ns, Berta... no precisamos? insistiu Afonso.

- No sei! Linda h de estar cansada de esperar-me! respondeu a menina com jeito de afastar-se.

Atalhou-lhe Afonso o passo.

- No deixo!

- Solte-me, Afonso! disse Berta querendo desprender o brao da mo do rapaz.

- D o que prometeu?

- Que sabido! No prometi nada!

- Ento eu tomo!

-  capaz? disse Berta em tom de desafio.

- Eu tomo mesmo!

E o magano enlaou com o brao a flexvel cintura da menina, que dobrou-se com a haste da gracola, para esquivar o rosto aos lbios cobiosos do saboroso encarnado.

- Eu grito! Disse ela.

- Que me importa.

- Por vida de D. Ermelinda, Afonso!

- No quer que eu tome  fora? Pois me d por sua vontade!

- Eu dou.

- Ento venha.

- Logo.

- H de ser j.

- Daqui a bocadinho.

- Assim no vale o ajuste. D ou no?

- Um s!

- Um para comear.

- Aonde?

- Espere, que eu lhe mostro!

- No quero mostras, fale.

- Aqui!

- Na boca? Logo no v!

- Que tem?

- Se quiser, h de ser no... no... na... Feche os olhos!

- Para que?

- Ento no dou!

- Voc quer me lograr?

- Palavra!

De arrogante que estava poucos momentos antes, tornara-se o Afonso novamente submisso, e tmido suplicava a carcia de que ameaara a menina, prestando-se humilde 
a todos os seus caprichos e negaas.

Fechou ele os olhos, e Berta cerrando-lhe por cautela as plpebras com a palma da mo esquerda, acenou um beijo, que derramou-lhe nas faces tpida fragrncia. Mas 
antes que os lbios tocassem a macia penugem, caiu-lhe sobre a orelha um piparote, que por ser de unha rosada e faceira no deixou de doer, tanto como di um espinho 
de rosa.

Quando Afonso, arrebatado ao enlevo da carcia que j libava no hlito perfumado, deu acordo de si, tinha-lhe fugido a menina dentre os braos, e uma risada fresca 
e lmpida trinava ali perto, entre as moitas.

Este logro abateu o gnio folgazo do moo. Em vez de correr aps a menina e desforrar-se da pea que lhe acabava de pregar, deixou-se ficar tristonho e aborrecido. 
Era o amor que assim esfumava com laivos de melancolia os brincos e travessuras da adolescncia.

Vendo o camarada ressentido, no se conteve Berta que o ficara espiando, partida entre o prazer da pirraa e o susto da desforra com que ela contava.

Aproximou-se compadecida; e com uma graciosa inflexo da fronte docemente enrubescida e uma gentil expresso de ternura e bondade, pousou os lbios na face do mancebo.

- Est; no fique zangado!

Estremeceu Afonso. A fronte reclinando com o enlevo da carcia repousou lnguida sobre a formosa cabea da menina, cujos cabelos anelados amaciava com a mo trmula. 
Assim o cedro alterneiro, se o cortam pela raiz, entrelaa as ramas da copa frondosa s grinaldas do cip florido.

Quanto a Berta, conchegada ao seio do mancebo, ria-se maliciosamente para disfarar o rubor; e lanava de esguelha um olhar brejeiro ao semblante do camarada.

De chofre repeliram-se um ao outro.

Miguel estava em face deles.

XV

Confisso

Miguel estava plido, que assustava; os lbios trmulos no podiam pronunciar uma palavra. Conhecia-se o esforo que ele empregava para conter o mpeto de sua clera.

Afonso ficara confuso; e com os olhos vagos e o gesto constrangido, cogitava um pretexto para retirar-se; mas nem um lhe acudia.

Foi Berta quem primeiro recobrou-se do sossbro.

- Que anda fazendo, Miguel?

- Vim procur-la. Em casa esto todos com cuidado.

- No tenha susto que eu no me perco! replicou a menina sorrindo.

- Voc no vem, Berta? perguntou Afonso.

- O senhor no veio s? Pode voltar do mesmo modo.

Aproveitou Afonso a despedida para afastar-se desse lugar onde em verdade no estava a gosto. Ainda indeciso, parando de instante em instante,  espera dos outros, 
encaminhou-se para a casa.

Berta, ficando s com Miguel, contemplava o semblante abatido do mancebo, e condoia-se da mgoa que tinha involuntariamente causado.

- Que tem voc, Miguel?

- Ainda pergunta, Inh?

-  porque eu quero bem a Afonso?

- No carece dizer; eu j sabia.

- Mas eu tambm lhe quero! disse Berta com encantadora singeleza.

- Como a ele? perguntou vivamente Miguel.

Corou Inh, lembrando-se do beijo dado na face de Afonso, o que ela nunca se animaria a fazer com o filho de nh Tudinha, apesar de ser este seu colao.

Tornou Miguel com um modo sentido e grave:

- No se pode querer bem assim, Inh, senho a uma pessoa: aquela que se escolheu para marido.

Berta soltou uma risada zombeteira:

- Como Linda quer a voc, no ?

- Tantas vezes que lhe tenho pedido para no repetir esse gracejo! Mas como sabe que ele mortifica-me, por isso mesmo no o esquece.

- Voc  um ingrato, Miguel! disse Berta com a voz queixosa e um suspiro que partia do ntimo d`alma. No para o amor que lhe tem!

- E sou eu s o ingrato?

- Se soubesse o bem que Linda lhe quer. Ainda hoje estava to tristezinha por sua causa, pensando que voc no gosta dela!... Mas eu consolei aquele coraozinho, 
e prometi-lhe que voc havia de confessar...

- Fez mal, Inh, muito mal.

- No tem pena daquela santinha?

- E de mim? Algum tem pena?

- Tenho eu, que hei de fazer tudo para que voc gosto s e s de Linda.

- No era mais fcil gostar um bocadinho de mim, que lhe quero tanto, Inh?

- Gosto muito; e por isso mesmo o quero dar  minha Lindazinha.

Fitou Miguel no semblante de Berta um olhar surpreso. As palavras da menina lhe pareciam remoques; e, todavia, era a voz repassada de tanto afeto e sinceridade!

Mais surpreso ficou vendo a efuso de meiguice e ternura que havia no rosto gentil, salpicado quase sempre de graciosa malcia.

- Obrigado, murmurou Miguel afastando-se com despeito.

- Escute, Miguel, disse Inh pousando a mo carinhosa no ombro do moo para ret-lo. Voc h de gostar de Linda!... Me promete, sim? Voc j gosta dela... H quem 
possa resistir queles olhos to doces, que esto bebendo a alma da gente. E a boquinha?...  um torrozinho de acar escondido em uma rosa! Quando ela ri-se, faz 
ccegas no corao! Do corpinho, nem se fala. Que cinturinha de abelha! E um ar to engraado, um andar to faceiro, que encanta!

Este esboo, Inh o fazia ao vivo, e no s com a palavra cintilante, mas com o gesto animado, e o requebro do talhe esbelto. Era ela a prpria cera, da qual a sua 
mmica ia esculpindo a esttua famosa de Linda, com as doces inflexes das formas, o terno volver dos olhos e o desbroche do mimoso sorriso.

Miguel fascinado, rendido, j no resistia com efeito; e nesse momento, pelo menos, ele sentia que amava Linda; mas essa Linda que ali tinha diante dos olhos, e 
no a outra que vira ao natural, tmida, com as plpebras cerradas, o lbio trmulo, e o gesto constrangido.

A mulher que ele adorava nos sonhos de sua juventude, o tipo de sua ardente imaginao, realizava-se naquela moa que vazara a inefvel ternura de Linda na graa 
e gentileza de Berta; e no era uma nem outra, mas a transfuso dessas duas almas em uma beleza sedutora.

Preso dos olhos ao lindo semblante da menina, e suspenso de seu lbio gazil e mimoso, foi Miguel seguindo-a, sem conscincia do que fazia.

Prximo  casa ouviu Berta uns risos e cochichos por trs da folhagem; e disfarando para no despertar as suspeitas de Miguel, aproximou-se da ramada, donde ela 
pressentira que a estavam espreitando.

E no se enganava. Linda, impaciente com a ausncia de Berta, no vendo chegar Afonso que fora em busca da travessa, tinha sado de casa a pretexto de passeio, com 
o fito de descobrir alguma coisa.

Em caminho encontrou o irmo, que recobrado j do acanhamento, ardia por dar expanso ao gnio alegre, por um instante sufocado. Escondeu-se o folgazo do Afonso 
com Linda para espreitar o que diziam Berta e Miguel.

To embevecido estava este na magia do sorriso da companheira, que apesar de caador, no percebeu o farfalhar das folhas agitadas pelo bulioso rapaz e o sussurro 
dos segredinhos de Linda no ouvido do irmo.

Ento, disse Berta para Miguel: confesse, voc gosta de Linda?

- Gosto! respondeu o moo com um sorriso.

- Muito?

- Muito!

Voltou-se Berta rapidamente e afastada a ramagem exclamou alegre, descobrindo o vulto de Linda:

- No lhe disse, Linda? Veja que no a enganei.

Linda corou; e Miguel nesse momento acreditou que a amava, pois a via ainda atravs do sorriso fascinador de Inh.

Dirigiram-se todos  casa. Berta com o brao passado  cintura de Linda, achava meio de aproximar a amiga a cada instante de Miguel, entrelaando as mos de ambos.

O Afonso com suas estrepolias aumentava a doce confuso de que se aproveitava Berta para estabelecer o contato das duas almas, que ela queria unir.

Assim chegaram  casa, onde j se aprestava o suntuoso banquete.

XVI

So Joo

No terreiro das Palmas arde a grande fogueira.

 noite de So Joo.

Noite das sortes consoladoras, dos folguedos ao relento, dos brincados misteriosos.

Noite das ceias opparas, dos roletes de cana, dos milhos assados e tantos outros regalos.

Noite, enfim, dos mastros enramados, dos fogos de artifcio, dos logros e estrepolias.

Outrora, na infncia deste sculo, j caqutico, tu eras festa de amor e da gulodice, o enlevo dos namorados, dos comiles e dos meninos, que arremedavam uns e outros.

As alas da labareda voluteando pelos ares como um nastro de fitas vermelhas que farfalham ao vento na riada cabea de linda caipira, derramam pelo terreiro o prazer 
e o contentamento.

No h para alegrar a gente, como o fogo. Nos estalidos da labareda, nas fascas chispando pelos ares, nas vivas ondulaes da chama a crepitar, h como um riso 
expansivo que se comunica  nossa alma e influi nela uma trepidao brilhante.

A luz  a vida; mas a chama  o jbilo, a cintilao do esprito.

Formosa perspectiva tem neste momento a fachada da casa das Palmas, assim iluminada pela fogueira.

Uma linha de jeribs corre-lhe em frente, moldurando com as verdes arcadas a volta das janelas, o que d ao edifcio graa e chiste especial; pois enfeita a simples 
arquitetura com os flores e recortes das palmeiras.

A meio terreiro, de um e outro lado da fogueira, se elevam dois mastros, pintados com listrar de escarlate e branco, traadas em espiral.

No tope do outro mastro uma grande bola, sobre a qual ergue-se vistosa boneca de pano, naturalmente cheia de plvora.

A festa da sala  cidad. Damas e cavalheiros tiram sortes, cerimoniosamente sentados em volta de uma mesa; ou danam quadrilhas e valsas figuradas; enquanto pelos 
cantos os velhos fazendeiros falam a respeito das carpas, da nova flor do caf, e das geadas, seu constante pesadelo.

No terreiro folgam os rapazes que acham mais graa na funo campestre, e em vez de consultar o livro do fado, confiam nos orculos da fogueira, saltando-a de corrida, 
e passando nela o ovo, que h de ficar ao relento  hora fatdica da meia-noite.

Entre estes l esto Afonso e Miguel, preparando-se com outros companheiros a mostrar quem tem mais certeira mo, para incendiar com um tiro a garrida boneca suspensa 
ao tope do mastro.

Muitas moas tambm fugiram da sala para acompanharem os folguedos dos rapazes, nos quais porventura acham mais encanto do que nas danas to montonas, quando no 
tm o sainete do amor.

A primeira foi Berta, e Linda a acompanhou pressurosa. Apesar da insistncia com que D. Ermelinda procurava entret-la na sua roda, a menina a pretexto de estar 
com a amiga, no saa do terreiro; e se alguma vez entrava na sala era para eclipsar-se logo.

- Quem h de ser o primeiro? perguntou Afonso armado com a sua clavina.

- Eu! responderam unssonas as vozes dos companheiros.

S uma no se ouvira; era a de Miguel; mas no fora esquecido seu nome. Linda o pronunciara timidamente entre um sorriso e um rubor; e Berta o repetira em voz alta:

- Miguel!

- Eu serei o ltimo! disse o moo com modstia, que porventura disfarava um desejo de primar.

Como ltimo podia algum dos companheiros priva-lo da vez, e impedi-lo de mostrar a sua destreza; mas tambm se nenhum lograsse tocar o alvo, maior triunfo alcanaria, 
conseguindo o que fora impossvel aos outros.

No era lano to fcil como parecia, embora para destros atiradores. Se a boneca apresentava boa margem  pontaria, s em um ponto, no peito cheio de plvora, podia 
a bucha da espingarda incendi-la; s roupas, molhadas pelo relento, dificilmente se comunicaria a chama.

Por isso diziam os rapazes a galhofar, enquanto preparavam as clavinas:

No corao da moa!

E todos ardiam em desejos de acertar, como um bom pressgio da chama que haviam de atear no corao das namoradas, durante aquela noite de risos e folgares.

Foi Afonso quem primeiro atirou.

- No acertou! bradaram satisfeitos os competidores.

- L est! gritou o atirador com ar triunfante apontando para a boneca.

De feito na saia de cassa branca aparecia uma centelha inflamada, que lanava de si algumas chispas, como fogo que se ateia. Durante alguns momentos os olhos dos 
rapazes estiveram presos daquele ponto luminoso, enquanto batia-lhes o corao com receio de que, incendiada a plvora, voasse a boneca pelos ares, ficando malograda 
sua esperana.

- Apagou-se! exclamou Berta.

- Quem lhe disse? retorquiu Afonso.

- Apagou-se, sim! acudiu Linda batendo as mos de prazer.

Em verdade a fagulha, que ardia na roupa da boneca, depois de bruxulear um instante, se extinguira de todo. O tiro de Afonso batera no tope do mastro; e fora apenas 
um morro da bucha que saltara na saia molhada pelo sereno.

Uma algazarra dos rapazes festejou a derrota de Afonso, que voltando-se para a irm, disse-lhe  meia voz, fingindo-se agastado:

- Est muito contente, hein! Cuida que h de ser Miguel? Pois v perdendo a esperana!

Linda respondeu-lhe com um momo gracioso, enviando um sorriso a Miguel, que estava a seu lado, entre ela e Berta.

Assim  que me paga, eu ter torcido por voc!

Pois no; foi voc mesmo que me encaiporou!

Continuou o folguedo; todos os rapazes atiraram sucessivamente e com vria sorte. Uns acertaram na boneca, mas no conseguiram incendi-la; outros apenas se lhe 
aproximaram; e muitos andavam to por longe que pareciam atirar  catacega. Estes eram apupados com estrepitosas gargalhadas e toda a sorte de motejos e gritaria.

Chegou por fim a vez de Miguel.

O caador recebeu a clavina das mos de um companheiro; carregou-a com a maior presteza, e levando-a ao ombro, desfechou o tiro sem hesitao.

Um jorro de chamas esguichou do tope do mastro. A boneca incendiada voava pelos ares, esfuriando aljfares azuis, verdes e escarlates, que listraram a treva da noite 
e correram pelo espao trmulas e cintilantes como lgrimas de estrelas.

- Bravo! gritaram em coro os rapazes.

- Viva o Miguel! bradava Afonso abraando o amigo.

As moas batiam palmas, chilrando de folia e contentamento; sobretudo Berta, que parecia uma criana, a dar piruetas no terreiro, estalando castanholas nos dedos 
e danando o fado com Afonso.

Linda ficou sria; mas sua alma coada em um olhar inefvel embebeu-se no semblante de Miguel.

XVII

Cravo branco

Ainda no se tinham desvanecido as emoes do primeiro preo, que outra sorte mais engraada punha em alvoroto a rapaziada.

A bola que servia de tope ao mastro, e sobre a qual estava pregada a boneca, era oca, e formava uma espcie de cabaz cheio de flores, frutos, confeitos e outras 
galanterias para quem fosse capaz de alcana-las trepando pela haste do pinheiro.

No era pequena faanha essa; pois alm da altura, o pau fino e rolio no dava jeito a que os rapazes se escorassem bem sobre os joelhos para com o impulso dos 
braos se irem iando  guisa dos marujos.

Este folguedo, reminiscncia de antigos jogos de nossos avs, e ainda em voga em outros pases com o nome de mastro de cocanha, divertia muito os rapazes, pelo seu 
chiste e novidade.

Se sucedia algum, apesar de seus esforos, escorregar de repente pelo pau abaixo quando estava j bem prximo de atingir a meta; ou se outro mais lorpa no conseguia 
suspender-se do cho, e ficava a patinar ao p do mastro, tentando debalde sungar-se; eram chascos e risadas estrepitosas, que festejavam o malogro da porfia.

Mas nem por isso desanimavam os rapazes; e repousadas as foras tornavam  empresa, estimulados pelo desejo de esquecer a anterior derrota, e conquistarem uma flor, 
ou qualquer outra prenda que ofertassem  namorada.

Aproximando-se do mastro e rodeando-o, tinham os moos deixado ss, no canto do terreiro que antes ocupavam, Linda e Miguel.

Os dois estavam prximos e quase se tocavam; por um impulso comum, ambos fugindo  grande claridade, haviam procurado o tronco de uma palmeira, cuja sombra derramava 
sobre eles doce crepsculo, enquanto a haste servia-lhes de abrigo contra os olhares curiosos.

Miguel ainda bebia o sorriso de Linda; e ela inebriada pelo triunfo que o moo alcanara, deixava-se libar pelos ternos olhos, como a flor acariciada pelo vento, 
que se dilui em perfumes.

Logo, porm, que o afastamento dos companheiros deixou-os ss, insensivelmente se retraram. O brao de Miguel, que sentia ao roar dos folhos da manga de Linda 
uma sensao deliciosa, estremeceu; de seu lado vexou-se a menina com esse frolo sutil das pregas de seu vestido, que antes ela recebia como uma doce carcia.

Quando a presena de tantas pessoas os separava, suas almas se estreitavam no olhar, se conchegavam no sorriso; e queriam influir-se uma na outra. Agora que nada 
se interpunha a elas, o isolamento as assustava; tinham medo de si mesmas.

- No vai tambm ganhar sua flor? disse Linda indicando o mastro com um aceno de fronte.

- Quer uma? perguntou Miguel com gesto de reunir-se aos companheiros.

Ressentiu-se a menina daquele pretexto do moo para retirar-se, arrependida de o ter oferecido. Mas pensava que ele no aceitaria to pronto.

- Para qu? Eu tenho esta que  to bonita! acudiu ela mostrando um cravo branco, que lhe enfeitava o trespasse do lindo corpinho de cassa. No ?

- Muito! balbuciou Miguel que vira no a flor, mas a polpa rosada do colo mimoso, debuxando-se entre as preguinhas do decote.

- Sabe o que significa?

- No.

Frisaram-se os lbios vermelhos da menina para soltar a palavra; mas como as ptalas de uma flor que se desfolha, emudeceram deixando apenas escapar o perfume. Reclinou 
ela a fronte vergonhosa e repetiu dentro dalma o que se no animara a dizer.

Como se operou to rpida a transformao de Miguel que at a vspera esquivo e reservado com Linda, agora preso de seu encanto, se engolfava na ventura de sentir-se 
querido, e esquecia Berta, que ainda pela manh lhe cativara o corao?

O mesmo  perguntar a flor como nasce. A semente que o vento lana na terra, sabe-se acaso, porque enfeza ou brota? s vezes l fica na eiva do rochedo, tempo esquecido, 
at que o cu lhe manda uma rstia de sol e uma gota de orvalho.

Assim aconteceu com Miguel. O germe desse amor, h muito o guardava no corao, desde que admirara pela primeira vez a beleza de Linda. Mas o afastamento natural 
em sua posio inferior; as suscetibilidades prprias de um carter nobre; e, mais ainda, a seduo irresistvel que exerciam em sua jovem imaginao a graa e lindeza 
de Inh, tinham sopitado esse amor  nascena.

Quisesse Berta que Miguel no amaria seno a ela, e esqueceria de todo a imagem de Linda. Mas a menina, em vez de aceitar para si o afeto, s o queria para a amiga, 
cujo segredo ela pressentira havia meses.

Desde ento se desvelara Inh com extremosa solicitude em grajear para Linda a ternura de Miguel, e fazer a ventura de ambos. Nesse emprenho encontrava um obstculo, 
que era sua prpria gentileza, na qual se enlevava o mancebo; mas dela mesma o seu tato delicado soube tirar partido.

A beleza de Linda era para a imaginao ardente e potica de Miguel uma linda imagem sem calor e sem luz; esttua de jaspe imersa na sombra. Berta o compreendeu; 
e fez de sua alma a centelha que devia animar o mrmore.

Inspirado artista, ela tirou de sua graa, como de uma rica palheta, as cores mais mimosas para retocar a figura vaga e suave de Linda. Vazou nos lnguidos olhos 
da amiga as rutilaes de sua pupila brilhante; e enflorou com o seu feiticeiro sorriso os lbios onde se aninhara o suspiro.

De cada vez, um trao do ideal se estampava na fantasia de Miguel, que muitas vezes surpreendia sua alma na contemplao dessa virgem desconhecida, em que a formosura 
de Linda se perfumava com a faceirice de Inh.

Naquela manh, tinha Berta tentado mais uma vez a transfuso de seu esprito gentil na serena beleza da amiga, e ento a favoreceu o acaso, fazendo que Linda se 
aproximasse, e que Miguel ainda fascinado pelo retrato que ela esboara, visse graciosa e encantadora a virgem dos seus amores.

A confisso arrancada a Miguel transfigurou Linda como por encanto. Sua expresso melanclica embebeu-se de um jbilo sereno como o alvor da manh; desprendeu-se 
o gesto da timidez que dantes a atava, e tomou inflexes ternas e apaixonadas. De toda sua pessoa manavam santos eflvios do amor feliz, que lhe teciam de luz e 
perfume uma aurola celeste.

Miguel embebeu-se na adorao dessa beleza, que se revelava pela primeira vez  sua alma; e o enlevo durava ainda no momento em que se trocava com Linda frases truncadas.

A moa havia tirado do seio o cravo branco e respirava-lhe o aroma, roando-o pelos lbios.

- No disse o que significa? insistiu Miguel.

- O senhor sabe.

- Eu no! respondeu o moo com um sorriso.

- Sabe sim!

Houve uma pequena pausa, durante a qual a palavra adejou nos lbios de Miguel, enquanto na alma de Linda j ressoava a sua doce melodia.

- Casamento? balbuciou uma voz submissa.

Linda velou-se em uma nuvem de rubor. Com a confuso, naturalmente escapou-lhe a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mo trmula da moa no recebeu 
seno a doce presso.

- Quebrou-se o talo! disse ela rapidamente.

Era um motivo para rejeitar a flor, que no podia mais prender no decote, e o pretexto para d-la ao moo em penhor de sua ternura. Fechando na palma o cravo, Miguel 
levou-o aos lbios e o beijou com efuso.

Berta, que a distncia contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia, sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho. Mas a mo comprimindo-o 
rpida, sufocou o turture queixume que se desprendia em um suspiro.

XVIII

Revelao

Berta erguera-se, relanceando em torno um olhar sfrego.

O que procurava ela?

Um brinco, um prazer, uma alegria, onde se refugiasse da tristeza que ia apoderar-se de sua alma. Mas, no meio daquela festa que a envolvia, ela sempre to jovial, 
ela em cujo lbio o sorriso borbulhava como onda perene, no encontrou um folguedo que a atrasse.

Descobrira, porm, acocorado contra o ressalto do alicerce, Brs, que roia um sabugo de milho assado, cujo gro j tinha devorado. Nessa ocupao, esgrimindo os 
queixos e coaxando a lngua, no desprendia ele os olhos do rosto de Berta, cuja melancolia se refletia na obscuridade de sua alma, como se reflete na face da terra 
a sombra da nuvem que intercepta os raios do sol.

Chegou-se a menina pressurosa para junto do idiota; o conforto, que no encontrara nas folias que a cercavam, ali estava na afeio generosa e compassiva que lhe 
inspirava aquela msera criatura. O desnimo a invadira, acreditando estar s no mundo; mas j no o sentia, pois sua alma tinha ainda uma dedicao para a ocupar, 
e sacrifcios em que derramasse os mananciais inexaurveis de sua bondade e ternura.

Afagou o idiota com as palavras meigas, de que seu lbio tinha o condo; e ficou ao seu lado para o consolar do isolamento em que o deixavam. J que no podia caber 
quele ente infeliz outro quinho nessa noite de tamanho regozijo para todos, ao menos lhe reservava ela seu carinho.

No se teve, porm, a menina que no volvesse outra vez os olhos para o lindo grupo formado pelos dois namorados. Linda, com os estremecimentos ntimos da planta 
que a manh orvalha, e a fronte de leve pendida, embebia-se na palavra apaixonada de Miguel, que reclinava-se por detrs da haste da palmeira para falar-lhe ao ouvido.

De novo aflou o seio de Berta com um suspiro, que ela, como ao primeiro, recalcou; mas j no pode desprender o pensamento das cismas em que se enleara, a ponto 
que no viu o Brs esgueirar-se pela sombra e sumir-se.

Que passava na alma da menina?

No fora ela quem aproximara Miguel de Linda, e com admirvel pacincia durante meses urdira a teia delicada que envolvia os dois namorados?

No era obra sua esse amor, que ela prpria embalara como um filho querido, nutrindo-o de suas carcias, enfeitando-o com seus encantos, vivendo e sorrindo-se nele?

Como agora, obtido o xito de seus desvelos incessantes, em vez da satisfao de ver realizado um voto querido, confrangia-se-lhe o corao com o quadro suave do 
mtuo afeto, que ainda naquela manh luzia-lhe na imaginao qual doce esperana?

Parecer excntrica e at incompreensvel esta situao da alma de Berta naquele instante: entretanto nada mais lgico e natural.

Tinha a menina por Miguel uma dessas afeies de infncia, puras, calmas e serenas, primeiros botes, dos quais ningum sabe que flor vai sair, se uma doce amizade, 
se uma paixo ardente.

Adivinhando um dia que Linda gostava do moo, em vez de zelos sentiu contentamento de ver querido seu irmo de leite e companheiro de infncia. Talvez que ela com 
sua ingnua admirao bafejasse, no corao da amiga, aquele afeto nascente, retocando com os lumes de sua graa o nobre perfil do mancebo.

A natural esquivana de Miguel trouxe as desconsolaes de Linda, que se julgava desdenhada, e vertia no seio da amiga a confidncia dessas mgoas. Agoniava-se Berta 
com essas nvoas de melancolia, que ensombravam a fronte da moa; e, para desvanece-las, ia pedir um olhar, uma palavra ao mancebo.

Apesar de ter recebido uma instruo regular, que sua inteligncia brilhante desenvolvia com o estudo possvel ao lugar onde habitava e s suas condies de fortuna, 
conservava Miguel certos hbitos que, durante a infncia, se incrustam na individualidade, da qual dificilmente os arranca mais tarde a prpria vontade.

Esses cacoetes de caipira molestavam o tato delicado de Linda, a quem a educao esmerada, que recebera de sua me, dera a fina flor das maneiras e imprimira o tom 
da mais pura elegncia.

Quando Miguel a tratava de mec, ou enrolava diante dela a palha de um cigarro, o corao da menina apertava-se com agastura indescritvel, e ela sofria desgosto 
igual ao que lhe causaria uma ndoa caindo no mais bonito e faceiro de seus vestidos.

A repetio dessas pequenas decepes acabaria sem dvida por delir completamente nalma de Linda a imagem de Miguel. Berta o percebeu, e desde ento empenhou-se 
em desbastar as asperezas que magoavam o melindre da filha de D. Ermelinda.

No lhe era difcil transmitir os toques da elegncia que, ao contato de Linda, prontamente se comunicara  sua alma, de to pura gema como a dela, embora no a 
polisse o amor de me prendada e rica.

A dificuldade estava em sofrer o gnio esquivo de Miguel esse desbaste de costumes e maneiras, que se tinham impregnado em sua natureza, que faziam parte de sua 
pessoa, e o tinham formado  semelhana de seus patrcios e camaradas. Mudar esses modos era quase renegar o exemplo de seu pai, as tradies de sua terra, e envergonhar-se 
de ser paulista, o que bem ao contrrio lhe inspirava um justo orgulho.

No resistiram, porm, estas suscetibilidades ao encanto de Berta. Soube ela provar a Miguel que, antes de ser paulista da gema, era homem e devia render preito 
 beleza e ao capricho da mulher. Com que raciocnios chegou a essa concluso, bem se adivinha; o crebro feminino  uma roda movida pela manivela do corao.

Nessa metamorfose de Miguel, cuidou Berta que apenas a movia o desejo de contentar Linda; mas, sem o sentir, era tambm levada pelo prazer recndito de ver seu irmo 
de leite subir na estima geral e primar entre os outros moos.

Queria-lhe muito bem, a ele, como era ento; porm, mais lhe havia de querer, quando fosse o que ela desejava.

Tudo isso fizera Berta para que Miguel e Linda se amassem; fora ela quem, diligente abelha, fabricara, sugando as flores de sua alma, aquele mel perfumado, de que 
os dois amantes libavam a fina essncia.

Mas iludira-se!

Enquanto aquele amor flua e reflua nela, como uma onda que banhava seu corao; enquanto Linda e Miguel se queriam dentro de sua alma, atravs de seu olhar ou 
de seu sorriso, identificara-se por tal forma com essa afeio, que a sentia duplamente, por si e pela amiga.

Era ela quem amava Miguel; mas por Linda. Era Linda a quem Miguel amava; mas na pessoa dela, Berta.

Agora que na delcia das primeiras efuses, nesse egosmo sublime do amante que se convolve em si para dar-se todo ao objeto amado; quando Miguel e Linda a esqueciam, 
e, absorvidos no mtuo afeto, a deixavam s, erma de seu pensamento, rf de seu mtuo afeto, ela suspirava.

E esse suspiro era a tmida confidncia que lhe fazia o corao, de um amor que ela sentia pela vez primeira, no momento de o perder para sempre!

- Agora vou eu! gritou Afonso perto do mastro.

Ao mesmo tempo soava o alarido dos rapazes, e Berta corria arrebatadamente para Linda.

Alguma coisa de extraordinrio sucedera.

XIX

A lgrima

No vo de uma janela conversava Lus Galvo com alguns de seus convidados, entre os quais havia mais de um antigo camarada, rapaz de seu tempo.

Voltados para o terreiro, observavam de longe as folias, de que tinham saudades; e muitos porventura invejavam ainda aos moos o prazer das estrepolias, que j lhes 
permitiam a gravidade dos anos e a rijeza dos msculos.

- O Afonso  endiabrado!

- Tem a quem sair.

- Oh! Se tem! C o Lus foi de truz!

- Um magano chapado!

- Como se enganam! retorquiu Lus a rir. Sempre fui da pacata!

- Da sonsa, talvez!

- O que sei  que no nosso tempo ningum punha p em ramo verde!

- Mas no pescava seno peixes.

- Que histria esto vocs a a inventar? tornou o fazendeiro com disfarce.

- E a filha do Guedes, lembra-se?

- A que o marido abandonou?

- A Besita, sim!

- Essa no! exclamou involuntariamente Galvo contrariado.

- Ora negue! Antes e depois.

- Do parto?

- Do casamento!

- Que tal o cujo? exclamaram diversos.

Uma risada geral acolheu a pilhria, que perturbou o fazendeiro.

- Mudemos de conversa! disse ele com algum vexame.

D. Ermelinda que se tinha aproximado da janela vizinha,  procura da filha, apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de corao.

Esquecendo-se do que a trouxe  janela, submergiu-se em uma triste cogitao, com a face apoiada na palma da mo; nem viu mais o que se passava no terreiro, ali 
quase em face dela.

Miguel continuava a falar a Linda, sobre coisas indiferentes. Mas no escutava a menina essas palavras sem sentido naquele momento: toda ela repassava-se da voz 
palpitante que penetrava-lhe a alma como a suave melodia de um hino de amor.

Avistara Berta a figura de D. Ermelinda; e receando estranhasse ela a intimidade que to rapidamente se estabelecera entre a filha e Miguel, correra para disfaradamente 
avisar  amiga da presena da me, e evitar assim aos dois namorados uma contrariedade.

Outra vez se esquecia de si para lembrar-se de Linda? Ou sua alma generosa desforrava-se por aquele modo, com mais um impulso de abnegao, do esquecimento dos dois 
amantes?

Foi nessa mesma ocasio que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro, o qual oscilava com fortes vibraes e ameaava partir-se ou arrancar-se do cho, ao peso 
excessivo que de repente lhe carregara a ponta.

No momento em que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brs encarapitado no 
cimo a que se agarrava com unhas e dentes.

O isolamento e a melancolia de Berta haviam impressionado o idiota, que ruminou em seu bestunto sobre a causa dessa mudana. O rude engrolo de idias que amassou 
no crebro grosseiro, no obteria ele jamais exprimir; nem  possvel descreve-lo,

A maior alegria era junto do mastro onde galhofavam os rapazes, e as moas palpitavam  espera da prenda que seu apaixonado alcanaria para ofertar-lhe. Til se afastara 
e parecia triste; ela, sempre travessa e contente. Devia de ser porque tambm cobiava as galanterias que estavam no cabaz preso  ponta do mastro.

Desde ento a animalidade do estafermo se resumiu em um s desejo, que tornou-se em nsia ou desespero de subir ao tope do mastro. Mas como, se ele no se animava 
a aproximar-se da roda dos rapazes, com receio da vaia que sofreria? Alm de que, bem sabia que suas pernas trpegas no eram para aquele rduo esforo.

Surdiu-lhe uma lembrana. As janelas do mirante ficavam sobranceiras ao tope do mastro, e a ltima delas justamente defronte, embora em distncia que um homem gil 
no poderia transpor de um salto.

Que lhe importava! Ele era um louco; e, para levar ao cabo temeridades desse jaez, tinha a grande vantagem de sua brutalidade. Aproveitando-se da distrao de Berta, 
escapou-se de seu lado; sorrateiro ganhou o interior da casa e subiu ao mirante.

Contava com as alas das canastras de Galvo, chegado  tarde de Campinas. Atou uma das cordas  dobradia da janela, e seguro s pontas, saltou fora, empurrando-se 
da parede com os ps e embalando-se nos ares.

Em um dos vaivens, soltando a corda, pode abarcar o tope do mastro, e coroa-lo com o improvisado cocuruto que encheu de pasmo aos rapazes; mas arrancou-lhes depois 
boas gargalhadas.

Com a fora do arremesso, o mastro percutido at a base cambou, e sem dvida iria ao cho, esmagando o Brs na queda, se Miguel advertido pelo alarido, no visse 
o perigo e corresse ainda a tempo de evita-lo.

Em risco de ser tambm esmagado, o moo escorou com os braos o pesado madeiro, que tombava, e deu tempo a que os outros rapazes, rompendo o enleio do espanto, e 
animados pelo exemplo, sustivessem o seu esforo.

J, porm, o Brs, que havia escorregado at o meio do mastro, se deixara cair no terreiro, e corria para Berta com as mos cheias de flores e mimos, que havia conquistado 
com a sua temeridade.

Estava Berta junto de Linda, a quem arrancara de seu doce enlevo; mas no a tempo de evitar que a me percebesse a sua intimidade com Miguel. D. Ermelinda descobrira 
os dois namorados, justamente quando Miguel beijava outra vez com fervor o cravo branco, e a mo mimosa de Linda, querendo tomar a flor, deixava-se colher entre 
as mos trmulas do moo.

Despertada como a dos outros pela algazarra, a ateno de Berta se voltara para o mastro, onde passava o incidente, que ela acompanhou com ansiedade. Quando em face 
dela parou o Brs, que mal se podia suster de comoo, e lhe estendia desgarradamente as mos cheias de prendas, sem fora de balbuciar uma palavra, o corao da 
menina exultou.

O aborto humano; a figura estrambtica e ridcula; o monstrengo, cara como o disfarce do arlequim, e descobrira a feio mais nobre da criatura. O que Berta viu 
foi um corao, e maior ainda e mais sublime, no seio da brutalidade que o constringia.

Abraou a menina com veemncia ao pobre sandeu, e sentindo mida a face, enxugou nos pelos speros da ruiva melena uma gota que empanara o brilho de seus olhos cintilantes. 
Outras havia chorado, mas foram bolhas dgua: lgrima, era aquela a primeira.

Depois comeou ela a enfeitar-se com as flores que lhe trouxera o idiota, prendendo-as pelo talho do vestido e entrelaando-as nos cabelos. No trocaria nesse momento 
os arroubos que, havia pouco, invejara a Linda, pelo jbilo dessa tosca demonstrao de um amor, que no tinha para exprimi-lo seno os esgares de um parvo, e cujo 
sorriso era um repulsivo engrimano.

Adivinhava-lhe o instinto que no havia afeto mais puro, extreme e sincero do que o desse corao trancado a todas as iluses do mundo, o desse afeto de uma alma 
que abortara?

Linda, que observava sorrindo a faceirice de Berta e a ajudava a prender as flores nos cabelos, voltou-se  voz de sua me:

- Faa o favor de no sair mais da sala, minha filha, disse D. Ermelinda.

Velava o olhar e a voz da senhora um ressumbro de triste severidade, que anuviou o corao de Linda.

Nesse instante um foguete que rasou a terra, listrando na escurido da noite uma faixa de luz, destacou ao longe na fmbria da mata um vulto de homem.

Berta reconheceu Jo Fera.

XX

O samba

 direita do terreiro, adumbra-se na escurido um macio de construes, ao qual s vezes recortam no azul do cu os trmulos vislumbres das labaredas fustigadas 
pelo vento.

Do centro dessa mole negra surge um longo penacho de fumaa, cujo cabo se tinge de escarlate com as lnguas da chama quando ala-se. Escapa-se tambm um borborinho 
formado no s pelos ressolhos da labareda e crepitaes da lenha, como por vozeio e vivas denvolta com os retumbos soturnos do jongo.

 a o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande ptio cercado de senzalas, s vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portes que o fecham 
como praa darmas.

Em torno da fogueira, j esbarrondada pelo cho, que ela cobriu de brasido e cinzas, danas os pretos o samba com um frenesi que toca o delrio. No se descreve, 
nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se.

Tudo salta, at os crioulinhos que esperneiam no cangote das mes, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham  guisa de 
sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhao do pai, negro fornido, que no sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao cho e comeou de 
rabanar como um peixe em seco.

No furor causado pelo remexido infernal, alguns negros arremetiam contra a fogueira e sapateiam em cima do borralho ardente, a escorrer do braseiro.

Entre estes o primeiro e o mais endiabrado, foi Monjolo; tomando por sua parceira de batuque a prpria fogueira, atirou-lhe tais embigadas, que a pilha de lenha 
derreou e foi esboroando-se. Entretanto o negrinho, a requebrar-se, abria o queixo e atroava os ares com esta cantiga:

Candonga, deixa de partes
 melhor desenganar,
Que este negro da carepa
No h fogo pra queimar.

Salvo os rr finais que ele engolia e os ll afogados em um hiato fanhoso, tudo o mais era produo do estro africano e da sua veia de improviso.

Uma grossa anca resvalara da fogueira com as embigadas e viera cair junto aos ps cambaios do negro, que saltando-lhe em cima com mpetos de possesso, comeou de 
moer as brasas com os calcanhares, berrando:

Monjolinho soca milho
Bem socado, pa-ta-p!
O mame, que d a gamela
Pra juntar este fub!
Tuque, tuque, tuque, tuque,
Tuque, tuque, zuque, zuque.(1)

(1) Mame  chamam os escravos da roa as pretas rancheiras que preparam a comida.

De vez em quando o garrafo de cachaa corria a roda. Cada um depois de mil trejeitos e negaas dava-lhe o seu chupo, e fazendo estalar a lngua repinicava o saracoteio.

 parte, junto a um dos portes e sob o alpendre das tulhas que ficam a um canto do quadrado, esto em grupo os feitores e camaradas; uns de p, arrimados aos esteios, 
outros sentados no prancho que serve de soleira.

O Mandu arranha na viola uma chula, e o Pereira acompanha o toque com repentes que lhe acodem, enquanto os outros contam faanhas de caipira e vo-se impingindo 
limpamente um par de formidveis carapetes.

Bem desejavam os sujeitos entrar na scia e fazer uma perna no batuque; mas, impedidos pela disciplina da fazenda, contentam-se em olhar de fora e engraar com as 
crioulas, que s vezes saem da roda para vir trocar lrias e receber, em paga dos milhos assados e batatas, algum descante neste gosto:

No como inhame cozido;
No gosto de milho assado;
Quem me quiser derretido
Me d mendubi torrado.

Uma preta, porm, ali estava, que decerto no fora trazida por aquele motivo, pois recostada ao frontal do porto, com os olhos voltados amide para o lado da casa 
de morada do senhor, ouvia distrada as chalaas dos capangas.

Essa preta  a Florncia: uma esttua de Juno, toscamente lavrada em mrmore negro, e coberta com um cabeo de renda que lhe mostra o colo, e uma saia de riscado 
cada at o meio da perna musculosa.

O Mandu logo que ela chegara, atirou-lhe este mote.

Casca preta, bago branco,
Mas arde que no se agenta:
Hu, que visaje  esta,
A fruita virou pimenta? (1)

(1) Fruta em So Paulo  a jabuticaba, pela sua excelncia. Alguns dizem aportuguesadamente fruita.

- Qual, disse o Pereira. A moa est com sentido no pajem.

- Ora menina, deixe-se disso. O patife do Amncio no vem c!

- Est l ao cheiro da cozinha! acudiu outro.

A crioula mordeu os beios de clera; e comeou de rufar os dedos nas grades do porto. Quase ao mesmo tempo destacou na sombra um vulto, no qual logo se reconheceu 
o mulato.

- No vem! exclamou a Florncia voltando-se com ar exultante para os caipiras e mostrando-lhes o pajem.

- Como vai o pagode, por c? disse o Amncio.

Disfaradamente a crioula arredou-se do grupo dos capangas, e encaminhou-se para a roda do batuque, lanando um olhar ao pajem. No estava ainda de todo satisfeito 
o seu gostinho, que era fazer o Amncio cair no samba rasgado.

Que triunfo para ela, negra da roa, se humilhasse a mucama Rosa, sua altiva rival.

Hesitou o mulato algum tempo, receoso de derrogar de sua nobreza de pajem misturando-se com a ral da enxada, at que rendido pelos lascivos requebros da crioula, 
que j se espreguiava ao som do urucungo, saltou no batuque.

No mais forte sapateado, porm, sentiu o pajem que lhe travavam da gola da jaqueta; e puxado para fora da roda com fora, achou-se em face da mucama Rosa, que viera 
arranca-lo da dana, furente de cimes.

As duas rivais se afrontaram com o olhar, por diante da cara desfaada do mulato. Os alvos dentes de Rosa brilharam engastados em um riso de escrneo, que lhe arregaava 
os lbios carnudos, e dentre as fendas dos incisores partiu um rpido esguicho, que bateu em cheio na cara da outra.

Foi pronta a rplica de Florncia. Vibrando no ar o brao habituado a manejar a enxada espalmou a mo na bochecha da mucama, que titubeou e decerto iria ao cho 
a no ampara-la o mulato.

Amncio  vista do bofeto decidiu-se pela Rosa, e atirou  Florncia uma cabeada. Mas a preta agarrou-o pelos cabelos; e ele apertou-lhe as goelas a fim de livrar-se 
das garras daquela fria. Entretanto a Rosa ferrava os dentes no ombro da rival, que defendia-se aos pontaps.

Os pretos da roa acudiram  sua parceira, insultada pela cambada de pajens e mucamas. Os capangas tomaram o partido de Amncio por uma espcie de coleguismo; e 
assim tornou-se geral o banz.

Agachado no meio do terreiro, bebendo seu pito, Monjolo que se retirara do batuque, observava com viva agitao aquela cena. Seus olhos saltados das rbitas, como 
dois lagartos negros quando pulam da toca, devoravam com uma volpia feroz a figura de Rosa.

Felizmente acudiu o Faustino que ajudado de outros pajens, arrancou a mucama do sarilho; e levou-a  fora para a casa.

 porta do administrador batia a sineta o toque de recolher.








XXI

O incndio

Terminara a festa.

A escurido profunda de uma noite brumosa envolve a casa das Palmas e os edifcios adjacentes.

Do borralho acamado sobre as extintas fogueiras apenas escapam raras fagulhas, que esfoliam-se no ar e se apagam.

Soa ao longe tropel de animais, intercalado s vezes por trechos de alegre descante. So ranchos de convidados que tornam s casas.

Da vrzea, entre o zumbir dos insetos noturnos, perpassavam nos sopros da brisa as rascas da viola, que  porta da palhoa ainda arranhava por despedida algum caipira 
saudoso.

Pouco mais era de meia-noite. A funo que prometia prolongar-se at l pela madrugada, esfriara de repente, com bastante pesar dos velhos comiles, os quais no 
puderam atolar-se na lauta ceia, pois o tempo mal lhes chegou para fartarem-se uma s vez de cada prato.

Ferida nas duas cordas mais delicadas de seu corao, no amor de esposa e me, D. Ermelinda, apesar de grande esforo e do habitual disfarce que o trato da boa sociedade 
prescreve como regra de cortesia, no pode abafar a tristeza que lhe transbordava dos seios dalma.

O amortecimento das maneiras afveis e da graciosa amabilidade da dona da casa derramou nos convidados um sbito constrangimento; a festa perdeu desde logo a sua 
expansiva alegria; os mais desconfiados, ou os mais paulistas, cuidaram em retirar-se, que no acharam a costumada e carinhosa resistncia.

Ento comeou a debandada. Ainda tentou Lus Galvo reanimar a folia; mas um olhar de sua mulher e o abatimento que se pintava em seu gesto, o demoveu logo do propsito 
de reter os amigos e prolongar os folguedos.

J todos se haviam acomodado para dormir; s D. Ermelinda, com o mesmo traje da festa, que no despira ainda, velava imvel no seu toucador.

Atirada ao fundo de um sof, na sombra que projetava um vaso de porcelana colocado diante da vela para quebrar a luz, tinha os olhos ficos na imagem de N. S. das 
Dores, que se via sobre a cmoda em um nicho de jacarand.

Talvez pedisse  Me de Deus,  divina consoladora dos aflitos, um conforto para sua alma, atribulada naquele instante por pensamentos que a enchiam de horror e 
angstia.

Nunca passara pela mente de D. Ermelinda pedir a seu marido contas de um passado que no lhe pertencia, e at por melindre natural evitara sempre folhear aquela 
pgina da mocidade de Lus Galvo. Advertia-lhe o corao das desiluses que ali a aguradavam; e por isso preservara a sua ignorncia como um vu protetor contra 
as suscetibilidades e zelos de sua alma.

Subitamente, porm, quando menos esperava, surge-lhe aquele passado, dentre as alegrias de uma festa, e lana em seu esprito uma certeza fatal, a que por muitos 
anos e to cuidadosamente se esquivara.

E sobre esse golpe, outro ainda mais cruel talvez para almas como a sua, apuradas por uma suprema delicadeza e uma esquisita sensibilidade. A forma rude e baixa 
por que se tinha revelado o passado de Galvo, sobretudo a magoou profundamente.

Se lhe contassem da mocidade de seu marido alguma afeio pura e generosa, no meio do seu desencanto, teria ao menos o doce consolo de haver delido dalma de Lus 
aquela imagem querida, gravando sobre ela a sua.

Mas a notcia de uma aventura galante, prpria de um libertino, alm de arranca-la  querida iluso de ter sido o primeiro amor, lhe derramara nalma uma agrura, 
como nunca sentira.

O carter que at ali respeitara, descia de repente em seu conceito; e ela enchia-se de pavor quando sua imaginao, exaltada pelo sofrimento, lhe abria as profundezas 
insondveis onde podia se precipitar o homem a quem ligara sua sorte.

Depois, por uma natural associao, recordando-se da intimidade de Linda com Miguel, no corao da me caam as gotas acerbas que vazavam do corao da esposa. Pensava 
D. Ermelinda, que a filha criada por ela com tanto esmero, sucumbia  fatalidade e ia arrastada por um pendor irresistvel, que o pai lhe transmitira de herana.

Assim como Lus uma vez deslizara da honra que pautara sempre os atos de sua vida, e a nobreza de seu carter se eclipsara ante a seduo de uma moa, Linda cuja 
alma ela se comprazera em colocar numa esfera elevada, se inclinava a um rapaz de posio muito inferior.

E aqui a sua fantasia, convolvendo as torturas da esposa com nsias de me, esvairava por modo que ela, espavorida de sua prpria mente e no podendo sofre-la, 
asilava-se contra esse delrio numa orao fervente a Nossa Senhora.

Lus Galvo, inquieto com a demora da mulher, a chamara; e, no recebendo resposta, veio acha-la na mesma posio.

- Que tem voc, Ermelinda?

Estremeceu a senhora; e toda ela pulsou, como se a dor que tinha calcado dentro da alma se agitasse para refluir aos lbios. Mas a boca descerrando-se deixou escapar 
apenas um ofego, e ficou muda.

A palavra  estreita para dar passagem s mgoas amassadas no corao, quando se arremessam no primeiro mpeto e de um s jato.

- Nada! respondeu D. Ermelinda.

- Por que no se deita?

Nesse instante repercutiu no aposento o som de trs pancadas fortes, secas e breves, dadas rapidamente uma sobre outra.

Abriu Galvo a janela do canto, que ficava na ala direita do edifcio, para observar o terreiro, donde viera o estrpito. Mas este cessara bruscamente com a ltima 
pancada; e o silncio de todo se restabelecera.

Debruando-se  janela, o fazendeiro lobrigou uma sombra que parecia resvalar ao longo da parede.

- Quem est a?

No houve resposta. Julgando ter-se enganado em tomar por vulto humano o vo de um morcego ou qualquer outro pssaro noturno, ainda mais o convenceu disso um guincho 
de curiau, que estrugiu para o lado da senzala.

No se enganara, porm, o fazendeiro. Foi de fato um homem, que se coseu  parede e se encaixou no vo de uma porta, onde permanecia imvel e esticado para dissimular 
a salincia do corpo.

Tendo fechado por fora os pajens e capangas no repartimento que eles ocupavam, cuidou Faustino de impedir-lhes a sada por uma das janelas que no tinha grades. 
Para esse fim munido dos instrumentos necessrios, encostou-se a ela para prega-la.

A esse tempo arrumava-se ao muro uma trouxa negra que avanara pelo terreiro aos pinchos como um sapo. Era o Monjolo que j havia furtado as chaves da senzala e 
vinha ter com o pajem.

O africano ruminava a idia de suprimir desde logo o Faustino, a fim de lograr ele s os proventos do trama. Naquele curto instante correu o pajem srio perigo de 
que o salvou o rumor da janela ao abrir-se.

Afastando-se ligeiro para a senzala, soltou o Monjolo o guincho que tranqilizou o fazendeiro, e entretanto era o sinal do trama sinistro.

Acabava Lus Galvo de correr o trinco da janela quando no canavial a primeira labareda se arremessou nos ares, enroscando-se como uma serpente de fogo.









XXII

A traio

Rolos de chamas envoltas em denso bulco de fumo subiam aos ares.

A casa das Palmas e suas dependncias, vistas de longe, pareciam submersas em um turbilho de fogo, que surgia das entranhas da terra e convolvia-se pelo negrume 
do espao.

Aoitada pelo vento, a labareda estorcendo-se e rabiando, rugia de sanha; ou sufocada um instante pelas abbadas de fumaa e pelas camadas de palhio, troava como 
um canho, arrojando-se s nuvens.

De instante a instante ouvia-se uma descarga de fuzilaria, correndo ao longo daquela faixa incendiada que figurava a ala de um exrcito em renhida batalha. Eram 
os gomos das canas, que estalavam ao intenso calor do fogo.

Com os sibilos da labareda enroscada no ar, confundiam-se os silvos das cascavis e jararacas, que surpreendidas pelo incndio, arremessavam-se furiosas contra o 
fogo e rompiam estortegando pelo campo abrasado.

As aves noturnas deslumbradas com o sbito claro, fugiam soltando guinchos de terror, enquanto as feras, insufladas pelo instinto da desolao, uivavam no fundo 
da floresta e trotavam ligeiras para arrebatarem a presa ao incndio e se abeberarem de sangue.

Medonho espetculo!

O incndio crescia com tal velocidade, que parecia uma catarata de fogo, a inundar o espao, ameaando comunicar-se  floresta, e submergir a terra em um plago 
de chamas.

Do seio daquele surdo rumor produzido pelo ressolho da labareda, se desprendeu e reboou ao longe um grito soturno; mugir da turba espavorida antes as tremendas convulses 
da natureza.

- Fogo!... fogo!... fogo!...

Correndo  janela e abrindo-a outra vez, Lus Galvo recuou espantado com a viva claridade, que o incndio projetava sobre o terreiro e que lhe ferira os olhos.

Foi rpido, porm, o deslumbramento. Debruando-se no peitoril e descobrindo o foco do incndio que vomitava labaredas como a cratera de um vulco, o fazendeiro 
compenetrou-se imediatamente da realidade.

- O que ? perguntou D. Ermelinda, que parara aterrada no meio do aposento.

- Fogo no canavial.

Atirada esta resposta  mulher, Lus Galvo saltou no terreiro e deitou a correr para as plantaes, lanando aos brados aquelas mesmas palavras, como aviso aos 
feitores e gente da fazenda.

 exceo de alguns escravos fechados na senzala, a quem o claro despertara, estavam os mais ferrados no sono profundo, que sucedera mui naturalmente ao cansao 
dos folguedos de So Joo e s libaes copiosas.

Assim, j Lus Galvo passara a tronqueira da roa que o administrador, ainda tonto de sono, babatava  busca das chaves da senzala para soltar a gente; e os feitores, 
acordados de sobressalto, se olhavam estupefatos, sem conscincia do que estava passando.

O fazendeiro lanou-se na direo do incndio, pensando que toda a gente da fazenda no tardaria a segui-lo, e ansioso por avaliar da intensidade do fogo como de 
sua marcha. Lembrara-se que o tanque ficava sobranceiro ao canavial, a arrombando-o podia arrojar sobre o foco do incndio uma formidvel manga dgua que o extinguisse.

Enganara-se, porm, Galvo. Apenas lhe iam no encalo, mas agachados e esgueirando-se por entre a folhagem os dois vultos de Faustino e Monjolo, impaciente de assistirem 
 catstrofe, e verem consumado o crime de que dependia a satisfao de seus desejos.

Ainda desta vez Monjolo tinha amide mpetos de atirar-se ao pajem, e cravar-lhe o quic no corao; sobretudo quando lembrava-se que Barroso prometera quele a 
liberdade e posse de Rosa.

Mas continha-se; e no por escrpulo, mas por um requinte de crueldade.

S, na alcova onde a tinha deixado o marido, D. Ermelinda transida de susto com o anncio do incndio, arrastou-se afinal para a escada do mirante; ao tempo em que 
j a filha despertada pelo rumor a procurava, e Afonso arrancado ao sono ganhava terreiro para acudir ao que fosse preciso.

- Onde est meu pai? perguntou ele.

- L, no canavial, Afonso! Corre, meu filho!...

Estimulando o mancebo com esta prece ansiada, acompanhava a senhora com olhar ardente o vulto do marido, que chegava ao canto do carreador e destacava-se na zona 
abrasada que o incndio projetava em torno.

Tinha-se j arremessado avante o mancebo, quando estacou de sbito, ouvindo um grito de angstia que partia do mirante. Voltou-se e no viu mais D. Ermelinda.

- Minha me! O que ?

- Acuda, mano! clamava Linda com voz dilacerante.

Um reflexo da labareda mostrou rapidamente ao moo, no muro do mirante, a figura transtornada da irm, que apontava para o canavial, arcando contra o parapeito como 
se quisesse precipitar-se. Mas antes que o vislumbre da chama passasse, abateu-se aquela sombra.

Chorava a filha sobre o corpo inanimado da me.

Desmaiara D. Ermelinda ao ver, no canavial, surgir da sobra um homem, que, brandindo um cacete sobre a cabea de Lus Galvo, o prostrou ao cho como um corpo morto.

Era o Gonalo Suuarana.

XXIII

Vampiro

Quando Gonalo se curvava para soerguer o corpo do fazendeiro e arremessa-lo no meio das chamas, um vulto emergiu da sombra.

Jo Fera estava em face dele.

Recuou o Suuarana de um salto, e sacou da cinta a pistola que desfechou sobre o inimigo  queima-roupa. No acertando o primeiro e segundo tiro, puxou da catana; 
e comeou a esgrimi-la cortando o ar.

O capanga avanava lento, mudo, sombrio, sem arma em punho, nem sequer um gesto de ameaa; e, todavia, era ele Gonalo, apesar de armado, quem recuava diante daquele 
vulto impassvel.

Afinal, o pulso do Suuarana, fatigado de cutilar o vento, afrouxou. No teve ele tempo de pressentir o perigo; colhido pelas espduas girou no ar e foi abater-se 
no canavial abrasado onde o arrojara o brao pujante de Jo Fera, que antes de arremessar o corpo, o havia estrangulado.

Nesse momento conseguira erguer-se Lus Galvo. Recobrando gradualmente os sentidos, observara o fazendeiro o fim da luta, e compreendera que devia a existncia 
a Jo Fera.

Este fitava a labareda que envolvera o corpo do Suuarana. Espessa e carregada de grosso fumo, a chama se arrastava como a jibia que lambe a presa para traga-la; 
mas outra vez ligeira e farfalhante desprendeu-se no ar como a lngua da serpente; e fendendo-se mostrou no meio do brasido o corpo j calcinado do fanfarro.

Um sorriso de feroz volpia franziu os lbios do capanga, que ficou um instante absorto naquele intenso prazer. Recobrado afinal, voltou-se com a idia de correr 
alm, e deu com Lus Galvo, que estendia-lhe a mo:

- Voc me salvou, Jo! Obrigado!

- Salvei; mas no sabe por que? respondeu o capanga com a fala soturna, cravando um duro olhar no semblante do fazendeiro.

Este ia responder; Jo atalhou-o.

- Livrei-o de morrer, porque sou eu quem o h de matar, quando chegar sua hora!

Lanando-lhe estas palavras com desprezo, voltou as costas o capanga para afastar-se dali.

- Tanto mal quer-me voc, Jo?

O Bugre estacou sofreado por uma fora ntima a que ele tentava resistir; depois de curta hesitao, arrojou-se em frente do fazendeiro para dizer-lhe com a voz 
dilacerada pela clera:

- Mais de cem vezes j eu teria cravado em teu corao esta faca, se no fosse aquela que est no cu, e a filha que deixou na terra. V que raiva sinto eu quando 
me lembro que tu ainda vives!

Rangiam os dentes do capanga; e, todo ele convulso de furor, ameaava o fazendeiro com a sanha de um tigre.

Ainda desta vez, porm, conseguiu dominar-se. Arrebatando-se ao mpeto que j o arrojava sobre Lus Galvo, deitou a correr por um carreador que invadira o incndio; 
e desapareceu por baixo das abbadas formadas pelas chamas.

Com antecedncia fora Jo Fera sabedor da trama urdida pelo Barroso. Desde que o Chico Tingu o advertira do perigo, o Bugre, sempre alerta, redobrara de vigilncia 
e no perdeu mais de vista a seus inimigos.

Assim havia surpreendido o segredo da maquinao de Barroso; e naquela manh assistira, oculto no mato,  ltima combinao entre os cmplices.

J tinha o capanga na cinta o dinheiro preciso para desempenhar sua palavra, e esperava o momento de ajustar contas com o Barroso. O plano horrvel excitou a ferocidade 
dessa alma, desde algum tempo sopitada pela influncia de Berta.

Que esplndida vingana no lhe preparava o inimigo com o terrvel incndio, que ia servir-lhe, a ele Bugre, de fogueira de So Joo para divertir-se tambm naquela 
noite de tanto folguedo?

A desolao e a runa o deleitavam; ao calor das chamas, ouvindo resfolgar a labareda e agonizar os infelizes por ele arremessados ao fogo, ele sentia a inebriao 
da morte, e sua alma esvoaava como a do vampiro, sobre os destroos do incndio.

Desde o comeo, acompanhava ele a realizao da trama; vira o Gonalo postar os companheiros, atear o fogo no canavial, e emboscar-se  espera do fazendeiro. A princpio 
nem lhe passara pela mente livrar Lus Galvo da morte que o ameaava; mas a idia de que Berta, ignorando a verdade, podia atribuir a ele esse assassinato, o estremeceu 
e imps-lhe a dura necessidade de salvar o homem a quem mais odiava.

Escapara de chegar tarde, porque se demorara um instante em agarrar Monjolo. O africano, vendo Faustino atado de chofre como um feixe de sap e pinchado ao fogo, 
escafedeu-se; mas, a pequena distncia, caiu arpoado pela faca do Bugre.

Empurrando esse trambolho ao fogo, correra ento o Bugre ao lugar em que havia deixado o Gonalo de espreita, e onde acabava de passar a ltima cena.

Agora l ia  busca do Barroso, que devia estar do outro lado do canavial, pronto a aparecer no momento preciso, e ao sinal convencionado, para representar a farsa, 
que havia de rematar o drama sanguinolento.

Quando Jo passou pela orla do canavial e que a chama bateu-lhe em cheio no semblante, Barroso o reconheceu e fugiu espavorido. Mas o capanga ia-lhe no encalo, 
e infalivelmente o alcanaria.

Esbaforido, prostrado de cansao e de terror, o miservel se deixara cair em um fojo coberto de juncos e moitas; e, resignado, esperou a morte, que ele sentia aproximar-se 
no passo rpido do Bugre.

Nesse momento chegava Miguel, que a meio caminho de casa e surpreendido com o claro do incndio, voltara a correr na direo das Palmas.

Por um impulso generoso parou para defender o perseguido; e Jo Fera esbarrou de rosto com ele.

Trs vezes o Bugre arremeteu e trs vezes o brioso mancebo tomou-lhe o passo, resolvido a sacrificar-se antes do que deixar consumar-se o crime.

- Deixe-me passar, moo! bramiu o capanga rangendo os dentes.

- O que eu sinto, monstro,  no ter uma arma para castigar-te.

Rugiu o Bugre, e saltou sobre o mancebo, que o esperou calmo e resignado a tudo, mas sem recuar o passo.

Salvou-o um grito de Berta. A menina tinha acompanhado de perto a Miguel, deixando atrs nh Tudinha, que no a pudera seguir.

Ouvindo a voz da menina, o capanga como se o espancasse a clera celeste, disparou pelo campo fora e desapareceu.

XXIV

Na tapera

Uma brisa cortante esgarava a cerrao, cujos retalhos flutuavam pelo tope das rvores.

Trs dias tinham decorrido depois da festa de So Joo.

Berta seguia pela vereda que ia dar  tapera. Caminhava a passo lento e frouxo com a cabea descada, revolvendo na mente reminiscncias que lhe pungiam o corao.

A pequena distncia atravessou Miguel por diante dela:

- Sabe, Inh? Jo Fera foi preso!

- Aonde? perguntou a menina surpresa.

- Perto de Campinas.

- E agora?

- Com certeza o enforcam!

Esta resposta o mancebo a deu j afastado e de caminho para o lado das Palmas.

Berta suspirou, pensando que Miguel ia ver Linda; mas logo seu pensamento desprendeu-se dessa idia, para refletir sobre a desgraa do capanga.

Apesar do horror que lhe inspirava ele desde a vspera de So Joo, j pelo atrevimento de atacar Miguel, j pelas crueldades que praticara naquela noite, ela sentiu 
profunda compaixo pelo infeliz que ia morrer execrado e maldito por todos; e sua alma confrangeu-se de dor.

To absorta nessa pena chegou s runas que no reparou na singular atitude da negra em p, no meio do terreiro, com o pescoo curvo, os olhos esbugalhados,  espreita 
de um objeto que, por ventura, lobrigava entre a folhagem.

Passara Berta e dirigia-se  porta da casa, quando a negra estendeu os braos hirtos para diante como se quisesse arremessar de si uma viso medonha, e caiu  estrebuchar 
em contores dolorosas, arrancando guinchos aflitivos do peito ofegante.

Na orla do mato,  esquerda da tapera, assomara de repente a figura do Ribeiro, que aos olhos de Zana surgira como um espectro e a fulminara de terror.

Aos gritos da preta, Berta, arrancada ao seu recolho, correu assustada, sem atinar com a causa de semelhante acesso. Vendo-a, Zana que no se apercebera de sua chegada, 
atirou-se  ela, e cerrando-a ao peito com os braos mirrados, precipitou-se para casa em um mpeto de desespero.

Assim arrebatada de chofre, no descobriu a menina o vulto do Ribeiro, nem ouviu o riso de escrneo que rincharam os lbios do assassino por ver o terror da negra 
e seu af em levar a menina do terreiro e esconde-la na casa.

Tinha ele segura a presa, e por isso no aodava-se, querendo gozar por mais tempo a delcia dessa vingana, que julgava j extinta, e renascia de novo, como o broto 
de uma raiz morta.

Aulado por um dio implacvel, lembrara-se dias antes de rever as runas da casa onde imolara a vtima de seu rancor, e cevar-se nas recordaes de sua covarde 
atrocidade.

Nessa ocasio, viu Berta, pela primeira vez, e logo entrou-o a suspeita de ser ela a filha de Besita, livre da morte pela sbita ameaa de um homem que ele no conhecera, 
mas supunha capanga de Lus Galvo.

Desde a comeou de tirar indagaes e obteve a certeza que desejava. Seria pois esse o remate da vingana que h vinte anos principiara em Besita e devia acabar 
na filha, depois de haver exterminado o pai.

Furioso com o malogro do incndio, porm aterrado com a sanha de Jo Fera, a quem s escapara pela corajosa interveno de Miguel, o miservel tratou de fugir.

Ao passar por Campinas, soube que o Bugre fora preso na vspera por gente do Aguiar, e ento animou-se a voltar a Santa Brbara.

Seu primeiro pensamento foi Berta. Lembrando-se que ia matar a pobre menina, sentia um prazer brbaro. Parecia-lhe que Besita revivia na pessoa da filha, e que assim 
podia ele assassina-la outra vez, saciando o seu imenso rancor.

Ele, que a princpio nem se apercebera da semelhana de Berta com a me, to apagada estava em sua memria a imagem da mulher a quem amara alguns dias para odi-la 
tantos anos com um rancor de alm-tmulo, agora que o dio lhe avivara a reminiscncia, via surgir a sombra viva de Besita.

Zana, deixando Berta no meio do aposento, voltou ao terreiro para espreitar o inimigo. Tremia o corpo da preta com movimentos tetnicos, e os dentes lhe chocalhavam; 
mas em sua pupila esvairada lampejava um fulgor sinistro. Era horrvel de ver-se aquela mmia viva, com os beios repuxados, e as unhas a crisparem-se como as garras 
de um abutre.

O Ribeiro recuou e escondeu-se no mato, esperando que passasse aquele mpeto de furor.

- Zana! Zana! Que tem voc? dizia entretanto Berta, da porta da casa.

Serenou a agitao da preta com o afastamento do Ribeiro; e Berta, sentando-se na soleira, com as costas voltadas para o mato, submergiu-se outra vez nas cismas, 
em que se enleava agora sua alma, dantes to isenta e descuidosa.

Seu esprito girava em torno de uma idia que sobretudo a preocupava. Era a oposio que D. Ermelinda fazia ao amor da filha por Miguel. J no fim da festa na noite 
de So Joo notara ela, Berta, o constrangimento de Linda, a quem a me no deixara mais arredar-se de junto de si.

No dia seguinte, ainda mais sensvel tornou-se o rigor. Linda no se animou a falar com Miguel, nem a brincar pelo pomar. Todo o dia esteve na sala com a me ou 
umas velhas parentas; e Berta percebeu que os meigos olhos azuis da amiga tinham o rescaldo que deixam as lgrimas.

Recordando todas estas circunstncias, s vezes tinha Berta seus assomos de jbilo, pensando que ela podia Miguel amar livremente, sem desgosto nem obstculo. Mas 
logo reprimia aquele impulso do egosmo; e perscrutava em sua imaginao um meio para remover o obstculo que ameaava a felicidade de Linda.

Depois acudia-lhe de novo  lembrana a notcia que lhe dera Miguel da priso do Bugre; e sua alma esquecia as prprias tribulaes para afligir-se da msera sorte 
daquele perverso, que tamanha dedicao tinha por ela.

Entretanto o Ribeiro, oculto no mato, observava os movimentos da menina e sorrateiramente aproximava-se por detrs, contando surpreende-la. Mas Zana alerta lhe percebera 
a inteno e tambm de esguelha avanava para defender Berta e esganar o assassino se no lhe mentissem os pulsos descarnados.

A cada passo que dava o Ribeiro de um lado, arrastava-se a msera louca; e Berta, que era o alvo da convergncia desses dois impulsos, continuava inteiramente alheia 
ao que se passava.

De repente, Zana ficou esttica e imvel; depois comeou de tartamudear sons roucos e afinal soltou uma gargalhada estridente que ressoou pela mata, violentamente 
agitada neste momento.

Berta, sobressaltada, ergueu a cabea.

XXV

A entrega

Sabe-se por que preo obtivera Jo Fera o dinheiro necessrio para desempenhar a palavra dada ao Barroso.

O Chico Tingu, incumbido de negociar a entrega do capanga mediante cinqenta mil ris, dirigiu-se  fazenda de Aguiar, e fez sua proposta ao fazendeiro.

Desconfiou este do caso, como era natural; mas estando ali um camarada, conhecido do Tingu, que assegurou ser Jo Fera um homem capaz daquela faanha, decidiu-se 
Aguiar a dar a soma, curioso de ver o resultado.

- A tem o dinheiro. Mas, olhe l, que, se o patife no vier, quem paga  voc.

- No tenha medo que ele falte.

Marcou-se o dia. O fazendeiro mandou chamar o Filipe com sua gente, e aumentou a capangada para receber a visita do Bugre.

Antes de partir quis Jo Fera despedir-se de Berta e com esse pensamento dirigiu-se para a casa de nh Tudinha. Levava a alma a transbordar e carecia nesse instante 
supremo da eterna separao vaza-la no corao da menina.

Berta cosia, sentada em seu canto habitual,  sombra do oito da casa. O Bugre avistou de longe e parou oculto pelas rvores para contempla-la com religiosa adorao.

Passando o primeiro enlevo, quando lembrou-se do pensamento que o trouxera, no se animou a dar um passo e aparecer  menina.

Pressentia o horror que deviam ter causado em Berta as mortes por ele perpetradas na noite de So Joo, e a abominao que desde a lhe votava aquele corao puro 
e santo.

Se a menina soubesse da trama urdida pelo Barroso contra Lus Galvo, talvez lhe perdoasse tamanha atrocidade, cometida na ocasio de salvar uma existncia to querida 
para ela.

Mas a menina ignorava, e no seria ele decerto quem lhe havia de revelar o terrvel segredo, confessando a sua vergonha de salvar o mais vil dos homens.

No foi este, contudo, o mais poderoso dos motivos que lhe tolheram o impulso. Berta naturalmente lhe perguntaria a causa da sua estranha resoluo de entregar-se 
 priso; e seria necessrio tudo revelar.

A idia de que a menina se pudesse afligir por ter causado, embora involuntariamente, a sua perda, o assustava. Ignorasse ela sempre quanto custara o juramento que 
lhe dera, de poupar a vida de Lus Galvo; e no sondasse nunca os antros profundos dessa conscincia onde rugia o desespero.

Fechou os olhos o Bugre para subtrair-se ao encanto da gentil menina, e, arrancando-se com esforo quele stio, sumiu-se no rumo de Campinas.

Eram quatro horas da tarde, quando um homem  p e coberto de p chegava  tronqueira da fazenda do Aguiar.

Da janela do sobrado, onde por um excesso de prudncia se fora postar, avistou o Aguiar ao caminheiro, em quem os capangas, agrupados no ptio, j tinham reconhecido 
Jo Fera.

Ligeiro calafrio correu pela medula desses homens valentes e avezados ao perigo.

Abriu o Bugre descansadamente a tronqueira, e avanou com a costumada pachorra para o terreiro, como quem entrasse por sua casa. A chegando, saudou o fazendeiro 
e outras pessoas com um toque no chapu.

- Tenham todos boa-tarde.

To surpresos ficaram os outros daquele sossego, que nem se lembraram de responder  saudao.

- Aqui estou eu, meus senhores, na forma do prometido, tornou o Bugre com um triste sorriso.

O Filipe trocou um olhar com o patro e acenando  sua gente, avanou para o Bugre.

- Pois renda-se, homem, que  o melhor.

- Alto l, camaradas! disse Jo Fera vendo os capangas se aproximarem com inteno de agarra-lo. No se cheguem muito.

- Deixe-se de partes!

- Os senhores sabem se eu tenho palavra. Estou aqui por minha vontade; e do mesmo modo irei para onde quiserem. O ajuste foi entregar-me; e me entrego mesmo. Mas 
se algum me puser a mo, est tudo perdido.

Retraiu o Bugre o p esquerdo; e os ombros agitaram-se com uma ligeira contrao, enquanto nos olhos torvos fuzilava um relmpago.

Os capangas hesitaram; e a um aceno do fazendeiro, que do sobrado assistia  cena, Filipe acomodou a coisa.

- Est bom, camaradas, no zanguemos o homem.

- Para onde me levam?  para Campinas? Pois vamos l! disse Jo Fera.

- No h pressa. O senhor pousa aqui e amanh com a fresca da madrugada nos botamos para l.

O Bugre fez um gesto que exprimira indiferena; e sentando-se no ressalto da calada, que havia no terreiro, preparou um cigarro e comeou a pitar.

Mas nenhum dos capangas se animou a aproximar-se. Atravs do ar negligente e absorto da fisionomia do Bugre pressentia-se a viva ateno, que exercia em torno uma 
vigilncia incessante.

 noite o Filipe convidou Jo Fera para cear com os outros camaradas. Ele, porm, recusou, contentando-se com um trago de aguardente.

Seriam nove horas e estavam todos acomodados no rancho, que ficava  direita do sobrado, quando Filipe sorrateiramente ergueu-se e passou fala aos camaradas.

- Enquanto no amarrarmos o danado, no sossego!

Convieram os outros e s agachas se foram acercando de Jo Fera, para cair sobre ele e segura-lo.

O capanga que no dormia, como eles pensavam, recebeu-os de frente:

- Ah! Vocs querem brincar? Pois v l!

Com o arrojo e destreza que ele possua no mais alto grau, e o multiplicava, lanou mo de uma estava do rancho e espancou a troa do Filipe.

Depois de os ter sovado em regra, quando ia j em retirada, ouvindo a voz do Aguiar a perguntar pelo que havia, gritou-lhe de longe:

- A sua gente rompeu o ajuste; minha palavra est livre. Passe bem; mas fique descansado que eu lhe darei o pago deste desaforo. H de ver se  bom ser amarrado 
como um negro fugido!

Deixando a fazenda encaminhou-se Jo Fera para Santa Brbara, donde sara aquela manh, cuidando que nunca mais voltaria queles lugares.

O desfecho da traio do Aguiar o entristecia, e dentro de sua alma lamentava no estar quela hora preso na cadeia de Campinas, ou enterrado no rancho da fazenda, 
onde algum dos capangas podia t-lo facilmente prostrado com um tiro de melhor pontaria.

Incutia-lhe esse pesar o profundo pavor que dele se apoderava, pensando no seu encontro com Berta, e na indignao que sua presena devia causar  menina.

Por vezes parou, hesitando se devia retroceder.

XXVI

O cip

O fim da noite foi para Jo Fera um pesadelo horrvel.

A todo instante fulgurava em sua alma, ao claro de uma chama satnica, a cena atroz do assassinato de Besita.

Mais de cem vezes, no resto da noite, reviveu esse momento de acerba angstia, no qual toda sua existncia submergia-se, como rio caudal pela estreita gorja de um 
precipcio.

Revia com a mesma nsia o vulto do Ribeiro, e sentia que aps vinte anos ainda no cicatrizara em sua alma o golpe que a tinha dilacerado, quando foi ele, Jo, obrigado 
a rasga-la, ficando junto de Besita, e no perseguindo o assassino.

A voz da msera me ressoava-lhe constantemente no ntimo, com aquele pungente grito de desespero: - Minha filha, Jo!... Ele... mat-la....

Revolvia-se o capanga na dura laje que lhe servia de leito; e tentava subtrair-se  obsesso, lembrando que no passava aquela viso de um desvario de seu esprito.

Mas surgia-lhe a imagem de Besita, que descia do cu para implorar-lhe a salvao da filha; e o capanga, impelido por fora misteriosa, erguia-se de um mpeto; e 
vagava  toa pelo ermo,  busca do ignoto perigo que ameaava Berta.

Uma vez chegou a cerca da casa de nh Tudinha para certificar-se de que nada ocorrera de extraordinrio naquela habitao. Vendo-a tranqila como de costume, tornou 
 furna e esperou que amanhecesse.

s seis horas encaminhara-se para a tapera, onde esperava encontrar Berta. Batia-lhe o corao pensando na clera da menina.

Chegado ao ponto da vereda, onde ficava o fojo minado pelo Brs, o capanga que desde o princpio descobrira a cilada e a desprezara, sorriu, percebendo as escarchas 
da terra gretada pela escavao interior.

Batendo com o p de champa, abateu a estiva, que, desmoronando-se com a camada de barro superposta, rolou pelo barranco abaixo.

Ouviu-se um berro, e o idiota, que desde o romper do dia, acocorado no fundo do desfiladeiro, esperava o corpo do capanga para cair-lhe em cima, fugiu amedrontado, 
mas sobretudo furioso por lhe ter falhado o ardil armado com tamanha pacincia.

Jo tinha gana ao idiota, e prometeu a si castiga-lo. Entretanto, saltou a fenda do despenhadeiro, como por segurana se habituara a fazer desde que descobrira a 
cilada, e aproximou-se da tapera.

A chegou o momento em que Zana via a descoberto o vulto do Ribeiro, assomando na orla do mato.

O grito que soltou a negra, repercutiu na alma do Bugre, como o eco de um som remoto, mas que estrugia ainda a seus ouvidos. O semblante fulvo da louca surgiu diante 
dele como a figura que tinha gravada dentro da alma, no sombrio painel da morte de Besita.

Seu olhar acompanhou a vista esvairada de Zana e encontrou-se com o espectro, que tantas vezes lhe aparecera durante a noite. A expresso viperina daquele rosto, 
ele a conhecia; era a mscara que tinha servido, vinte anos antes, na horrvel tragdia.

Apoderou-se do capanga uma sbita convulso. Tremiam-lhe os msculos, como as estipes da palmeira, aoitadas pelo temporal. Batiam os dentes; e a lngua trmula 
nem fora tinha para balbuciar.

A possante organizao parece romper-se aos embates de uma paixo imensa, que se quer precipitar do ntimo, e no acha vlvula bastante por onde escape.

A semelhana do monte percutido pelo fogo subterrneo, que lhe dilacerava as entranhas, o corpo robusto e atltico de Jo Fera brande, e vacila at que abra-se enfim 
uma cratera a esse mpeto vulcnico.

Durou a crise espantosa todo o tempo que levou Ribeiro a aproximar-se de Berta. A cada passo do facnora, crispava-se o capanga, no af de colher as foras; mas 
abatia sobre si, como ao prprio peso se acalca a massa bruta.

Quando, porm, o Ribeiro j estendia o brao para tocar a menina, tal repercusso ele sentiu, que pulou arremessado como uma pela, e chofrou o inimigo com o arremesso 
da guia quando arrebatada a presa.

Sufocando na boca do miservel o grito que lhe escapava, arrastou-o para o mais espesso da mata.

Foi este rumor que Berta ouvira de envolta com a gargalhada estridente de Zana, a qual por uma sbita lucidez reconhecera o capanga, e adivinhara nele o vingador 
de Besita e o salvador da filha.

Entretanto, Jo Fera, embrenhado na espessura, atirava ao cho o corpo do Ribeiro, quase desfalecido pelo terror e pela constrio formidvel dos braos que o arrochavam.

O capanga sacara a faca da cinta, e com o golpe suspenso procurou sofregamente um lugar para ferir, mas de modo que reanimasse com a mais intensa dor, aquele corpo 
desmaiado sem contudo lhe tirar a vida, que ele queria conservar como um avaro, para sua vingana.

Ao cabo de um instante de hesitao arremessou de si a arma; arquejante aos arrancos daquela sanha. Agachando-se ento como um tigre que prepara o salto, com os 
dentes rangidos e os lbios espumantes, se arremessou em cima do Ribeiro e tripudiou sobre o corpo em um frenesi de selvagem ferocidade.

Quem o visse dilacerando a vtima com as mos transformadas em garras, pensaria que a fera de vulto humano ia devorar a presa e j palpitava com o prazer de trincar 
as carnes vivas do inimigo.

Soou perto um brando de horror.

Transido e estpido, Jo Fera viu Berta fugindo espavorida daquele stio, ao qual a guiara o Brs, por uma estulta malignidade. O idiota espreitar a cena anterior, 
e forjara no seu bestunto aquela vingana.

O furor de Jo Fera transportou-se do cadver, que j no o podia cevar, ao monstrengo; na sua raiva o teria despedaado, se este no corresse a abrigar-se sob a 
proteo de Berta.

A menina, alucinada pelo medonho espetculo a que assistira, se tinha encostado ao tronco de uma rvore; e a grande custo conseguiu suster o corpinho trmulo e vacilante.

Foram os gritos de Brs, colhido pela mo do Bugre, que a despertaram. Vendo o perigo iminente do msero idiota, recobrou um assomo de sua energia e arrebatou a 
vtima s garras da fera.

Mais prostrada ainda por aquele novo e to violento esforo, voltou a arrimar-se ao tronco, e ofegante, a desfalecer, abraou-se com ele para no cair.

Ficara Jo Fera como chumbado ao cho, sem fora para fugir, sem coragem para aproximar-se. Afinal, passo a passo, seno de arrasto, avanou:

- Nhazinha! balbuciou com a voz cava e submissa.

Voltou-se a menina em um soberbo assomo de ira:

- Vai embora! No te quero mais ver! Tu s pior do que fera: s um demnio. No h sangue que te farte!...

De cabea baixa, o Bugre, rechaado por aquele mpeto de indignao, afastara-se dois passos; mas apenas desviou-se o olhar cintilante da menina, retrocedeu:

- Perdoe, Nhazinha!

- Vai embora! gritou Berta.

Brs, que se agachara aos ps da menina, soltou um grunhir de escrneo. Teve Jo Fera um mpeto de revolta. Queria suplicar seu perdo.

- No vou! disse rispidamente.

O talhe de Berta vibrou como uma seta brandida nos ares. Sua mozinha delicada partiu rpida a haste de um cip, e com essa vergasta fustigou o rosto de Jo Fera.

Duas lgrimas sulcaram as faces do facnora, e lavaram uma gota de sangue que a borbulhava.

XXVII

Despedida

Abriu-se a janela da alcova de Linda.

Assustada e inquieta a menina aproximava-se do parapeito, mas no se anima a debruar. Com a face unida  ombreira, e o corpinho oculto pelo relevo do portal para 
que no a vejam dos lados do edifcio, alonga o olhar ansioso pelas plantaes.

No tarda a hora do almoo.

 esse o momento em que D. Ermelinda costuma determinar o servio domstico. A menina aproveita-o para escapar  vigilncia materna, que desde vspera de So Joo 
a acompanhava incessante como a prpria sombra.

Grande alterao havia sofrido a famlia depois da festa. O interior da casa, que dantes respirava to serena alegria, tornou-se triste e sombrio. Em vez da cordialidade 
que dantes ali reinava, nota-se o afastamento, que isola uns dos outros coraes habituados  mtua efuso.

D. Ermelinda ainda recalcava no ntimo o segredo que a torturava. Por vezes tentara exprobrar a Galvo aquela mcula do passado; e no momento fugia-lhe o nimo de 
que se revestira anteriormente. Uma explicao naquelas circunstncias podia romper o vnculo que a prendia ao esposo. Temia, pois, rasgar o vu j to ralo de uma 
iluso em que ela ainda se embebia, para refugiar-se contra o desespero.

A inclinao de Linda por Miguel tambm a fortalecia no obstinado silncio que persistia em guardar, apesar das insistncias de Lus Galvo. Carecia do conselho 
do marido e da autoridade do pai, naquele rduo empenho de arrancar a filha a uma paixo funesta.

De seu lado, Lus Galvo no vivia menos contrariado e aborrecido. A causa da tristeza de D. Ermelinda no era para ele um mistrio; embora a senhora se recusasse 
a declara-la, tinha ele perscrutado o segredo da sbita mudana.

Combinando certos pormenores, como os remoques dos camaradas junto  janela, na noite de So Joo; e lembrando-se que vira D. Ermelinda aproximar-se naquele instante, 
suspeitou do que havia acontecido; e as aluses que s vezes escapavam  senhora no deixavam a menor dvida.

Imagine-se quanto no sofreu Lus Galvo, humilhado assim na estima da mulher, ele que sentia-se rebaixado ante a prpria conscincia, quando recordava aquela vergonha 
de sua mocidade!

Outrora, se lhe passara pela mente que sua mulher viria a conhecer aquele segredo, havia em sua alma um acerbo confrangimento. Por vezes, quis arredar para longe 
a Berta, cuja intimidade na casa pelas relaes com nh Tudinha, lhe avivava a cada instante a lembrana de Besita.

Mas Lus Galvo era desses homens que vivem muito  superfcie dalma, onde o contentamento do mundo, os prazeres efmeros e as impresses do momento formam uma 
camada que sopita alguma reminiscncia mais profunda.

Ao cabo de algum tempo, a presena de Berta j no lhe despertava nenhuma triste recordao; ao contrrio, produzia nele uma doce emoo. O aspecto dessa gentil 
menina, retrato vivo de sua me, refloria para ele as rosas da sua mocidade.

Toda a tristeza de seu amor por Besita ficava no fundo dalma como um sentimento, e s flutuava a suave fragrncia daquele afeto da juventude.

s vezes, contudo, pensando no futuro daquela menina, um remorso o pungia; bradava-lhe a conscincia que um meio ainda lhe restava, um nico, de expiar seu crime: 
era resgatar o abandono da me pelo amor da filha.

Em vspera de partir para Campinas, impressionado um momento com os pressentimentos de D. Ermelinda a propsito de tocaias, escreveu ele seu testamento reconhecendo 
Berta. Fora esse o papel esquecido,  cata do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para faze-lo aprovar por um tabelio.

Essa resoluo serenara de todo seu nimo; e o remordimento que s vezes o confrangia de todo aplacar-se quando sobreveio a ocorrncia da noite de So Joo perturbar, 
no somente o sossego de seu esprito, como a calma felicidade de sua mulher.

Nestas circunstncias reconhecia Lus Galvo que s havia um meio de resolver a crise: era confessar o fato  sua mulher, franca e lealmente; mostrar-se a ela qual 
fora, e reconquistar a sua estima pela sinceridade dessa confisso, que exprimia o seu arrependimento.

Mas tambm ele hesitava no momento de provocar a declarao; e retraa-se vivamente, receoso de que essa revelao cavasse entre a mulher e ele o abismo da separao 
eterna.

Assim ansiavam por uma explicao, que os aterrava a ambos; e por isso evitavam-se, temendo que uma palavra escapa os arrastasse ao precipcio onde podia se despenhar 
a paz e a ventura de sua mtua existncia.

A estes motivos de mgoa e desgostos acrescia a lgubre impresso, que tinham deixado o incndio do canavial e as atrocidades de Jo Fera.

Todos o acusavam, exceto Lus Galvo, que lhe devia a existncia; mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal.

Nestas circunstncias lembrara-se Lus Galvo de propor  mulher uma viagem  corte; e ela aceitara com fervor a idia. Deixar as Palmas era um meio de escapar  
tirania das pungentes recordaes, e de afastar Linda de Miguel.

Ouvindo na vspera  noite o anncio da viagem, a moa, cujo corao pressentia a oposio da me  sua escolha, compreendeu toda a extenso de seu infortnio.

Ansiosa, pois, esperava Miguel, que havia uma semana, depois de So Joo, furtivamente vinha todas as manhs at  cerca da horta para v-la por entre as rvores.

Nessa manh, avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trmula aproximou-se da cerca, alm da qual se ocultava o moo. Ali, defronte, um do outro, os dois 
amantes no se animavam a quebrar o silncio, nem mesmo a se olhar.

- Linda!... murmurou o moo afinal.

- O senhor no sabe? interrompeu a voz trmula da menina. Vamos para o Rio de Janeiro.

- A senhora?... exclamou o rapaz sucumbido.

Linda soltou uma exclamao de susto. D. Ermelinda, vendo a filha passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes.

No se irritou a senhora, que viu a aflio pintada no rosto da filha.

Ao contrrio, abraando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual procurava esconder-se  sua vista. Aproximou-se o moo, plido e confuso, para ouvir estas palavras 
pronunciadas com um tom de meiga severidade:

- Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela no pode pertencer-lhe!...

O moo abraou Linda e partiu soluando. A menina escondeu o pranto no seio da me, que a furto enxugava os olhos.


XXVIII

O congo

A cidade da Constituio, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se enleva  margem do rio.

No centro, e sobre a esplanada, fica a praa da matriz, cercada por bons edifcios, entre os quais a venerao do povo aponta, como relquia histrica, a vasta casa 
que foi de Costa Carvalho, o ilustre marqus de Monte-Alegre.

Fronteira  matriz, modesta igreja de uma torre, est a casa da cmara, construda ao uso antigo, com seu campanrio no meio e as enxovias ao rs do cho, inteiramente 
isolada dos outros edifcios.

Era domingo; e havia na vila rebolio de festa.

Pelas ruas, de ordinrio soturnas e ermas, passavam ranchos de gente a p e grupos de cavaleiros que acudiam  funo. s vezes era algum carro de bois, coberto 
com esteiras e atopetado de moas, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente.

Pouco mais de nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar  ribeira junto  ponte, e dela saltavam nh Tudinha, Berta e Miguel, que tambm vinham atrados 
pela festa.

O rancho subiu ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido, investigava com um olhar de desnimo as janelas das casas. Berta a furto observava-o 
com uma expresso de terno ressentimento.

No trato dos dois moos entre si havia agora um certo constrangimento. Miguel acusado severamente pela prpria conscincia de ter mentido a seu primeiro amor e talvez 
que ligado ainda por esse elo que de todo no se rompera, fugia de conversar com Berta.

Na melancolia da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir um ressumbro de meiga exprobrao, que infiltrava-se dentro dalma e somente exalava 
nalgum momento de cisma ou descuido.

Por isso, Berta evitava tambm a companhia do moo, receosa de trair a mgoa de seu corao. Bem desejava ela consolar Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor 
a esperana de sua vida; mas temia que lhe escapasse nessa efuso o segredo de sua melancolia.

Nh Tudinha, sempre contente e prazenteira, no desmentia a sua habitual agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se a cada instante para chamar 
a ateno dos dois moos a propsito de suas observaes.

Atravessando o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caram sobre a fisionomia de Jo Fera. Sobressaltou-se a menina, e seu primeiro movimento foi 
acenar ligeiramente com a mo, chamando o capanga.

Depois do castigo que em um mpeto de indignao lhe infligira, nunca mais Berta vira o Bugre, que desaparecera de Santa Brbara. Passados alguns dias e desvanecida 
a impresso da cena medonha a que assistira, sua alma embebeu-se dos eflvios da piedade; e ela tinha d quando lembrava-se da humildade com que Jo Fera sofrera 
uma punio to cruel para seus brios.

Vendo ao capanga depois de tantos dias, cedeu, no primeiro assomo, a um impulso de bondade chamou-o. Porm logo apercebeu-se de seu equvoco. O rosto de Jo Fera 
lhe aparecera, mas por entre os vares de ferro da enxovia, em que a princpio no reparou.

Acabrunhado pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto de asco e horror, o facnora veio a Piracicaba e entregou-se  priso. Desde o dia da 
morte do Ribeiro, estava ele encarcerado na cadeia da vila.

Compenetrando-se da realidade e reconhecendo a impossibilidade em que estava Jo Fera de acudir a seu chamado, e o perigo que o ameaava, curvou a menina a fronte 
com um gesto de mgoa e resignao.

Foi rpido este incidente e ocorreu durante o trajeto da famlia pela face lateral da cadeia at a prxima rua cuja esquina dobrou.

Nas horas mais quentes do dia amainou o rumor da festa para recrudescer ao cair da tarde, quando todas as janelas se atufaram de moas e a massa do povo se apinhou 
pelos cantos das ruas.

Ao repique de sinos e estrondo dos rojes, desfilava pelo largo da matriz a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e flautas, que compunham 
a banda de msica.

Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros e 
damas da corte, que no ficavam somenos aos soberanos do imaginrio reino africano.

Fazia de rainha Florncia, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricao da vizinhana; e todos os outros personagens, cativos 
das fazendas prximas.

O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com ddivas dos senhores, cuja vaidade se personificava nos prprios escravos. Cada um desses 
ricos fazendeiros se desvanecia da admirao que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens, e pelos soberbos cavalos fogosos que 
eles meneavam com certo donaire.

No meio das figuras, vestidas  antiga e de fantasia, saltavam outras, cobertas ou antes eriadas da cabea aos ps com os molhos de um capim duro e hspido. Agitado 
pelo contnuo movimento, produzia essa croa verde um vivo sussurro, ao qual respondiam os chocalhos de latas e as cabaas, que tangiam os pretos assim mascarados.

Esse resqucio dos folgares e danas dos ndios caiaps dava  festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro contraste com as galas e louanias emprestadas 
pela moda europia, ou pelos usos do Oriente.

De ordinrio costumam as pretas fazer a sua folgana do Congo nas proximidades do Natal; mas nesse ano no a tinha podido aprontar para aquele tempo.

Quando passava a cavalgada pela casa onde estava a famlia de Lus Galvo, Rosa mordeu-se de inveja ao avistar Florncia, repimpada no melhor cavalo de D. Ermelinda, 
com a trunfa riada, um diadema na testa, e o rgio manto escarlate roagante pela anca do lindo ginete.

Nesse instante lamentou ser mucama, condio que a sujeitava a certo recato, e a privava, portanto, de tomar parte no folguedo. Como preta da roa teria outra liberdade; 
e ningum lhe disputaria por seguro o ttulo de rainha.

Linda, que via distraidamente passar a cavalgada, de repente estremeceu. Descobrira defronte, na calada, Miguel ao lado de Berta; e o cime lhe mordeu o corao. 
A amiga, apesar do afastamento a que a obrigava a severidade de D. Ermelinda, lhe fizera um gesto de adeus; mas ela voltou o rosto para no corresponder quela mostra 
de amizade.

Compreendeu Berta o que sentia Linda; e insensivelmente arredou-se do moo.

XXIX

Confisso

Afonso, apenas avistou Berta, afastou-se da janela onde estava com a famlia, esgueirou-se por entre a multido.

- Berta!... psiu!... disse ele chegando-se  menina.

- Olha D. Ermelinda!

- Ela no me enxerga, retorquiu o rapaz escondendo-se atrs de uma pinha de gente.

- No tem medo?... E se ela ralhar com voc? acudiu Berta atirando-lhe um remoque.

- Ento sou alguma criana! disse o rapaz ferido nos brios, e realando a estatura para afirmar sua hombridade.

- Mas no  capaz de fazer uma coisa contra a vontade de sua me! redargiu Berta com o mesmo chasco, para excitar o amor prprio do camarada.

- Pois eu lhe mostro! respondeu Afonso com ar decidido, e adiantou-se para afrontar as vistas de D. Ermelinda.

Sorriu Inh, que voltando-se para o moo, ocupou-se em travessear com ele, como outrora costumava.

No tinha outro modo seno este de apagar no esprito de Linda o cime que a traspassara.

- Como est Linda? perguntou a menina depois de algum tempo consumindo em gracejos. Ainda se lembra de Miguel?

- No sei!... respondeu Afonso constrangido.

- Teve ordem!... acudiu Inh assistindo no remoque anterior.

- No v como anda triste!

- Ento ela sempre quer bem a Miguel?

- Sempre!

- Preciso falar com ela! Como h de ser?

Nesse instante um caiap de alto porte e compleio robusta, separado do bando que j ia longe de envolta com a cavalgata, atravessando a rua, parou defronte dos 
dois moos e afincou-se a observa-los.

De repente saltou em frente de Afonso e ouviram-se estas palavras, que rompiam da croa espessa, como da brenha escapa o rugido da fera:

- Teu pai matou a me dela; tu queres matar a filha;  duas vezes!

Desde alguns momentos o olhar de Lus Galvo descobrira da janela fronteira o filho a falar com Berta, e no se arredara mais do grupo. Aquele quadro brilhante da 
juventude, borrifado com os sorrisos de alegria e perfumado com as fagueiras primcias do corao, despertavam nele reminiscncias to suaves, dormidas no fundo 
da lama!

Lembrava-se das festas de outrora, quando era moo como o filho, e ali, na mesma vila de Piracicaba, tantas vezes escapulia da famlia para seguir o rancho de moas 
onde ia Besita, e  surrelfa apertar-lhe a mo, ou trocar uma palavra balbuciada a medo.

Para mais avivar as cores a essa tela da mocidade, que os anos tinham desbotado, ressurgiam a diante de seus olhos as prprias figuras do gracioso painel; ele retratado 
na pessoa de Afonso; ela, revivendo na gentileza de Berta.

A D. Ermelinda no escapara essa distrao; acompanhando a direo do olhar e reparando na expresso de ternura e enlevo que se derramava na fisionomia do marido, 
sobressaltou-a nova e mais cruel suspeita.  infidelidade do passado acrescentaria Lus Galvo a perfdia no presente?

No teve tempo a desolada senhora de sondar esse novo abismo de dor que se rasgava em sua alma, j to atribulada.

Mal lanara a Afonso o dito misterioso que lhe prorrompeu dos lbios, o caiap travando com irresistvel impulso do brao do moo, arrancou-o do lugar onde estava 
e trouxe-o at junto da janela de D. Ermelinda.

A, afrontando-se com Lus Galvo, apontou para o filho, e proferiu estas palavras, obscuras como as outras:

- Teu sangue mau quer matar teu sangue bom! Toma cautela!...

Com pasmosa rapidez passara essa cena estranha. Ainda no se desvanecera o espanto por ela causado nos assistentes, que j o caiap havia desaparecido entre a multido, 
sem que fosse possvel indicar por onde se fora.

Ao mesmo tempo soava grande rumor na praa da matriz; e magotes de povo a correr pelas ruas deixavam entre o vozeio soturno da turba estas vozes repassadas de pnico 
terror, que retalhavam o borborinho como correntes vivas a sulcarem um brejo:

- Arrombada a cadeia!...

- Assalto na vila!

No meio do susto produzido por este boato, o povo se dispersou, pondo termo  festa.

Entretanto, o subdelegado em companhia de alguns cidados mais animosos dirigia-se  cadeia para verificar o fato, divulgado pela voz pblica.

Havia exagerao na notcia: dera-se apenas a fuga de um preso, que arrancara por um esforo desesperado um varo da enxovia; e aproveitando-se da distrao da sentinela 
no momento de passar a cavalgata, saltara na rua, arrebatara a um caiap a croa de capim, e perdera-se na turbamulta.

Meia hora depois, Lus Galvo com a famlia voltava a Santa Brbara.

D. Ermelinda que insistira em ver a festa, na vaga esperana de quebrar o enleio no qual viviam ela e o marido desde a noite de So Joo, se obstinara em voltar 
para as Palmas naquela mesma tarde.

A cena da janela e o dito misterioso do caiap tinham produzido nela to profundo abalo, que j no podia conter as sublevaes da sua dignidade de esposa, indignamente 
ultrajada por quem mais a devia zelar.

Era urgente e indeclinvel a explicao, que retardara por melindre de sua alma e pela natural esquivana que sente-se em dissipar por todo o sempre a doce iluso 
da felicidade.

Apressando o cavalo, D. Ermelinda transpunha a distncia que ainda a separava da casa. Afonso galopava ao lado de sua me, enquanto Lus Galvo e Linda vinham aps 
largo intervalo, ao passo moderado dos animais.

Terminava o crepsculo; mas a lua assomando no horizonte coava o seu lvido claro atravs da morte-cr, que o dia expirante ia deixando pelos ermos.

Emudecera o hino da tarde, repassado de ternas melodias, e a natureza, a mxima e sublime orquestra, preludiava a elegia da noite. O primeiro grilo soltava o estrdulo; 
e o seio da floresta agitada pela virao da noite, arfava ao ofego de um gemido plangente.

 beira da estrada via-se um vulto negro, que de longe afigurava-se urna de algum bugre, esquecida  flor da terra. Ao tropel dos animais o vulto ergueu a cabea. 
Era Zana. Soltando um grito de espanto, arrojou-se  frente do cavalo de Afonso, e estendeu as mos splices:

- Pelo amor de Deus, nh Lus!... No faa mal a Nhazinha!... Da outra vez ela chorou tanto! E depois veio o marido e matou Nhazinha!... Por vida de seu pai, nh 
Lus!... Eu lhe peo de joelhos!

A msera negra, na sua alucinao, remontava o curso da existncia, e revivia o tempo j passado, quando Lus fora mancebo que representava agora seu filho Afonso.

Ao aproximar-se da cena, ainda ouviu o fazendeiro as ltimas palavras de Zana, e estremeceu; mas revoltando-se afinal contra essa fatal obsesso que depois de quinze 
dias o arrastava de humilhao em humilhao, decidiu romper de uma vez o segredo que o acabrunhava.

Ao olhar cheio de nsia da mulher, respondeu indicando os filhos com um olhar expressivo.

- Vo seguindo! disse para Afonso e Linda.

Fez um gesto  mulher, e tomou para a tapera que ficava a algumas braas da estrada. D. Ermelinda o seguiu transida de emoo at a frente da casa em runas.

- Foi aqui!... balbuciou a voz trmula de Lus.

XXX

A enjeitada

Dois dias decorreram depois da festa do Congo.

Jo Fera derreado a um tronco de rvore, no mato que cerca a tapera, espreita a chegada de Berta. A menina o tinha chamado, quando o avistara na enxovia; e ele que 
se fora entregar para fugir ao seu desprezo acudiu prontamente. Desde a vspera a esperava naquele stio.

No deixava, porm, o capanga de nutrir receios a respeito do modo por que Berta o acolheria. Talvez aquele gesto lhe escapasse sem ela o sentir; e agora tornando 
a v-lo crescesse o horror que lhe inspirava depois das mortes por ele perpetradas. Nesse caso voltaria para a priso.

Acabava de fazer ainda uma vez esta reflexo quando ouviu crepitarem as folhas sob o passo ligeiro de Berta, que atravessou o terreiro com alvoroto, e correu para 
Zana acocorada junto  parede.

A louca recebeu a menina com viva efuso de contentamento, que se manifestava em gritos inarticulados e gaifonas de toda a sorte. Sfrega, no esperou Berta que 
passasse aquela expanso; travando das mos da preta e cravando nela os olhos como se pudesse perscrutar-lhe a conscincia, exclamou com ansiedade:

- Minha me, Zana!... Voc no se lembra dela?... De minha me!...

Tartamudeou a louca sons incompreensveis, e sua fisionomia embotou-se, tomando a expresso pasma e fixa, que lhe imprimia uma imobilidade quase marmrea.

Acaso j conhecia Berta o segredo de seu nascimento? Ou aquilo era apenas uma suspeita, inspirada pelas palavras misteriosas do caiap?

Eis o que havia ocorrido:

A em frente da tapera, ao morno claro da lua, comeara Lus Galvo na noite da festa a fazer a sua mulher a confisso plena da aventura de que fora teatro aquele 
stio, e ele o triste heri.

No ocultou a mnima circunstncia; referiu tudo: a sua repugnncia de casar com Besita por ela ser pobre; a inteno prfida com que a requestara; a cilada de que 
serviu-se para surpreender a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento em que a deixou.

Que esforo no foi preciso para sobrepujar o vexame dessa revelao? Queimava-lhe as faces o rubor; a voz estrangulava-se; mas consumou esse grande ato de contrio 
que devia remir sua alma.

Quando chegaram  casa, D. Ermelinda sabia tudo. As lgrimas e soluos que tragou em silncio; as nsias e desesperos que recalcou no peito, ningum os viu. Mas 
a manga de seu roupo que ela mordia para no deixar escapar o grito, ficou despedaada.

Apeando-se, correu a seu quarto e trancou-se. Lus Galvo compreendeu que ela devia sofrer, e respeitou aquela dor santa, no a importunando com banais consolaes. 
Acendeu um cigarro; e velou o resto da noite fumando.

Na manh seguinte cada um dos dois consortes, plido, como espectro que abandona o tmulo, viu refletir-se no outro a desolao que em si produzira aquela noite 
fatal.

D. Ermelinda chegou-se com um triste, porm meigo sorriso, e apertando a mo do marido, murmurou-lhe ao ouvido:

- Meu amigo,  preciso reconhecer a sua... a nossa filha!...

Arrasaram-se de lgrimas os olhos de Lus, que apertou estremecidamente a mulher ao corao, erguendo os olhos ao cu.

- Que santa me deste tu, meu Deus, a mim que no mereo!

Logo depois do almoo, D. Ermelinda foi  casa de nh Tudinha e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelao que o pai ia fazer-lhe de seu nascimento. Com o tato 
de mulher e me quis a boa senhora poupar  enjeitada a dor que havia de curtir se viesse a conhecer a desgraa de Besita.

Imaginou pois um meio delicado de revelar a lgubre histria. Besita casara com Lus s ocultas, por causa da oposio do velho Galvo. Morrendo a moa, e casando 
Lus pela segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era vivo e tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada como uma estranha em casa alheia.

Eis o que ideara D. Ermelinda, e o que nh Tudinha, contente pela ventura da menina, mas desconsolada de perder aquela filha, repetiu nessa mesma tarde. As perguntas 
e instncias que sucederam  surpresa de Berta, apenas arrancaram da viva a declarao de que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava.

Uma voz ntima dizia a Berta que muita coisa lhe ocultavam da histria de sua me; e era este segredo que ela buscava escrutar no crebro enfermo da negra, onde 
sabia, que estava sepultado.

Desde muito tempo tinha ela o pressentimento, de que o terrvel drama representado pela estranha mmica da louca, se prendia  existncia dela, Berta, por um fio 
misterioso. Agora tinha a certeza.

Cheia de nsia, em face da negra esfinge que emudecia, lanou a menina em trono um olhar de desespero, e avistou Jo Fera a alguns passos.

Teve um assomo de alegria e correu para o capanga; mas recuou horrorizada, e balbuciou apontando para as mos suplicantes que lhe estendia o Bugre:

- No me toques. Tuas mos tm sangue!...

Caiu de joelhos o facnora, e assim, arrastando-se at os ps de Berta, murmurava:

- Por piedade, Nhazinha!... Nunca mais!...

Ergueu a menina a fronte resplandecente, como se a cingisse a aurola da caridade.

- Tu juras?... Tu juras nunca mais fazer mal a ningum?

- Juro.

Tirou Berta do seio a cruz presa com o bentinho ao cordo de ouro; e o Bugre a beijou repetindo o juramento. Depois sacou as armas da cinta, e arremessou-as longe 
de si.

Nesse instante Zana que descobrira Jo atirou-se para beijar-lhe as mos com fervor; e apanhando a faca, procurou prende-la entre os dedos do Bugre.

- No careo mais, Zana!... Ela est vingada. Posso morrer!

Esta cena despertou no esprito de Berta uma recordao. Acudiram-lhe as palavras do caiap na festa da vila:

- Jo, tu conheceste minha me!

- Quem lhe disse, Nhazinha?

- Conta-me como ela morreu!

- No...

- Conta! Eu quero!

Referiu o Bugre com a voz trmula e o seio opresso a histria de Besita desde que a conhecera at o momento em que a tinha perdido para sempre. No disse ele se 
tinha amado a moa; mas na palavra balbuciante Berta lhe sentia palpitar o corao aos mpetos da paixo imensa.

Quando terminou essa dolorosa narrao, Berta que a ouvira com um respeitoso silncio, apenas cortado pelo contnuo soluo que fazia arfar-lhe o seio, alou ao cu 
os olhos cheios de lgrimas.

- E ele  meu pai!...

Depois erguendo-se de um mpeto, e apertando as mos grosseiras do Bugre:

- No! No!... exclamou ela. Meu pai s tu, que me recebeste dos braos de minha pobre me, com seu ltimo suspiro. s tu, que a adoravas, como a uma santa; e quando 
ela deixou este mundo, no tiveste no corao outro sentimento mais, seno dio a todos, menos a mim, que te lembrava ela. Oh! Eu compreendo agora, Jo, o que te 
fez mau!... Mas fiquei eu neste mundo, em lugar dela, para fazer-te bom!...

Falando assim, com sublime exaltao Berta abraou o Bugre, que sentiu-se tomado de uma vertigem, e tropeando agarrou-se  parede para no cair.

XXXI

Alma sror

Descamba o sol.

Berta sentada  sombra do oito da casa de nh Tudinha, deitou sobre os joelhos a camisa que estava cosendo para Jo, e embebeu no azul difano do horizonte um olhar 
profundo, coalhado de lgrimas.

A seus ps, Zana agachada na esteira, contempla exttica o rosto da menina; e de vez em quando o prazer ntimo que ela sente, derrama-se em sua fisionomia, e banha-lhe 
o rosto de um riso bao.

Ao lado, o Brs contempla Til com surda inquietao, que se trai a espao pela contrao dos msculos faciais e pela extrema mobilidade da pupila espantada.

Algumas braas distante, Jo curvado sobre a enxada, carpa a terra preparando as leiras para a plantao do feijoal. De vez em quando pra um instante, enxuga com 
a manga da camisa o suor abundante que lhe escorria da testa, e sopra os calos de que o trabalho j lhe encruou as mos. Nessa ocasio crava com desassossego um 
olhar em Berta.

Miguel assomou  porta da casa, e desprendendo-se do estreito abrao em que o cingia a me lacrimosa, dirige-se para o lugar onde estava a menina.

Importantes acontecimentos tinham passado na ltima semana decorrida depois da confisso que Lus Galvo fizera  sua mulher.

Berta recusou obstinadamente reconhecer Lus Galvo como seu pai. A todos os rogos e instncias respondia com um meigo sorriso:

- No acredito, esto me enganando; meu pai  Jo. Foi ele quem teve d de minha me, e quem me criou!... No tenho outro seno ele!

Assim em compensao de tantas mseras crianas abandonadas por aqueles que lhes deram o ser, houve ento um pai enjeitado.

Muitas vezes Lus Galvo insistia em reconhecer a filha e leva-la para a sua casa, onde acharia em D. Ermelinda uma terna e boa me:

- Me, dizia Berta, no quero outra seno aquela que me est esperando no cu. Mas h uma coisa que me faria muito feliz. Esse lugar que no pode ser meu, eu dou 
a Miguel. Ele quer tanto bem  Linda!...

No teve Lus Galvo coragem para resistir ao pedido de Berta. Parecia-lhe que assim cumpria um voto de Besita. D. Ermelinda condescendeu prontamente com o desejo 
do marido, ansiosa por v-lo restitudo  sua tranqilidade e arrependida da confisso que provocara.

Combinou-se que Miguel iria estudar a So Paulo; e dois anos depois se efetuaria o casamento naquela cidade para onde a famlia devia partir logo.

E quem sabe se voltaria mais s Palmas?

Chegara a vspera da partida. Miguel fora despedir-se da me para seguir l pela madrugada com a famlia caminho da capital. Lus Galvo lhe pedira ainda uma vez 
empregasse todos os esforos para resolver Berta a acompanha-los.

P moo ao chegar anunciara sua inteno de levar Berta, e da o desassossego que transparecia no semblante do Bugre, e no olhar do idiota, confiado  guarda de nh 
Tudinha durante ausncia do tio.

Dirigiu-se Miguel a Berta e apertou-lhe ambas as mos.

- Ento, Inh?...

E seu olhar exprimia uma splice interrogao. A menina moveu lentamente a gentil cabea.

- Fica?

-  preciso, Miguel. Quem h de consolar sua me?

- Coitada! murmurou o moo.

E afastou-se da casa para no ouvir os soluos de nh Tudinha. Berta o seguiu.

Por algum tempo caminharam os dois em silncio, par a par escutando as emoes que falavam dentro dalma opressa. Uma lgrima tremia-lhe nas plpebras prestes a 
estalar.

- Se voc tivesse querido, Inh, disse timidamente Miguel, poderamos ser to felizes!...

- E voc no , Miguel? perguntou Berta fitando nele um olhar melanclico.

- Sou! respondeu o moo com um suspiro.

Houve um novo e longo silncio. Foi Miguel quem outra vez rompeu:

- Meu sonho era viver aqui nesta casa onde nasci, com minha me e voc, Inh. Por muito tempo sorriu-me esta doce esperana; mas voc no quis!

- No diga isto, Miguel! exclamou Berta com a voz afogada em lgrimas.

- Quem me separa destes lugares e talvez para sempre?

Curvou Berta a cabea e balbuciou:

- Lembre-se de Linda!

- Lembro-me daquela que foi companheira de minha infncia, com quem folguei os primeiros anos da vida, e cuidei que havia de repartir minha pobreza e humildade. 
Quantas vezes supliquei a Deus que nos conservasse unidos sempre, e esquecidos aqui neste canto do mundo. Mas ela tomou para si unicamente a existncia tranqila 
e feliz que eu pedia para ambas, e aparta-me de si para longe!

- Miguel!...

Olhares ansiosos seguiam Berta, que afastava-se lentamente de Miguel na direo das Palmas.

Jo, vergado sobre o cabo da enxada e agitado por veemente comoo, parecia despedir-se de si, para se precipitar aos ps da menina. Brs, cavado o semblante por 
violentas contores, arrancava os cabelos da grenha ruiva, e mordia o beio para no gritar. Zana estendia os braos hirtos, e no af de alcanar Berta e aperta-la 
ao seio, rojava-se pela grama.

Miguel falava com fervor, e a fronte gentil da menina pendia com lnguida e meiga inflexo, como nenfar que se debrua  beira do regato e no tarda a ser levada 
pela corrente que o enamora.

Afinal o moo enlaou com o brao a cintura da menina, e a atraiu sem que ela lhe opusesse a mnima resistncia. Pousando a cabea trmula no ombro de seu companheiro 
de infncia, deixou-se Berta levar, embalada por um sonho fagueiro.

Cortou os ares um grito de angstia. Brs cara ao cho como fulminado, e estrebuchava em uma violenta convulso, soltando uivos estridentes.

Berta desprendeu-se dos braos do moo:

- No, Miguel. L todos so felizes! Meu lugar  aqui, onde todos sofrem.

E rompendo o doce enlevo que a prendia um momento antes, soluou:

- Adeus!...

Correu ento para o msero idiota e sentando-se na grama para deita-lo ao colo, ocupou-se em afaga-lo.

Quando moderou o acesso e que ele pode ouvi-la, falou-lhe com profunda comoo:

- Eu sou Til!... Til s!...

Compreendeu Brs a significao destas palavras, e adivinhou quanta sublime abnegao exprimiam elas?

Nesse instante Miguel voltou-se alm, na extrema do caminho onde ia sumir-se, e a brisa trouxe um eco de sua voz:

- Adeus, Inh!...

Os lbios de Berta murmuraram frouxamente:

- Para sempre!

Jo de p em face dela esmagava com os punhos as bagas que lhe saltavam dos olhos; enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que tentava sufocar.

Berta pousou nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:

- Vai trabalhar, Jo!...

Entrou em casa para consolar nh Tudinha; e instantes depois se restabeleceu a cena plcida e melanclica do comeo da tarde.

Quando o sol escondeu-se alm, na cpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, 
que repetiam, ajoelhados a seus ps, o idiota, a louca e o facnora remido.

Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde no penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da misria, 
que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraa.

Era a flor da caridade, alma sror.
